Alana . . .
Depois que o Tubarão explicou todo o plano dele, eu já estava com as mãos suando frio, querendo que o assalto acontecesse logo no dia seguinte, só pra me dar um pouquinho de adrenalina.
Os outros homens foram cada um pra um canto do galpão, e eu aproveitei pra pegar um pouco da parte de cada um deles.
Rato foi o único que continuou sentado, com o meu irmão do lado, e eles logo tiraram um computador de algum lugar enquanto traçavam juntos algumas rotas de fuga e o caminho que deveríamos trilhar pra chegar lá.
O Rato tinha esse vulgo porque ninguém nunca conseguia achá-lo. Ele era irmão de sangue do Tubarão, e um dos caras mais fodas e inteligentes que eu já conheci. O bicho era um crânio no quesito computação — hackeava vários sistemas de segurança sem nem quebrar muito a cabeça.
Já o D2 era o maluco da fuga. Era doido por velocidade desde pequeno, e mesmo quando só tinha uma moto 150, já dava vários graus por aí. Por isso eu nem me surpreendia com o Tubarão preferindo ele no time, em vez de mim.
O D2 era o melhor que tinha, ninguém conseguia pegar.
Alana: Então... você acha que consegue desligar as câmeras de segurança do condomínio?
Rato: Consigo. Vai ser tranquilinho — ele fez careta. — Mas queria mesmo era desligar as câmeras da rua também. Área de gente rica, tá ligada, né? Tem câmera de segurança em tudo quanto é lugar.
Alana: E o sistema de alarme?
Rato: Vou ter que dar um jeito de ir nesse tal condomínio antes, pô. Preciso saber qual é o sistema deles. No escuro assim fica impossível de saber o que fazer.
Eu concordei com a cabeça.
Alana: Posso te ajudar com isso? — perguntei.
Rato: Claro, Alana — ele sorriu fraquinho. Tava sendo muito maneirinho comigo, explicando tudo com a maior paciência. — Uma mina pode ajudar de muitas maneiras.
Alana: Uau, tô surpresa. Você saiu do mesmo p***o que aquele cara ali? — apontei com a cabeça pro Tubarão, que socava pra c*****o um saco de pancadas no canto.
O Rato gargalhou e negou com a cabeça.
Rato: Pais diferentes.
Concordei, sorrindo como se tivesse descoberto a América.
Alana: Tá explicado!
Ele me ignorou, ainda sorrindo e voltando a prestar atenção no computador.
Alana: Você entra no roubo junto? Quer dizer... na hora lá?
Rato: Quase sempre.
Alana: Hum. Legal. Quando souber como eu posso te ajudar, me avisa?
Rato: Pode deixar.
Alana: Valeu, Mickey.
Ele fez uma careta, e eu saí de perto dele, indo até o Daniel que já lançou uma cara de bolado pra mim.
D2: O que tu quer?
Alana: Me mostra o que você faz? — pedi, encostando meu queixo no ombro dele.
D2: Não, vaza daqui.
Alana: Toma no seu cu então, o****o.
Senti o olhar dele queimar nas minhas costas, mas nem dei moral, fui pra perto do Salvador, que mirava a pistola no alvo e atirava. O cara não errava uma, era impressionante. Até entendia o que o Tubarão queria dizer com "olho de águia".
Salvador era meu melhor amigo, meu parceiro da vida. Eu era apaixonada por aquele homem, mas não no sentido romântico. Era como um irmão. Mas quando a carência batia, a gente se pegava. E depois ficava tudo certo, porque nenhum de nós se envolvia de verdade.
Fiquei próxima a ele, só observando quando mirava no alvo e disparava, acertando o ponto marcado no boneco.
Tubarão: Tu já atirou? — dei um pulo, ouvindo a voz dele atrás de mim — Tá com medo, criança?
Alana: Eu tô, cara. Morrendo de medo de você. Olha só como eu tô tremendo — debochei, levantando a mão e fingindo estar trêmula.
Tubarão empurrou ela pra longe com força, e eu despertei, avançando um passo na direção dele. Tentei acertar sua cara com um soco, mas ele puxou meu pulso com a mão e me colocou de costas pro corpo dele, apertando pra c*****o o meu braço.
Eu queria reclamar e mandar ele me soltar, mas não ia dar esse gostinho. Então apertei os olhos e respirei fundo.
Alana: Essa é tua especialidade então?
Tubarão: Tu tem muito o que treinar, criança — respondeu com aquela voz grossa e o hálito quente batendo no meu pescoço.
Alana: Criança é o seu cu! — gritei, e ele me empurrou, soltando meu braço — o****o.
Tubarão: Perguntei se já atirou.
Ele cruzou os braços me encarando, e eu só desviava o olhar, maluca pra pular no pescoço daquele vagabundo.
Alana: Já! — respondi com a voz alterada.
Ele estreitou os olhos.
Tubarão: Em uma pessoa?
Alana: Não, mas você quer tentar? Tô super disposta.
Tubarão: Cala a boca e aprende.
Ele caminhou até o Salvador e bateu no ombro dele. Meu amigo fez o que já tinha feito antes: mirou e descarregou o pente no boneco, sem errar uma.
Tubarão chamou o Rato e o D2 com um assobio, e os dois também atiraram. A mira deles era boa, mas não igual a do Salvador.
Tubarão: Amanhã no mesmo horário — falou pros caras, colocando um cigarro no bico.
Eu continuei parada, só olhando pra ele.
Salvador fez um toque comigo e vazou. Daniel foi sem nem olhar pra trás.
Quando saíram, cruzei os braços, encarando o Tubarão, que soltou a fumaça pela boca e me fitou, completamente inexpressivo. Isso me dava a maior raiva. Não tinha como saber se ele tava brincando, se tava de bom humor, ou qualquer outra coisa — a cara era sempre fechada e as respostas, secas.
Ele tirou a pistola da cintura, segurando o cigarro com uma mão e a arma com a outra.
Tubarão: Mão firme. Mão firme sempre, senão tu vai acabar atirando em ti mesma — ele falava sem me olhar, encarando diretamente o alvo — Mira.
Avancei uns dois passos em sua direção, analisando a forma como o corpo e o braço dele se posicionavam. Vi ele tragar o cigarro mais uma vez e depois puxar o gatilho, acertando o alvo.
Alana: Deixa eu tentar — murmurei quando ele abaixou a mão.
Tubarão se afastou e nem olhou na minha cara, sentando num banquinho ali do lado.
Levantei o braço, mirando na testa do boneco.
Tubarão: Mais em cima — orientou, e eu fiz. — Firma essa mão, criança.
Alana: Para de me chamar de criança — o encarei.
Tubarão: Tu tem que olhar pro alvo, não pra mim! — me repreendeu, e eu voltei o olhar pro X na cabeça do boneco.
Alana: Você não pode ser o alvo?
Tubarão: Levanta o queixo — mandou. — Tu não ia acertar nem se fosse eu.
Estreitei os olhos, imaginando o Tubarão no lugar do bonequinho que já tava todo fuzilado, e puxei o gatilho, acertando na barriga.
Pior que o Rato. Pior que o D2. Muito pior que o Salvador e o próprio Tubarão.
Mas era um bom começo.
Olhei pra ele sorrindo e recebi uma careta em resposta.
Alana: O quê? Eu fui bem!
Tubarão: Tu acertou a barriga do boneco, p***a. E ele tá parado! — bufou. — Tu acha que os cana vão ficar parados esperando tu atirar?
Alana: Eu falei isso? Não, né? Eu só falei que fui bem.
Tubarão: Bem não é excelente. Tenta de novo.
Acho que ouvi aquela frase mais umas cinquenta vezes naquela noite.
O Tubarão só me deu paz pra descansar quando eu consegui acertar o pescoço do boneco. Já passava de meia-noite, e meu braço parecia que ia cair.