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Gemini - O Signo da Liberdade

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"E se o destino do mundo estivesse nas mãos de um geminiano?"

Na pacata vila de Massana Tukana, localizada no coração da Amazônia brasileira, vive o cético e incrédulo Kadu. Ele é filho adotivo de uma família indígena que prometeu escondê-lo e protegê-lo de um grande m*l. Após a terceira guerra mundial, a terra sofre com os atos impensados ​​da ganância humana. Guerras, poluição e um único governo são levantados prometendo paz mesmo que pela força, e o mundo é unificado sob a bandeira dos Filhos da Luz, e aqueles que não aderem são banidos. Deuses foram mortos, crenças foram destruídas e zodíacos foram perdidos entre guerras ideológicas. Só os índios resistem, e só o Geminiano, o Nascidos sob o Signo da Liberdade, pode mudar essa realidade.

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Capítulo I – “Sortudo”
“Crer não é uma opção, mas às vezes é o único caminho para se conhecer a verdade.” Brasil, floresta amazônica. O ano é 2077 e nosso mundo está morrendo. De tanto tentarmos, conseguimos ferrar com o planeta. E olha que não faltaram ações e protestos de grupos ambientalistas que deram a vida (literalmente) para conscientizar os exploradores e assim convencê-lo a parar com a destruição do nosso mundo. Hoje a realidade é amarga. Chuvas ácidas em todo lugar, rios e mares poluídos. Todos os dias uma espécie animal ou vegetal é declarada extinta. Desertos se espalham por quilômetros e mais quilômetros onde antes eram florestas. Os desertos crescem e vem a falta de espaço para o plantio. A comida está cada vez mais escassa. Salve o Capital, o monstro explorador, fábrica de adoradores do dinheiro desumanizado. O caos que se espalhou pelo mundo gerou um campo fértil para que falsos mitos e aproveitadores charlatães vendessem suas "fórmulas mágicas da paz". Deus se tornou uma indústria e a fé seu principal produto, uma relés, mas valiosa mercadoria. Após a terceira guerra mundial os governos do mundo se fragmentaram. A civilização até então construída sob a bandeira da democracia se desfez em meio a onda de fome. Guerras civis se espalharam por todas as partes, o que favoreceu o surgimento de "pacificadores" mundiais. Um g***o prevaleceu e unificou todos os governos em um só. Vivemos sob o regime de um estado Único mundial que professa uma única fé: Os Filhos da Luz que são liderados por um louco que se autoproclama Deus. Todos devem ser “unificados”, expressão que eles mesmos utilizam, “pois a unificação é o único caminho da paz”, tal como eles pregam. Recebemos o sinal da fé, uma tatuagem na palma da mão direita, e depois somos incluídos em um programa de “aprimoramento”, onde os que se entregam à Luz recebem uma porção diária de água e comida, e podem viver em “paz”. Estes que se dobram a seita, perdem a luz da liberdade. Nada questionam, nada reivindicam. São como cordeiros adestrados. A ração dos Filhos da Luz é perigosa… Vários grupos pelo mundo resistem a tal sistema impregnado de fanatismo religioso e não se entregam à Luz. Por isso são brutalmente perseguidos e, se capturados, são "convidados" a se arrepender dos seus pecados, e se não aceitam se dobrar ante a fé dos Filhos da Luz, são executados com transmissões em rede mundial como exemplo para desencorajar outros dissidentes. Mas parece que a coragem subjuga o medo de morrer. Os que se negarem a receber essa falsa fé vão se organizando em grupos cada vez maiores. As cidades grandes (ou o que sobrou delas), tal como São Paulo ou Rio de Janeiro, são terrenos perigosos para esses grupos que oferecem resistência à doutrina de violência dos Filhos da Luz. Por isso elas buscam abrigo junto às poucas tribos indígenas que moram no que restou das florestas amazônicas. Tribos que ainda resistem e que abrigam inúmeros núcleos de rebeldes. Eu vivo em Massana Tukana, uma aldeia no coração da floresta amazônica do Brasil, onde os indígenas que lá resistem, acolhe a todos que buscam fugir dessa loucura, ou querem se manter fora do radar das forças militares dos Filhos da Luz para organizarem suas pautas de resistência e rebeldia. Muitos querem derrubar o líder dessa seita e se verem livres mais uma vez. Meu nome é Kadu, filho adotivo de uma linda família indígena brasileira. Não é difícil de perceber o fato da minha adoção, já que sou de pele preta e meus pais têm a pele de tom típico dos indígenas brasileiros. Eu tenho uma consciência mais racional e sou pouco apegado à cultura supersticiosa dos meus pais adotivos. Minha adorável mãe chama-se Nadi e meu pai Kauê, e tenho uma irmã com 14 anos, Anahí. Inteligente, amorosa, mas muito curiosa e chatinha…rsrs tal como deve ser uma adolescente. Segundo umas das muitas tradições que o meu povo se apega, a mais antiga e mais fantasiosa de todas é a que fala sobre a lenda dos zodíacos. É a mais cultuada na minha aldeia onde fazem questão de manter viva tal tradição. Eu sou um indivíduo que tem 27 anos, sou nascido sob o signo de Gêmeos em algum dia entre 21 de maio a 20 de junho do ano de 2050. Não tenho certeza da data já que não possuo nenhum documento para comprovar isso. Tudo o que sei sobre isso é o que meus pais biológicos falaram para o Pajé da minha aldeia no dia que fui deixado aqui. Os outros moradores da nossa aldeia sempre me dizem que eu tenho muita sorte. Que sou "especial", pois há muitas gerações, centenas de anos, ninguém nascia sob esse signo. Ou era exterminado antes de se tornar adulto, ou simplesmente não se via bebês nascerem entre esses dias. Geminianos estavam extintos, até eu nascer. “Tenho sorte”... Como podem achar isso se nasci em uma época onde assistimos nosso mundo morrendo devido aos abusos daqueles que só visam lucros. Vimos a grande 3ª guerra mundial (que foi deflagrada no ano de 2055 e durou mais de duas décadas), gerando sofrimento, morte, devastando países inteiros fazendo nascerem cidades mortas pela radiação das armas nucleares. A guerra não acabou pela boa v*****e dos envolvidos ou porque houve vencedores, mas sim pelo simples instinto da autopreservação, pois nem os mais loucos dos ditadores querem reinar sobre um planeta morto. Aí eu pergunto: que tipo de sortudo nasce em meio a tantas desgraças? Tanto sofrimento que poderia ser evitado. Tantas mortes desnecessárias. Coisas de seres humanos difíceis de compreender! Por que tantas brigas e disputas, em geral por recursos naturais como territórios e afins, se têm de tudo para todos? Petróleo… Por que tanta dependência de um combustível fóssil que fornece energia se tem tantas outras opções iguais e até melhores? Não é difícil compreender porque os proprietários de tal material investem muito tempo e dinheiro para nos convencer que tal combustível é escasso e finito e por isso devemos pagar caro por ele e até m***r/morrer por ele, sendo que na verdade isso não condiz com a realidade. Precisamos da tecnologia para o bem estar e evolução humana, não para mercantilizar a vida e enriquecer uns poucos que monopolizam o acesso a todo tipo de tecnologia, seja de saúde, seja de utilidade. Enfim, fácil entender, difícil aceitar… Não bastasse toda essa desgraça que me circunda e todas essas dúvidas sobre o mundo e como ele funciona, vou repetir para ficar bem claro: quando criança eu fui abandonado por meus pais aqui nessa tribo no coração da floresta amazônica, ou o que restou dela, e fui criado pelo povo desta aldeia onde moro e que até o início da grande guerra, era isolada do mundo, hoje é um covil de rebeldes de todas as partes do mundo. Que sortudo eu não? Não que não tenha recebido muito amor e afeto; não que esse povo não tenha me oferecido todo tipo de formação e informações as quais eu tratei de absorver tudo o que pude. Tanto sobre as culturas locais indígenas, como sobre a sociedade “civilizada”. E é daí que as minhas indagações mil saem. Com tanta coisa na cabeça, surge essa minha inquietude e questionamentos. Olha, pode acreditar ser assim deixado por nossos pais biológicos é bem dolorido. Nada nem ninguém podem preencher o vazio que nossos genitores deixam em nossas vidas. No entanto, sou muito grato aos aldeões e a minha família adotiva que me deu tudo o que precisava para crescer e ser alguém além de lágrimas e solidão. Com tanta guerra e desolação, os povos das grandes cidades foram obrigados a buscar abrigo junto àqueles considerados "selvagens"; junto àqueles que consideravam um incômodo a evolução da civilização; junto àqueles que tanto foram perseguidos e dizimados no decorrer da história do crescimento das grandes cidades. Ironicamente a continuação da civilização dependia dos povos “não civilizados". No começo, meu povo a quem acolhi de corpo alma e coração, os indígenas, resistiram a tal migração, pois as mágoas e desconfiança eram grandes demais. Como acolher aqueles que perseguiram e massacraram nossos antepassados? Como dar a mão ao povo que sempre nos largaram à própria sorte e sistematicamente ignoravam nossos clamores de “socorro”? Como confiar em pessoas que desrespeitavam nosso jeito de viver, nossos deuses tratados como hereges, nossa cultura vista como primitiva e desprovida de fundamentos, nossas lendas consideradas meras alegorias de folclore? Como?? Mas o Grande Espírito, como eles chamam e adoram (nesse ponto eu me entrego ao ceticismo, beirando o ateísmo, pois a minha lógica e razão me fazem ser mais distante desses assuntos), tocou o coração dos povos originários, os donos das terras, os povos que sempre existiram antes de tudo, e desde então, passaram a acolher os refugiados. Assim, através da união de várias nações, línguas e culturas, nasceu esse grande povoado escondido no meio da floresta amazônica. Grupos que crescem cada dia mais acolhendo os refugiados de guerra, aqueles que se negam a aceitar a fé dos Filhos da Luz, pessoas que creem em uma civilização fundamentada em paz e não em guerra. Onde o diálogo, o respeito a toda cultura, deuses e línguas sejam a tônica e não haja a violenta imposição de uma única fé e a adoração a um único deus, melhor um homem autoproclamado deus. E foi assim, e é assim que os refugiados enviados pelo Grande Espírito são acolhidos e fazem nossa aldeia crescer cada vez mais tanto em população quanto em diálogo e fraternidade, pois as cicatrizes das guerras doem, mas aos de coração abertos, tal dor faz crescer na alma um espírito de unidade o que nos faz desejar e lutar com mais paixão ainda pela Paz. Já disse que me tratam como um “especial” certo? Bom, como eu já disse, confesso que sou meio indiferente a todo esse papo místico. A única coisa que acredito é que o mundo está acabando, as pessoas lá fora são más e eu, bom... Eu teimosamente quero sobreviver e ver onde isso tudo vai dar. Quisera eu poder satisfazer apenas dois desejos: Ser Imortal e assim poder obter todo o conhecimento possível. Poder estar aqui e assistir de camarote o espetáculo do nosso sol se tornar uma supernova e por fim explodir em um grande espetáculo de energia e luzes que só esse nosso universo pode nos proporcionar. Ahh, como eu queria ver, aliás, seria a última coisa que eu veria!…rs Mas imortalidade e sabedoria são coisas que só deuses podem ter, e eu, bem eu sou só eu… um mero mortal e longe de ser sábio e por fim, eu não teria essa sorte toda de ser agraciado por tamanha dádiva. É importante dizer para vocês que meus pais adotivos são bem carinhosos e eles sempre busca me dar o melhor que eles podem. Todos na aldeia me tratam bem, apesar de me verem como um “cara diferente” devido a minha forma não religiosa de pensar, ou mesmo por eu não ser assim a pessoa mais devotada a manter tradições antigas, ainda sim sou bem tratado e aceito como eu sou, como igual. O nosso grande Pajé Kumuã (ele é assim chamado porque sempre que pode e é solicitado, aplica o Bahsessé. Benzimento quem vem lá do Alto Rio n***o busca evocar os seres da floresta que, segundo ele, detêm todo o conhecimento sobre a humanidade), uma pessoa bondosa e sempre disposta a falar sobre os deuses antigos e manter viva a fé. Um homem que não faz distinção de pessoas, que não se importa com as origens de cada um. Que não vê erro ou anormalidade naqueles que querem viver suas preferências afetivas e sexuais como sentem no coração, um homem que muito admiro e que faço questão de aprender o máximo que posso com ele. Kumuã sempre que me encontra, faz questão de falar sobre a minha condição de “especial”, de como fui chamado a cumprir um destino grandioso e tals. Fala sobre uma profecia de como “aquele nascido sob o signo da liberdade, um geminiano, a pessoa que unificará os dons do Enuma e libertará o mundo da falsa luz”. Eu ouço e dou um sorriso simpático, mas no fundo acho tudo uma tremenda besteira. Eu, escolhido para alguma coisa? Isso sim é uma ideia ridícula. Mas eu nada falo e respeito às crenças dele, pois se tem uma coisa que bem aprendi aqui com meus irmãos indígenas é sobre o respeito, equilíbrio e fraternidade. Respeitar a vida como um todo, pois tudo é importante e nada deve ser destruído sem que não haja um propósito. Nenhum Animal é abatido só por fazer, tem que ter um motivo e uma necessidade. Nenhuma árvore é derrubada sem que haja um real objetivo para isso. O ciclo da vida, da natureza, é respeitado integralmente. Existe tempo para tudo. Para plantar e para colher, para pescar e para esperar os peixes. Nós esperamos o tempo da Natureza e ela retribui com tudo o que precisamos. Não acumulamos nada além do necessário, tudo que temos é em comum, pois não há sentido em ter mais que meu semelhante. A minha necessidade não é maior que a do outro. Eu como, eu visto, e preciso na mesma proporção que o outro, e tudo estão à nossa disposição. O Grande Espírito através da Mãe Natureza nos assiste em tudo e de forma igualitária, afinal somos irmãos. Ter é nada, Ser é tudo. Sempre que passo perto da cabana do pajé, ele me chama para entrar, tomar um chá e conversar. E lá vem ele: - Olá Kadu! Como vai a sua família? - Bem nobre Pajé. O que os deuses estão dizendo hoje? - Ora garoto Kadu, você sabe muito bem o que eles dizem. Mas entre, quero falar com você. - Ah… é sobre aquele assunto de eu ser “o Geminiano”, blá, blá, blá, vamos deixar para outra ora?! - Kadu, esse seu jeito, essa sua mania de fugir do seu destino ainda vai custar muito caro para você e para as pessoas que ama. Ninguém pode viver assim fugindo de quem é. Mais cedo ou mais tarde, se você não for ao encontro do seu destino, ele virá até você. Acredite: muitos de nós somos chamados e viver, a existir, outros poucos são chamados para garantir a vida e a existência dos demais, e este é você. Eu sinto que o m*l se aproxima, e você precisa assumir o seu lugar na história. Aceito o seu destino. - O meu destino não está escrito Pajé. Eu sou dono das minhas escolhas, eu escrevo o meu destino e não é um signo qualquer que vai determinar o que devo ou não fazer. - Sim Kadu, somos livres e disso eu não discordo de você, mas entenda: existem forças que orientam a nossa existência e que querem precisar de nós para contribuir com a nossa evolução. Você está certo, somos livres para escolher, mas cuidado, toda escolha tem uma consequência, por isso escolha sabiamente. - Tá bem Pajé, vou escolher, e farei isso agora. Eu escolho fazer o que eu quiser, e eu quero ir para casa… Obrigado pelo chá e pela conversa, até mais. - Até mais Kadu. Que os Deuses estejam com você. É sempre assim quando o velho Pajé me vê, até já me acostumei. Enquanto isso a vida segue pelo mundo afora, a violência das guerras segue, a imposição f*****a da fé segue, o planeta cada vez mais morto segue, a vida segue. Só não se sabe até onde tudo isso vai seguir.

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