Capítulo III – “Eu sou…”

2701 Words
“A verdade sobre você é sempre a mais difícil de crer.” Quando saímos da água, logo fomos recepcionados por um g***o de guerreiros responsáveis pela segurança da aldeia, mas Kauane tratou de acalmá-los. - Abaixem às armas, eles não são inimigos e nem ameaças. Avisem o Conselho que eu consegui encontrá-lo antes que os Filhos da Luz o levassem. - Sim senhora Icamiaba. Avisaremos agora. Eu fiquei incomodado só os ouvindo falarem de mim como se eu não estivesse ali e logo quis saber o que de fato estava acontecendo. - Do que você está falando Kauane? Encontrar quem? Avisar quem? Perguntei. - Calma Kadu, tudo será revelado no tempo certo - disse um homem do meio dos guerreiros - por favor, venham comigo. Eu estava cansado, com fome, com sono e minha irmã também, então seguir aquele homem para um lugar onde pudéssemos trocar de roupas, comer e descansar era o melhor a ser feito. Chegamos diante de em uma aconchegante cabana construída nos moldes da arquitetura tradicional indígena onde o cheiro de comida foi o convite definitivo para entrarmos. - Sirvam-se, descansem. Mais tarde conversaremos, pois há muito que explicar e atualizar. Chegou à hora do ciclo se completar, e você Kadu, chega de fugir do seu destino, é hora de assumir quem você é cumprir a sua missão para a qual você nasceu e sem perceber, foi preparado. - Onde estamos exatamente? Quem são essas pessoas? Quem é você? Pensei que fossem os Ticuna, mas tem gente aqui de diversas outras tribos e lugares do mundo. - Calma jovem Kadu. Você está onde precisa estar. Nós somos todos, somos a soma de muitas dores, filhos da guerra, mas guerreiros da paz. Eu sou Pajé Acanga líder dessa aldeia e os Ticuna vivem em nós e essa terra foi a nossa herança por eles cedida para que os filhos da terra tivessem um lugar para repouso, por basta que saiba disso. Suas respostas virão na hora certa. Repito: você deverá tomar o seu lugar na história e concluir o seu destino. - Como assim concluir o meu destino? Por favor, diga o que está acontecendo e o que vocês querem de mim. Perguntei já em tom de desespero, pois aqueles jogos de palavras já estavam me dando nos nervos. - Logo Kadu. Logo. Por enquanto alimente-se, descanse, cuide do seu corpo que bem guarda o seu espírito. Além do mais, me parece que você tem uma garotinha para cuidar, não é? Concluiu o Pajé apontando para a minha irmã. - Si…sim, tudo bem. Mas depois quero respostas. Não aguento mais ficar de um lado para o outro sem nada saber e todos me tratando como se soubesse tudo sobre mim e eu mesmo nada sabendo. - Será mesmo que não sabe ou simplesmente não aceita? Às vezes a verdade que precisamos se oferece a todo instante diante de nós, mas como ela não se parece com o que desejamos a ignoramos. Pense: nem tudo que desejamos é o que precisamos, e o que precisamos, quase nunca desejamos. Dizendo isso o Pajé saiu da cabana e afastou-se. Eu fui cuidar de Anahí e de mim mesmo, o cansaço já estava acabando com o meu juízo e discernimento, a fome era grande e a mesa era farta. Mal o Pajé saiu da cabana, eu e minha irmã atacamos a comida como se não comêssemos há semanas. Minha irmã ainda com a boca cheia disse: - Eles são muito bons né irmão?! E aquela mulher, a Kauane, gosto dela. Corajosa, decidida, linda! Quando eu crescer quero ser como ela. - É Anahí, pode ser… mas não tenho muita certeza de nada. Por enquanto vamos aproveitar a hospitalidade. E sim, sou grato por ela ter salvado as nossas vidas, mas… sei lá. Queria estar na nossa casa. - E o pai e a mãe, morreram de verdade Kadu? Queria a mãe aqui com a gente. Vai ver alguém os salvou como fez com a gente. - Eu também queria minha pequena, mas parece que dessa vez não será possível. Tenho que ser realista com você. Nossos pais morreram naquele ataque. - Não diga isso, Kadu!! - gritou Anahí entre lágrimas de dor e raiva. - eu acredito que nossos pais ainda estejam vivos! - Eu não posso e não vou mentir para você irmãzinha querida. Você já tem quatorze anos e é capaz de entender o que eu digo. - Não!!! Malditos homens maus!! Por que nos atacaram Kadu, não fizemos nada para ninguém. Disse Anahí desabando em lágrimas. - O m*l não precisa de motivos para fazer o que faz irmã. Disse acolhendo-a em meus braços. Mas chega de falar sobre isso. Coma e vá dormir, você precisa descansar depois de tudo que passou. Deixe as lágrimas rolarem. Amanhã será um novo dia e você estará melhor. Tudo passa… - Sim, estou com muito sono e muito triste. Espero que o sono seja longo e eu possa ver a mãe e o pai nos sonhos. - … As palavras de minha irmã dilaceraram meus sentimentos. Nem toda lógica ou razão do mundo poderia evitar o meu mergulho naquele mar de dor, tristeza, raiva… Depois que ela dormiu eu fui a um canto da cabana chorar sozinho e tentar compreender toda aquela situação. O mundo não é justo mesmo. Os maus vivem, e os bons morrem. Se a vida é um dom divino, por que só os maus continuam a viver e tanta gente boa morre? Se eu pudesse eu faria aqueles filhos da p**a pagarem pelo que fizeram! Acabaria com a raça desse autoproclamado deus e líder dessa corja de assassinos filhos das trevas. Eu juro que se tiver uma chance eu os farei pagar por estas injustiças. Eu traria a liberdade para o mundo outra vez, nem que isso custasse a minha vida! Naquela noite, adormeci nos braços do ódio embalado pela canção da morte que tocava em minha alma. Mais tarde, logo depois do sol se pôr, Kauane veio pessoalmente me chamar para ter a tal conversa com o Pajé. Ela estava diferente, impossível não perceber isso, mesmo sobre a fraca luz da lua. Agora que não vestia os trajes de amazona ou tinha aquele semblante sério. Seus cabelos longos e soltos ornados com algumas penas e pedras coloridas. Usava apenas uma bata curta de cor bege, na altura do meio de suas coxas fortes de guerreira, bordados com símbolos comuns do povo indígena. Seus olhos tinham uma cor peculiar, urucum. - Venha comigo, é hora de você ouvir tudo que sabemos tudo o que você precisa ouvir. Disse Kauane em um tom bem sério. - Para onde vamos desta vez? Perguntei encarando aquela linda mulher de alto a baixo. - Você fala demais… típico dos seus. E para de me olhar desse jeito, nunca viu?! - Assim tão linda não…rsrs Desculpa, não quis dizer isso. - Tá, sei. Cale a boca e apenas cala a boca e me segue. - Claro que sim. Se já te segui em meio a uma chuva de balas sem nem ao menos querer, imagina agora que você me pede assim toda tão… séria. - Engraçadinho. Você é muito bom com as palavras, e fraco nas atitudes. - E você é cheia de truques e faces, misteriosa demais. Linda, mas misteriosa. Pensei comigo. Deixei minha irmã dormindo na cabana e fui com a Kauane até onde seria a audiência com os sábios. Chegando ao local, entramos na cabana. Era muito bem iluminada, e foi aí que pude olhar Kauane com mais atenção e perceber melhor os detalhes. Difícil era não notar como ela é linda. Mesmo em meio a tantas coisas ruins, houve espaço para o encanto. Aquele olhar… Aquela mulher. Sem as pinturas no rosto comuns aos indígenas em ordem de batalha, ficou mais visível a cor marrom avermelhada de sua pele. Ela cruzou o seu forte e intimidador olhar com o meu. Um curioso admirador, indisfarçavelmente encantado. - Tá olhando o que? Perguntou Kauane com uma voz firme e um olhar sério, mas interessada, acho… - Nada não… respondi tentando disfarçar meu estado envergonhado. - Vamos. Chegou a hora de ter as suas respostas. Sente aí e preste atenção. - Ah, quê? Sim, respostas. Sentar, sim. Tudo bem. Disse totalmente desconcertado ante aquela amazona tão linda. Uma voz gritou no recinto e todos se calaram. - O Pajé, ele dirá tudo o que você Kadu, o Geminiano precisa ouvir. - Sim, sim… tudo bem, vamos logo com isso. Eu já estava agonizando com toda aquela formalidade. Dentro daquele lugar estavam várias pessoas sentadas no chão formando um grande círculo. Nas laterais tinham vários totens e estátuas dos inúmeros deuses da cultura indígena mundial. Alguns eu reconheci, outros eu nunca tinha visto na minha vida em nenhum dos livros de mitologia e deuses antigos que pude ler. Sobre um altar estavam outras esculturas que, se não me falha a memória, lembravam os doze símbolos zodiacais, de Áries a Peixes. Ao centro, existia uma grande mandala zodiacal e no meio queimava uma fogueira que iluminava o lugar assim como a todos aquecia. De uma sala ao fundo do lugar saiu o Pajé cercado por outros homens, cada um vestido conforme a sua cultura tribal. - Sente-se Kadu. Você tem muito a ouvir. Disse o Pajé que se acomodou em uma cadeira que estava numa posição mais privilegiada. Ao seu lado estava Kauane para quem acenei, mas ela nem sequer olhou para mim. Impaciente eu disse: - Vamos logo com tudo isso. Pode me dizer finalmente o que tanto eu preciso ouvir? Estou cansado dessa história de geminiano, escolhido e tals… Saibam que eu sou apenas um garoto abandonado e criado por uma bondosa família que agora está morta devido à ação daqueles malditos Filhos da Luz. - Você acredita mesmo que sua história, seu presente passado e futuro se resumem a isso mesmo? Esse monte de lamentos, dores, autopiedade e ódio? - Acredito no que meus olhos veem no que minhas mãos tocam e no que eu posso provar e verdadeiramente sentir, apenas nisso. Qualquer coisa fora disso é mera superstição cultural ou delírios de mentes perturbadas. Depois que falei isso, o Pajé me encarou por alguns instantes, e não dando a oportunidade para que eu pudesse falar algo novamente, começou a discursar. - Ouça Kadu: antes da civilização se dividir em fronteiras e religiões, antes da humanidade se perder em um mar de ganância e corrupção, antes das guerras e por fim, antes do colapso mundial a humanidade era agraciada pelos deuses que nos concedeu os Doze Signos Zodiacais e com eles os Doze Guardiões das Estrelas. Os Deuses caminhavam entre nós sendo os arautos das coisas divinas e nos ensinando tudo sobre a ciência das estrelas. - Sério?! Então é isso?! Lá vamos nós de novo devagar por essas lendas e blá, blá, blás. Resmunguei. - Calado Geminiano, e ouça tudo o que tenho a dizer. Cada um dos Guardiões presenteava a humanidade com seus filhos nascidos sob seus respectivos signos, e essa marca regia suas vidas para o bem de todos. Mas um dia, em algum momento da história o falso deus se levantou, fomentou a intolerância e a sede por poder no coração da humanidade, semeou a guerra e o caos e fez todos que acreditarem no novo deus que convenceu os seus seguidores a perseguir os filhos do zodíaco e todas as outras crenças e culturas que se opusessem a essa fé cega nesse falso deus, e daí nasceu os “Filhos da Luz”. Liderados por esse falso deus, condenavam não apenas a nossa crença nos zodiacais e nos deuses antigos, como toda e qualquer outra que não professava a fé única. Começaram a nos perseguir como se fossemos inimigos da paz, como se praticássemos atos de blasfêmia para com o Deus Único que na verdade é o centro da nossa fé. Os guardiões foram destruídos por uma força desconhecida, pois nunca se viu um deus morrer antes. A perseguição enfraqueceu a nossa fé e o equilíbrio das forças, pois o poder concentrou-se nas mãos do líder dos Filhos da Luz. Como consequência, o mundo se afundou em uma selvageria que acabou por deflagrar as grandes guerras e a destruição do potencial natural do planeta e mesmo extinguir a própria humanidade. No entanto, os Guardiões do Zodíaco nos deixaram uma solução, uma esperança. Em um artefato guardaram os Dons Divinos que lhes foram confiados e um entre as doze constelações, aquele nascido sob o signo da liberdade seria o portador dos dons e lideraria a batalha contra os Filhos da Luz. Este escolhido enfim libertará nosso mundo dessa falsa fé que viola a vida, destrói nosso planeta e impede a paz de acontecer acabando com o falso deus. Séculos de conflitos e perseguições se passaram, e finalmente as estrelas se alinharam e conceberam o escolhido, nascido no berço do povo branco e criado na terra dos filhos da terra. Os sábios servos do falso deus revelaram a localização do escolhido e não demorou muito para a criança ser perseguida pelos Filhos da Luz. Seus pais, para proteger a criança, fugiram para as grandes florestas da Amazônia e então pediram para que uma nobre tribo pudesse proteger a criança que teria um destino grandioso. O Pajé daquela tribo já tinha lido nas estrelas que a criança viria até ele. Então não pensou duas vezes em acolher e proteger o escolhido dando a criança para uma família da tribo criar. Os pais da criança voltaram para a cidade deles, e cansados de fugirem e sabendo que a criança estava segura e bem escondida, se deixaram capturar e infelizmente foram mortos. - Que passado triste dessa criança hein?! Que história interessante, mas o que isso tem a ver comigo? - Tudo jovem Kadu, pois o nascido sobre o signo da liberdade, essa criança, o escolhido é você! A pessoa destinada a livrar o mundo dessa praga dos Filhos da Luz e restabelecer a paz. - Eu!! Então foi assim que meus pais morreram? Mais essa que esses filhos de uma… luz me deve? E salvar o mundo?? Ahh… só isso? Coisa pouca hein!? Que loucura, isso n******e ser verdade, eu não sou esse tal nascido aí, tudo que eu quero é voltar pra casa. - Sua família está morta, sua casa não existe mais jovem Kadu, sua aldeia não existe mais e seu destino é a única coisa que importa de agora em diante. Você precisa acreditar e cumprir com a missão. Aceitar quem você é. Pare com essa autonegação, com essa covardia. O seu coração sabe a verdade, mas sua razão busca negar a si mesmo a sua real identidade. - Acreditar em uma história antiga de astrologia, mitologia e tals? Olha, já superamos estas superstições, não acham? Dispenso essas bobagens. - Bobagens?!! Tenha mais respeito seu incrédulo - esbravejou Kauane - o futuro de milhares depende de você. Já não bastam as perdas que tivemos devido às suas idiotices? - Depende de mim?! Ferrou então. Ferrou bem ferrado mesmo!! Façam-me um favor - eu disse rindo e me retirando do local - eu não sou o que vocês acham e nem sou nada de especial. Revejam suas profecias. Boa noite para todos. Saí da cabana e todos só me observaram em silêncio. Cheguei onde instalaram a mim e minha irmã pensando naquelas coisas que disseram. Apesar de toda a minha negação, as palavras ressoavam em minha mente como trovões em noite de tempestade. Que absurdos são esses. Profecia, escolhido, zodíacos, salvar o mundo. Tudo o que eu sou é um abandonado qualquer que perdeu seus pais duas vezes. Malditos filhos da luz… malditos!! Anahí acordou com o barulho dos meus resmungos. - Tá tudo bem irmão? - Tá sim Anahí. Vamos dormir, amanhã será um novo dia. Sairemos logo de manhã daqui. - Mas para onde nós vamos irmão? - Voltar para casa. Tenho certeza que outros da nossa aldeia sobreviveram. Vou encontrá-los e seguir com nossas vidas. Reconstruir a nossa casa. - Nossa casa... Não sei se quero voltar para lá Kadu. Tenho medo, muito medo. - Calma Anahí, dorme. Amanhã tudo ficará bem.
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