Capítulo IV – “Teimosia”

3512 Words
“A auto aceitação é, sem dúvidas, o processo mais complexo para o ser humano.” De manhã, ao acordar arrumei as minhas coisas - que se resumiam a nada - acordei a minha irmã, mandei que ela se arrumasse o mais rápido possível e fomos embora daquele lugar. No caminho até o lago onde fica a saída da aldeia, as pessoas ficavam me olhando, cochichavam entre si, mas eu não dei a mínima. Segui meu caminho e logo chegamos à gruta onde estava a saída. - Irmão, por que vamos embora? Por que não podemos ficar? Aqui é tão bom. Perguntou à minha irmã que se sentia acolhida por aquele povo. - Anahí, aqui não é o nosso lugar. Vamos voltar para casa e encontrar nossos amigos, lá você e eu estaremos seguros. Respondi na esperança de fazer a minha irmã desistir de querer ficar. - Você promete que iremos ficar seguros, Kadu? - Sim, claro. Eu prometo. Confie em mim. Anahí decidiu então me seguir. Seguimos até o lago onde fica a entrada da aldeia, demos uma última olhada naquele lugar para gravar em nossas memórias a imagem daquele lugar maravilhoso, um verdadeiro pedaço do paraíso. Mergulhamos, passamos pela caverna submersa e saímos do outro lado. De volta ao mundo real. O cheiro de morte, a atmosfera pesada e poluída, ainda que no meio da floresta, era possível sentir a agonia daquele planeta. Eu estava um pouco desorientado, não sabia exatamente como voltar para a minha aldeia, pois nunca fui de explorar e sair para muito longe da aldeia onde eu e minha irmã vivíamos. Mesmo longe e horas depois daquela reunião, as palavras do Pajé não paravam de ecoar na minha cabeça. Salvar o mundo, escolhido, dons signo da liberdade, era demais para minha racionalidade processar. Depois de um tempo tentando me orientar, achei o caminho de volta para a minha aldeia, sempre seguindo rumo ao pôr do sol, sempre ao oeste. Caminhamos por algumas horas e Anahí reclamou de sede e cansaço. - Tô com sede irmão e cansada. - Aguenta mais um pouco Anahí. - Não dá Kadu! - Está bem! Assim que acharmos um rio vamos parar para descansar. Depois de mais algumas horas encontramos um rio e então paramos para descansar e beber água. Estávamos nos refrescando nas águas do rio e tudo parecia tranquilo, até demais. Eu estava na margem sentado observando minha irmã que parecia feliz naquele pequeno momento de descanso fazendo o que tanto gosta, nadando. - Vem Kadu, entra de novo. A água está uma delícia. - Não, estou bem aqui. Agora já chega Anahí, temos que continuar andando. Logo vai anoitecer e eu quero tentar chegar o quanto antes em nossa aldeia. - Seu chato! Tá bom, eu já vou sair. Anahí já estava quase na margem quando fomos atacados por uma unidade militar dos Filhos da Luz. Foi tudo muito rápido, pareciam que já nos esperavam. Eu não tive a mínima oportunidade de resistir, pois eram muitos e rapidamente várias armas estavam apontando para mim e para a minha irmã, nos dominaram com facilidade. A minha preocupação era com a Anahí que estava muito assustada. - Então você achou mesmo que iria escapar de nós? Não existe buraco profundo o suficiente para você se enfiar que nós não possamos te encontrar seu i*****l. - Desgraçados, o que querem de mim? Solte minha irmã. Ela não tem nada a ver com isso. Seja lá o que vocês estejam querendo é só comigo. - Cale a boca, você já deu trabalho demais. Levem eles! Ordenou o comandante deles. Anahí, assustada, não parava de chorar e gritar, e isso irritou um dos soldados. - Calada criança estúpida - gritou o soldado ao mesmo tempo em que deu um soco no rosto da minha irmã. Naquele momento todas as lembranças do m******e na minha aldeia, meus pais mortos, meus amigos mortos, nossas casas incendiadas, tudo isso fez ferver tudo em mim por dentro. A raiva que senti o d****o de acabar com aquele maldito que agrediu a minha irmã. O ódio tomou conta de mim. Tudo que eu pensava era como m***r aqueles bastardos! Respondendo às sensações e sentimentos dentro de mim, o artefato que o Pajé da minha aldeia havia me dado no dia de sua morte e do m******e da nossa aldeia, começou a brilhar. Meus olhos começaram a brilhar e arder, meu corpo começou a formigar, percebi que até os soldados se assustaram com as luzes que emanavam de mim e se afastaram um pouco, eu os encarei, dos meus pulsos surgiram uma luz azulada e então… eu acho que desmaiei. Segundos depois, eu acho, senti alguém me cutucar e chamar meu nome. Acordei assustado, e em um gesto de defesa gritei para que se afastasse e um brilho intenso saiu das minhas mãos atingindo aquele homem bem no peito e lançando-o metros para trás. Um pouco atordoado aquele homem se levanta e diz: - Tu és bem nervosinho hein!? Tenha calma rapaz, não sou teu inimigo. Estou aqui para te ajudar. - Ajudar? Então cadê a minha irmã? Cadê aqueles malditos covardes, eles a levaram? Diga-me o que você sabe! - Infelizmente sim, levaram a sua irmãzinha. Eu vi quando vocês foram cercados e quando o artefato que tu carregas se manifestou. Então começaste a brilhar, teus olhos brilharam, teus punhos eu achei que ias desintegrar aqueles malditos filhos da luz, mas tu simplesmente sumiste, ou melhor teletransportaste. - Como é? Teletransporte?! Isso é impossível, ficção. Que história absurda é essa, cadê minha irmã? Quem é você? Você fala de uma forma estranha… De onde você é? - Meu nome é Rudá, muito prazer. Antes eu era conhecido como o deus do amor, criado por Guaraci para ajudar no seu eterno flertar com Jaci. Do jeito que você já deve ter lido nos livros de Mitologia Tupi Guarani. Quanto ao meu jeito de falar, veja, eu estou aqui nessa terra há muito tempo e falo assim, pois meu vocabulário forjou-se desta forma devido às intermináveis cartas de amor que escrevi pelo mundo afora. Oh Deus, foram tantas cartas, tantas poesias e mais poesias! Acabei por absorver essa linguagem. Linda não é?! Mas, depois que os filhos da luz iniciaram a perseguição a todos os deuses considerados inimigos da fé única, eu tive que assumir meus dotes de guerreiro e lutar para sobreviver. Foram inúmeras batalhas ao lado dos zodíacos, mas infelizmente todos tombaram. Como um deus mensageiro, tenho a habilidade de abrir portais e transitar entre o tempo e o espaço, mundos e dimensões, por isso os filhos da luz não conseguiram me pegar. Existem alguns lugares que nem mesmo eles podem entrar e onde eu posso ficar a salvo. Mas antes de qualquer coisa vamos primeiro entender o que houve contigo Kadu. - Como você sabe meu nome? Perguntei assustado e desconfiado. - Sei muito mais do que imaginas. Tu é que não sabes de nada e se n**a a ver a verdade diante de ti. Essa negação já custou muito e muitas vidas inclusive podem custar à vida da tua irmã. Não achas que é hora de aceitar a sua missão? - Desgraçado, o que você está falando? Eu não tive nada a ver com isso, não tive culpa pela morte dos meus pais e amigos! Vou acabar com você - gritei enquanto meus pulsos ganharam um brilho azulado. - Tá vendo isso em seus punhos, é disso que estou falando. Tu deténs um poder que desconheces. - Mas que d***a é essa? O que está acontecendo comigo? - O velho Pajé da cidade escondida tentou te dizer, mas tu não quiseste escutar. - Como assim quis dizer? - Ele não te contou sobre a lenda, a profecia, sobre o Geminiano? - Ah, aquela história maluca dos guardiões, zodíaco... - Exatamente! Sabe para quem carrega nos ombros a responsabilidade da salvação do mundo, tu és muito ignorante. - d***a! Essa história de salvar o mundo outra vez!? Tudo o que eu queria era voltar para a minha aldeia junto com minha irmã e recomeçar em paz. - Tua aldeia não existe mais Kadu, todos que conheceste morreram e tudo por tua causa, sabias? - Minha causa? Eu não pude fazer nada. - Poderias! Tu tinhas naquele dia e tens hoje o poder para mudar toda essa realidade se tivesse atendido o chamado dos teus sonhos, se tivesse assumido as suas responsabilidades e não fosse assim tão covarde, tão cabeça dura. - Covarde eu?! Eu não pude fazer nada além de assistir o m******e da minha aldeia Atendido o chamado dos sonhos!? Mas aquilo eram apenas pesadelos, fantasias, não eram reais. - Kadu, venha cá, vou te mostrar uma coisa. Sente-se e pense em uma pessoa que esteja viva. Que tu ames. Alguém que tu queiras muito ver, encontrar. - Sai dessa o esquisito! Não vou fazer nada disso. - Não seja impertinente seu boçal! - Ah, vá!! Tantas coisas acontecendo e você vem com esse papo de 'sentar e meditar'!? - Kadu, tu não achas que essa tua ignorância, essa tua inflexibilidade já não custaste vidas demais? Com essas palavras aquele estranho homem me desarmou inteiramente. Então eu concluí que não tinha mais nada a perder mesmo, resolvi fazer o que ele mandava. - Te acalmastes? - Sim… - Então, pense na pessoa como te disse. - Eu… pensarei na minha irmãzinha. - Então feche os olhos e concentre-se nela. Vamos lá, foco. Não demorou muito a meditação e o artefato começou a brilhar intensamente e uma imagem começou a se formar. Primeiro na minha mente, depois foi se formando no ar diante dos meus olhos. Eu vi minha irmã chorando, chamando baixinho por meu nome, assustada, com frio, com fome. Eu gritei por ela que pareceu ter ouvido e então ela gritou meu nome de volta, mas os soldados ordenaram que minha irmã se calasse e a imagem se desfez. - O que foi isso? Eu vi a minha irmã e quase pude falar com ela. Eu disse totalmente desconcertado. - Isso, meu camarada, foi um dos dons que tu possuis, mas que devido a tua incredulidade e falta de foco não consegues usar e muitos podem sofrer se não deixares de ser teimoso e aceitar o teu destino. - Mas eu não sou nada. Sou apenas um garoto abandonado… - Pare com essa ladainha de garoto abandonado, já basta dessa autopiedade. Tu não foste abandonado Kadu. Teus genitores só estavam tentando te proteger, entregando-te para teus pais adotivos. Eles só queriam salvar a sua vida e acabaram perdendo a deles por isso! Tenha decência de honrá-los! Na aldeia tu estarias seguro, o artefato estaria seguro, como esteve até ele começar a se manifestar e tu começares a ter os sonhos e por isso foi localizado. O ataque foi por tua causa. Eles queriam encontrar a ti geminiano e depois levá-la para o líder dos filhos da luz. - O que eles querem comigo? - Oras seu t**o, não é óbvio!? Tu Kadu, eles te querem. Busca por ti, o Geminiano, o nascido sob o Signo da Liberdade conforme descreve a profecia. E só tu poderás manifestar os dons do Artefato que são: a telepatia, telecinese, teletransporte, as rajadas de plasma, barreiras de energia, a força sobre humana, sentidos aumentados, manipulação da matéria e a cura. Uma vez que consigas manifestar e dominar todos os dons do Artefato, há de se tornar poderoso o suficiente para acabar com a raça dos Filhos da Luz e seu Mestre Sombrio. - Mas então tudo isso não são meras fantasias? Está acontecendo mesmo? Perguntei retoricamente, pois já não podia mais negar para mim mesmo tudo o que estava acontecendo. - Sim meu caro aprendiz, está. E se não tomares as rédeas do teu destino, continuarás à mercê de seus caprichos. Pessoas boas se perderão inclusive tua irmã corre sérios riscos. Não erre como muitos de nós negando para si mesmo a verdade que está diante de ti. De fato eu não podia mais negar a verdade. Eu já sentia tudo dentro de mim, mas não queria aceitar. Vivia em estado de negação, porém não dava mais. Acabei por me render. Eu quero acreditar. Olhei para aquela figura que se apresentava como meu mestre e disse: - Já chega dessa conversa. Vamos direito ao que interessa. Ensine-me tudo o que você sabe e rápido, preciso salvar minha irmã. - Finalmente um lampejo de inteligência. Gritou sorrindo Rudá. - Ah, cala boca e me ensina logo tudo o que sabe e tudo o que eu preciso saber, antes que eu mude de ideia!. - Então vamos lá Kadu. Preste atenção em sua primeira lição. As travas dos dons estão na tua mente, só na tua mente, pois já nascestes com a marca de portador do poder. Deixe a energia fluir, aceite o teu destino, acolha a tua missão e mereça a graça de ser quem tu és. - Vou fazer o possível Mestre! Espero estar à altura da missão. - Você está garoto, você está! Basta ser dócil ao divino que há você. - Sim, deixa comigo! E naquela mesma manhã eu já comecei o treinamento e a fazer o que era preciso para dominar os dons e poder salvar a minha irmã. Em um dado momento, quando praticava os exercícios de concentração, senti como se tivesse sido arrebatado, arrancado de mim. E quando me dei conta, estava como se flutuasse pelo espaço. Era como um sonho, mas tudo era tão real. As cores, as estrelas, eu podia respirar e era tudo tão lindo, tão calmo, tanta paz, foi quando uma forte luz apareceu diante de mim e uma voz chamou o meu nome. - Kadu? - Quem é você? Perguntei assustado. - Eu sou o motivo de todas as coisas, o alfa e o ômega, sou aquele que escreveu todos os zodíacos nas estrelas, que criou esse universo e todos os outros. Eu sou. - Deus? - “Elohim, Kadosh, Yeshua” - as vozes recitam seus nomes ao mesmo tempo - ou só Deus. Você pode me chamar assim. - Mas como isso é possível? Como alguém, incrédulo como eu pode ser digno de estar diante de Deus? - Uma pessoa incrédula não é uma pessoa indigna, Kadu. Você teve muitos motivos para não crer, mas agora tem inúmeras razões para ter Fé, pois somente a razão revela a verdadeira fé! Eu vejo tudo, eu sinto tudo e aqueles que se denominam Filhos da Luz cometeram vários crimes. Mataram muitos deuses, meus queridos amigos, em nome de um traidor: Dantanian é o nome dele. Ele já foi um forte aliado em outras batalhas antes da aurora desse universo, mas perdeu-se em sua ganância e sede por poder. Deixou-se aprisionar pelas correntes do passado, e quem muito olha para trás, tropeça ao caminhar para frente. Para detê-lo e na tentativa de fazê-lo ver e reconhecer os seus erros, aprisionei-o em um corpo mortal e exilei-o em seu mundo Kadu. Acreditei que se ele andasse com os mortais, sentisse na pele todas as sensações, aflições e alegrias de um mortal, talvez ele encontrasse o amor e a compaixão, mas ele só fez afundar nas paixões terrenas. Daí, para me atingir, Dantanian passou a perseguir e m***r toda e qualquer presença divina, todos os meus amigos e amados irmãos. Então instituí os doze zodiacais para combater essa ameaça, mas um a um caíram, Dantanian se tornou muito poderoso e astuto. Como precaução criei o Artefato, para armazenar o dom de cada guardião tombado, assim tais poderes não cairiam em mãos erradas. E criei uma chave para acessar todos os dons, tal que Dantanian não possui: uma alma de um humano. Humano este que seria devidamente escolhido. Um nascido sob o Signo da Liberdade, no caso você. - Que signo da liberdade é esse? - Ora, você bem sabe. A terceira casa do zodíaco, Gêmeos, aquele regido pelo Ar da liberdade, portador de duas essências: bem e m*l, yin-yang, feminino e masculino, céu e terra. Uma vez equilibradas essas dualidades o poder em si poderá ser controlado, pois equilíbrio é poder, e poder é liberdade. Você é o primeiro em mais de mil anos que nasceu regido por esse signo e por isso é o legítimo portador da chave para acessar todos os dons do Artefato. É a esperança de um futuro melhor para o seu mundo. - Mas eu sou só eu, como posso fazer alguma diferença? Um simples humano. Como vou conseguir lutar com um que se diz deus? - Sim, você é só você, no entanto, isso basta. Fazer a diferença é uma questão de fazer o que tem que ser feito na hora que você é chamado para fazer. Todo ser humano nasce pronto com tudo que precisa para viver e evoluir basta se aceitar e acreditar em si. Quanto a você, apenas se aceite, abrace o seu destino como ele é, não seja nada mais além de você. Eu sei que se sente pequeno, um nada, mas você é composto por características, habilidades, virtudes e capacidades que o tornam único em todos os universos. Nunca houve alguém como você, e nunca haverá outro igual a você, pois tudo o que te compõe é irrepetível. Eu acredito em você! Os dons não definem quem você é apenas te darão auxílio para vencer essa guerra, tal como armas e armaduras que sem o guerreiro nada são, mas o guerreiro sem elas ainda é tudo. Você Kadu, o Nascido sobre o Signo da Liberdade, o guardião de Gêmeos, o signo da terceira casa zodiacal, o absoluto, aceita essa missão? - Sim Elohim, eu aceito o meu destino, eu aceito a minha missão. Nem que venha a custar a minha vida eu hei de cumprir e salvar o meu mundo e vingar seus amigos deuses. - Assim seja Kadu. Os deuses antigos que moram no artefato lhe guiarão nessa jornada. Você não está sozinho. E assim que Elohim disse essas palavras, simplesmente acordei e do meu lado estava Rudá, me encarando. - E aí, jovem aprendiz? Será que podemos começar a treinar ou vais ficar aí sentado o dia todo? Meditar é importante, mas não é tudo. - Quanto tempo eu estou aqui, Rudá? - Um minuto ou dois. - Como assim? n******e ser. Eu falei longamente com… Ele que me contou tudo. - Ele quem? - Elohim, o criador dos Universos. - Ah, então ele finalmente falou com alguém. Depois de séculos calado, nos deixando aqui morrendo um a um, Elohim se manifesta. Pelo menos ele te disse o que fazer ou só fez aquele jogo de enigmas como na conduta do nosso Deus? - Sim, ele disse sim. Foi bem esclarecedor a conversa com ele, me fez encontrar a minha fé. Ele me disse que devo aceitar o meu destino. E foi isso que eu fiz. Mas e agora? - Ora Kadu, se o chefão disse isso, então é o que basta. Acredite nele, pois ele acredita em você. Mal Rudá terminou de falar, eu senti um calor que nascia de dentro da minha alma, o artefato brilhou mais intensamente, e aquela luz me envolveu por completo e fundiu-se comigo. Senti como se todos os dons falassem comigo. Muitas vozes e idiomas ao mesmo tempo, muitas vidas passadas. A sensação era como se todos os deuses antepassados estivessem se unindo a mim, estávamos nos tornando um único ser. O poder dos dons começou a tomar conta do meu corpo. Todo aquele poder, eu poderia fazer qualquer coisa. A luz foi sendo absorvida pelo meu corpo. As vozes se calaram e tudo se acalmou mais uma vez. Meio tonto ainda olhei para meu mestre e disse: - Nossa! O que houve Rudá? Era tudo tão intenso e belo e… - Os dons finalmente se revelaram todos. Os antigos deuses e guardiões se uniram a ti, posso sentir eles aí dentro. Tu definitivamente não estás mais sozinho! Então é isso. Acredito que tu já podes passar para o próximo estágio. Vamos, temos que salvar a tua irmã. - Mas… É… Sim, você tem razão, vamos. Rudá parou um instante, seus olhos brilharam e com um movimento de suas mãos um portal se abriu diante de nós e eu pude ver um lugar totalmente diferente da terra. - Que lugar é esse? - Outra dimensão além deste plano terrestre, atravesse. Os deuses em você sabem para onde iremos, e você agora também saberá. Tudo foi tão surreal. Ontem eu era um ignorante incrédulo, hoje estou metido até o pescoço numa guerra milenar entre deuses. Eu sempre fui um devoto da razão, amante da lógica e só acreditava no que eu podia tocar sentir e provar. Mas agora eu sei que há muito mais além do material, há muito mais além da vida e da morte. Mas ainda sim eu me sentia pequeno. Não era medo o que eu sentia, mas o frio na barriga, a sensação incômoda de encarar o desconhecido era forte, afinal eu sou apenas um humano, agora, entre deuses.
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