Capítulo II – “Genocídio”

2571 Words
“Quando em nada mais se crê a Fé pode ser sua única amiga.” Em uma noite mais escura que o normal, a lua não quis dar a graça de sua luz de prata. Eu saí para caminhar. Adotei esse costume para me ajudar a dormir, pois todas as noites sonhos estranhos (estava mais para pesadelos), atormentam o meu descanso. Eram imagens turvas e uma voz que sempre ao ouvi-la eu acordava com uma dor de cabeça terrível. A brisa ao tocar o meu rosto, parecia mais fria que de costume. Os poucos animais "sobreviventes" que sussurram à noite calaram-se, como que pressentindo a presença do terror. Eu até que tive certo pressentimento, mas ignorei, pois isso não é lógico, como pressentir algo que nem sequer aconteceu? O Futuro nem existe ainda. Assim, apesar de sentir algo estranho no ar, não desisti de fazer a minha caminhada. - Kaduuu! - Gritou a minha irmãzinha - posso ir com você? - Não, Anahí. Hoje eu quero ir sozinho. Fica com a mãe e o pai. - Você nunca deixa eu ir com você, como você é m*l Kadu. - Olha garota, eu sou mais velho que você, hein! - Seu chato! Deixa eu ir vai?! Insistiu aquela pequena teimosinha. - Eu já disse que não! - Tá bom! Você é muito chato mesmo. - Obrigado. Seu elogia alegra a minha noite…rsrs E vai para dentro. Ao caminhar pelas estreitas ruas da aldeia, percebi que, estranhamente, todos se recolheram mais cedo e o lugar estava mais silencioso que o de costume para o horário. Ao me aproximar da morada do Pajé, percebi que ele estava agitado e o medo ficava em seus olhos. Ele me avistou de longe e acenou aflito caminhando em minha direção. Mas antes que ele pudesse se aproximar o céu acendeu com luzes fortíssimas, barulhos de helicópteros, veículos blindados, gritaria e tiros. Era uma invasão. Os Filhos da Luz nos encontraram e estavam ali! Soldados impiedosos com suas armaduras brancas usando capacetes que não permitiam revelar seus rostos, empunhando armas letais e eram pessoas dispostas a matarem em nome da fé. Eu já tinha ouvido falar deles e as referências eram as piores possíveis. Por onde passam a violência é total, destroem tudo, matam a todos, massacres covardes de homens, mulheres, velhos e crianças. Filhos da luz!? Não, não. São verdadeiros genocidas é o que são, filhos das trevas isso sim. Que luz é essa que só destrói? Que fé é essa que uma vez não aceita, a punição é a morte mais violenta possível. Eu fui em direção da cabana do Pajé, pois senti que ele estava em perigo. Quase chegando, a poucos metros de mim, vi o Pajé ser alvejado por uma rajada de tiros que o acertaram pelas costas, mas mesmo ferido mortalmente, ele conseguiu cambalear até cair em meus braços. O sangue quente daquele velho homem esvai-se descontroladamente pelos buracos feitos pelas balas. Um furo pequeno na entrada da bela, uma ferida imensa na saída. É assim que acontece, foi isso que li sobre a capacidade mortal dos fuzis Sig Sauer MCX. Vi o brilho da vida se apagar lentamente nos olhos do Pajé enquanto ele tentava me dizer alguma coisa, mas era difícil falar com voz embargada pelo sangue na garganta devido à forte hemorragia interna que ele sofria. A morte reclamava por aquela alma crente e bondosa. A violência da guerra fazia mais uma vítima inocente. Pouco antes de morrer, o Pajé murmurou algo como “Enuma” e me entregou um pequeno artefato que ele mantinha amarrado em seu pescoço, eu nunca tinha visto aquele objeto. Entre gritos, tiros e aquela confusão, com muita dificuldade e usando suas últimas forças, o Pajé disse-me para eu esconder o objeto e fugir para longe dali. E também balbuciou uma frase que ecoou através da minha mente: “não fuja mais de quem você é… aceite o seu destino”. Então, a morte recolheu aquele homem que viveu para fazer o bem, lutou a vida toda pela paz, mas no fim, foi à guerra e a violência que ele encontrou. Antes que eu pudesse decentemente colocá-lo deitado no chão, outros disparos vieram em minha direção, e tudo que eu pensava naquele momento era em meus pais e em minha irmã. Eu corri desesperado em direção à cabana deles. Um medo terrível de perdê-los me dominou por completo. Ante aquele cenário de violência e desespero, a adrenalina tomou conta de mim. No caminho para a minha casa, eu ataquei alguns dos soldados com o que tinha nas mãos, p*u, pedra, socos, mas eu não parava de correr, apenas os acertava e corria como nunca corri antes na minha vida. Explosões, fogo, tiros, gritaria, aqueles homens com toda brutalidade massacraram aquelas pessoas que um dia fugiram da guerra e da miséria. Mas a morte não esquece os marcados por ela. Aqueles malditos fanáticos os seguiram até ali e sem piedade, ceifaram as suas vidas. Desgraçados, covardes. O que eles poderiam querer ali? Um lugar simples, abrigo para aqueles que perderam seu lar, local de acolhimento e cura? Lá viviam pessoas que só queriam viver em paz e reconstruir algo melhor, uma civilização melhor. Corri o mais rápido que pude, desviando das balas, tropeçando em inúmeras pessoas mortas, escorregando no sangue derramado no chão. O cheiro de pólvora, as cinzas do fogo que consumiam as cabanas e tudo pela frente, pedaços de corpos, gemidos de dor, gritos de desespero, explosões, risos sarcásticos de psicopatas amantes da violência, o horror… Eu lutava para não entrar em choque. Tudo que eu pensava era: “Corre kadu” Corre Kadu!” Fui o mais rápido que pude, mas cheguei tarde demais. A casa onde meus pais moravam estava em chamas e um desespero tomou conta de mim, seguido de uma fúria que eu nunca havia sentido antes. n******e ser. Minha família toda morta… Caí de joelhos, tentei chorar, mas não consegui. O ar faltou naquele momento e o ódio transbordava. De repente senti uma mão a me tocar pelas costas. Em fúria me virei e sem pensar duas vezes agarrei aquela pessoa pela garganta e quando já pronto para socá-la, ouvi seu grito fino de criança: - Kaduuu, sou eu! Era minha irmã que por um milagre estava viva. - Anahí, você está viva?! Que bom! - Papai mandou eu me esconder na mata e eu saí correndo, cadê a mamãe? Cadê o papai? Mas antes que pudéssemos trocar mais algumas palavras, um g***o dos invasores focaram suas luzes em nós gritando ordens para não nos mexermos. - Parados!! Não se mexam! Ele está aqui senhor, ordens? Câmbio. - “Prendo-no e traga ele para a base!” - ordenou a voz no rádio. - Sim Senhor, câmbio e desligo! Vamos soldados, algeme-os, terminem logo o serviço e vamos embora daqui. Por algum motivo desconhecido, não fomos mortos, apenas rendidos. Eram sete ao total e fortemente armados os que tinham nos cercados, e sem opções, nos entregamos. No entanto, parece que eles não foram os únicos a agirem naquela noite escura e violenta. Eu e minha irmã estávamos sendo algemados quando uma sombra passou entre os nossos detentores. Eles perceberam e colocaram-se em posição de alerta. Houve um breve momento de silêncio e imobilidade entre os soldados, pois tentaram ver quem os rondava. Mas antes de qualquer ação as luzes dos holofotes foram destruídas e na escuridão total o ataque aconteceu. Com movimentos rápidos e precisos da sombra que os atacou, nossos raptores, um a um, tombaram. Quem quer que fosse era muito bom em nocautear pessoas. Os soldados atiraram a esmo e na gana de acertar a sombra, acertaram uns aos outros. Quando todos os soldados estavam no chão fora de combate, a sombra se revelou. Era uma amazona que, pelas vestes, não era da nossa tribo. Eu nunca a tinha visto antes por ali. Um semblante sério, mas gracioso. Um olhar imperativo e intimidador, mas magnético. - Andem logo, precisamos sair daqui. Disse a nossa salvadora sussurrando enquanto abria as algemas. - Mas quem é você e por que isto está acontecendo? Perguntei. - Agora não dá para explicar nada, apenas me sigam! Ainda há muitos deles por aí, sejamos discretos. - E meus pais? Preciso ver se eles estão bem. - Seus pais estão mortos! Não há nada que você possa fazer por eles. Agora é hora de você pensar em você e em sua irmã. Ao ver minha irmã assustada e chorando, decido obedecer àquela estranha mulher que sem um motivo aparente salvou nossas vidas. Já um pouco distante da aldeia, olhei para trás e pude ver o fogo iluminando a noite. Os poucos gritos ainda ecoavam no ar, alguns tiros os silenciavam. A violência desmedida, a covardia, o genocídio que parece perseguir o povo indígena por toda a história, aconteceu ali naquela noite, mais uma vez. A dor, a raiva, a tristeza, a revolta e o ódio fervilhavam em minha alma. Noite adentro, caminhamos horas sem trocarmos nenhuma palavra, apenas o choro da minha irmã quebrava o silêncio. Eu ainda tentava assimilar tudo o que tinha acontecido, as imagens e os sons de horror eram frescos demais em minha mente. E ainda eu não tinha entendido porque nós estávamos seguindo aquela mulher. Então a nossa salvadora misteriosa resolveu falar. - Você é uma pessoa de muita sorte, sabia? Disse a amazona enquanto esgueirava-se entre os galhos altos da trilha estreita na mata. - Sorte?! Como pode chamar isso de sorte? Minha família quase toda morta, meus amigos mortos, minha aldeia destruída, eu quase fui raptado, sorte? - Acredite, poderia ser pior se eles tivessem certeza de quem você é. - Como assim “quem você é”? Eu sou só um cara largado numa tribo para morrer e que deu a “sorte grande” de nascer no meio da maior guerra da humanidade num planeta à beira da extinção. Do jeito que você fala, parece até que eu sou alguma coisa. - Por que você acha que atacaram a sua aldeia seu i****a? - Como posso saber! Esse povo da Luz precisa de motivos para m*******r alguém? - Então você não sabe, não é? Seu Pajé nunca te contou? - Saber do que moça? Tudo o que eu sei é que acabaram com a minha vida! - Kadu, tô com fome, tô cansada, tô com sede. Choramingou a minha irmã. - Calma pequena Nina, já estamos chegando. Disse a amazona gentilmente para a minha irmã. - Mas meu nome não é Nina. - Eu sei Nina-menina... Aproveitei a conversa e perguntei: - Para onde estamos indo e qual o seu nome? - Kauane. Respondeu secamente a amazona. - Eu me chamo… - Eu sei quem você é. Chegamos! Já estava amanhecendo quando paramos na beira de uma gruta. No fundo daquele lugar tinha um lago escuro alimentado por uma pequena queda d’água. - Chegamos onde exatamente? Nesta gruta cheia de nada? Que maravilha, te seguimos a noite inteira para chegar a lugar nenhum! - Você fala demais, pensa demais. Típico dos seus… Percebi na resposta da amazona certa impaciência. Kauane caminhou para dentro da gruta e entrou na água e em seguida nos chamou. - Venham, temos que acessar a passagem que está no fundo desse lago. - Como é que é? Mas é seguro? Muito fundo? Não estou enxergando nada! E minha irmã? A guerreira me olhou com um ar de reprovação, voltou-se para minha irmã para perguntar. - Você sabe nadar Nina-menina? - Sim, melhor que ele...rs Respondeu Anahí me olhando e com um sorriso irônico. - Tudo bem então, me sigam. Mexa-se o resmungão! - Ahhh… tá bom, tá bom! Respondi irritado. Kauane mergulhou no lago de água fria e cor escura nada aconchegante, em seguida Anahí. Desconfiado, a contragosto e preocupado com minha irmã que depositava uma confiança infantil naquela desconhecida, fui logo atrás. Mergulhando alguns metros da superfície, deu pra ver uma luz azulada, que dado ao breu do fundo do lago, destacava-se e foi o que nos guiou através de uma estreita caverna submersa. Antes que o fôlego começasse a faltar, atravessamos a pequena caverna e logo emergimos em outro lago onde me deparei com um lugar lindo, um paraíso perdido. A vegetação, o céu, o ar nada lembrava aquele nosso mundo moribundo. Era a aldeia dos Ticuna, o maior povo indígena que resistiu aos genocídios, mas que há muito tempo tinha desaparecido. Parece que estavam apenas escondidos… Em meio à perseguição dos povos indígenas, algumas etnias (a maioria para dizer a verdade), foram dadas por extintas ou desaparecidas. Uma dessas etnias forma os Ticuna. Muitos acreditam que a floresta amazônica esconde lugares escondidos e acessíveis apenas através de passagem secretas específicas, e que foi através dessas passagens que muitos povos trataram de fugir e se esconder em meio a guerras e perseguições. Os antigos pajés do Povo Ticuna sabiam dessas passagens e quando o mundo ficou perigoso demais para os indígenas, trataram de se esconderem em um desses lugares secretos. Tem uma velha lenda que diz ser estes lugares secretos parte do antigo Jardim do Éden, também conhecido como Campos Elísios, Jannah, Aaru, Nirvana, Paraíso Perdido, Shangri-La. Todos espalhados pelo mundo e dentro deles mesmo há outra entrada secreta que leva ao Paraíso Original. Mas estas passagens só são acessíveis por Anjos, Santos e Deuses. Se você não é nenhum deles, então nunca acessa o paraíso. E lá estávamos nós, em uma desses “braços” do Éden, ar puro, muitos animais selvagens, vários povos unidos em harmonia. Sem disputas, sem posses, sem propriedades, sem acúmulos, apenas a vida seguindo seu curso e os seres buscando o equilíbrio e serem felizes. O seu melhor é colocado em favor do todo. Se caça bem, caçará para todos; se é um bom artesão, construirá em favor de todos; se tem liderança, organize o povo para que cada qual exerça o seu dom e favor do próximo. Por que o mundo todo n******e ser assim? Por que todas as pessoas não podem ser felizes, desprendidas do vício da posse, dos moldes, dos conceitos, dos pré-conceitos? Só a guerra impera. Nós, os seres humanos, somos possuídos por essa sede de ter, de ser, só que não ser em essência, ser melhor que o outro materialmente. Esquecemos que tudo nesse mundo é passageiro, que a matéria passará e só o espírito ficará. Eu sei que você deve estar achando estranho eu falar de Espírito já que valorizo muito a lógica, a razão e o ceticismo, porém eu bem sei que existe uma força maior que move todo esse universo, ou universos. Uma inteligência que une todas as coisas, e faz tudo convergir em um ponto único. Você pode chamar de Deus, Jeová, Jah, Rá-atum, Zeus, Brama, Tupã, Olorum ou Viracocha, sei lá! Mas todos convergem para uma só razão: a transcendência do ser humano, a nossa evolução rumo ao divino. Ora, se todos os deuses só querem de nós o Amor, e que vivamos o Amor, porque somos sempre inclinados à violência e a ela sucumbimos? Porque somos assim tão tortos? Não sei, e talvez ninguém nessa terra saiba, às vezes acho que somos uma raça de cegos liderados por outros cegos. Aquele povo dos Ticuna e os agregados refugiados seriam a esperança de um futuro melhor para a humanidade? Quero crer que sim, quero crer que sim…
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