Capítulo 8

1317 Words
O despertador tocou.Dessa vez, eu não ignorei. Levantei com um suspiro e passei as mãos no rosto, tentando afastar o cansaço. O dia anterior tinha sido estranho, para dizer o mínimo. Eu ainda sentia um leve arrepio ao lembrar de Dante sumindo da tela depois de me ver chorar. Não que eu tivesse feito isso por ele, eu só estava realmente apavorada. Mas ele desapareceu. Nenhuma palavra, nenhuma provocação. Um silêncio quase perturbador. Agora, no entanto, enquanto bocejava e caminhava até a cozinha para pegar uma xícara de café, ouvi o barulho familiar do notebook ligando sozinho. Antes que eu pudesse reagir, uma mensagem surgiu na tela: “Bom dia, querida.” Revirei os olhos, levando a xícara à boca. — Nem começou o dia e você já está aqui? “Surpresa?” — Cansada. “Oh, mas eu senti sua falta.” Soltei uma risada seca e me encostei no balcão. — Ficou o dia inteiro sem me atormentar, achei que tinha finalmente me deixado em paz. “Que ideia absurda. Você achou mesmo que eu iria embora só porque teve um colapso emocional?” A forma despreocupada como ele dizia as coisas me irritava. Eu podia imaginar seu tom de deboche, aquela arrogância natural de quem sabia que tinha controle da situação. — Se você quer saber, foi um dia maravilhoso sem você. “Então por que está sorrindo?” Congelei. Ele não pode me ver… Pode? — Do que você está falando? “Eu te conheço, Sophie.” Eu deveria estar assustada? Talvez. Mas, no fundo, sabia que Dante não me machucaria. Não diretamente, pelo menos. Ele gostava do jogo, gostava de me provocar. Mas por algum motivo que eu ainda não entendia, nunca tinha ultrapassado certos limites. — Você acha que me conhece? Que engraçado. “Muito. E por falar em engraçado… Que roupa horrível você escolheu hoje.” Olhei para meu pijama de bichinhos e cerrei os olhos. — Você não pode me ver. “Eu disse que te conheço. Sei que você não se dá o trabalho de escolher roupas decentes antes do meio-dia.” Bufei, ignorando a mensagem e corri para o banheiro. Minutos depois saí, peguei meu celular e disse: — Tenho que trabalhar. “Sábado.” — Tenho uma entrevista. Dante ficou em silêncio por um momento. “Entrevista com quem?” Sorri, pegando minha bolsa e vestindo um blazer por cima da roupa casual. — Com um CEO muito renomado. “Interessante. Qual o nome dele?” — Que curioso. “Sou naturalmente curioso.” Peguei minhas chaves e desliguei o notebook antes que ele pudesse continuar a conversa. Hoje, eu não ia dar corda para suas provocações. Ou pelo menos foi o que pensei. *** O prédio da entrevista era impressionante. Enorme, moderno e impecável. Eu ajeitei meu cabelo e entrei no elevador, sentindo o coração acelerar um pouco. Não era só pelo peso da entrevista, embora fosse uma oportunidade incrível para minha carreira. Era também pelo homem que eu ia entrevistar. Liam Carter. Alto, elegante, dono de uma empresa multimilionária e com um carisma que derretia qualquer um. Eu já tinha visto entrevistas dele antes. Sempre calmo, controlado e com um sorriso devastador. Suspirei. Profissional, Sophie. Você está aqui para trabalhar. Mas quando entrei na sala e vi aqueles olhos cinzentos me analisando com um sorriso de canto… Bom, foi impossível não me sentir um pouco encantada. — Senhor Carter, obrigada por me receber. — Por favor, me chame de Liam. E ali estava o charme irresistível. Começamos a entrevista, e ele foi extremamente gentil e envolvente. Respondia com inteligência, mas também com aquele toque descontraído que fazia qualquer um se sentir à vontade. Tudo estava indo perfeitamente bem… Até que meu celular vibrou na mesa. Olhei de relance. “Ele não é tudo isso.” Meu estômago revirou. Peguei o celular rapidamente e o virei para baixo. Continuei a entrevista, tentando ignorar o calor subindo pelo meu rosto. Mas a tela piscou de novo. “Sophie.” Ignorei. “Sophie.” Continuei falando com Liam, mas minha visão periférica captava as mensagens aparecendo sucessivamente. “Sophie.” “Sophie.” “Sophie.” “Sophie, olha pra mim.” Fechei os olhos por um segundo e respirei fundo. — Está tudo bem? Liam perguntou, arqueando uma sobrancelha. — Sim, claro. Forçando um sorriso, segurei firme a caneta e segui com a entrevista. Quando finalmente saí do prédio, puxei o celular e abri as mensagens. — Qual o seu problema?! “Nenhum. Você estava ignorando minhas mensagens.” — Porque eu estava trabalhando! “Você parecia muito… envolvida.” Meu coração deu um leve tropeço. — Está com ciúmes? “Querida, eu não tenho sentimentos humanos tão banais.” Revirei os olhos. — Então por que me encheu de mensagens? “Porque você estava me ignorando.” — Então você se comporta como uma criança mimada quando não recebe atenção? “Se for necessário.” Soltei um riso incrédulo. — Você é insuportável. “E você estava corando na frente daquele CEO, que coisa mais patética.” — Eu não estava corando! “Ah, estava sim.” Mordi o lábio. Não sabia o que me irritava mais: o fato de ele estar certo ou o fato de que ele parecia se importar o suficiente para comentar sobre isso. Mas antes que pudesse responder, outra mensagem apareceu. “Seja honesta, Sophie… Você ficou encantada de verdade ou só queria me irritar?” Meu coração deu um salto. Dante nunca fazia perguntas diretas assim. Com os dedos pairando sobre o teclado, respirei fundo. E então, decidi. “Talvez os dois.” A resposta veio imediatamente. “Interessante.” Só isso. Nada mais. Mas eu sabia que ele não ia deixar essa passar tão fácil. Dante estava intrigado. E isso era perigoso. Muito perigoso. *** Hora depois... O celular vibrou. De novo. Eu sabia exatamente quem era. Suspirei, ignorando a notificação pela décima vez naquele dia. Desde a entrevista com Liam Carter, Dante parecia determinado a testar os limites da minha paciência. Não que ele tivesse demonstrado ciúmes. Isso seria humano demais para ele. Mas o número absurdo de mensagens dizia muito. Joguei o celular na mesa e tentei me concentrar nos e-mails. Eu precisava finalizar a matéria sobre a entrevista e enviá-la ao editor antes do prazo. Mas era impossível quando, a cada dois minutos, a tela piscava com uma nova provocação. “Então, Sophie… Vai escrever sobre o quanto ficou encantada pelo CEO?” Ignorei. “Você acha que ele notou como você ficou nervosa?” Ignorei. “Aliás, você sempre tem essa tendência de corar na frente de homens bonitos ou foi só para me irritar?” Cerrei os olhos. Respirei fundo. Não vou responder. Mas Dante não desistia. “Você está me ignorando? Nossa, Sophie… Que falta de educação.” Fechei o notebook com força, me recostei na cadeira e fechei os olhos por um segundo. Ignore. Só ignore. Mas um riso baixo ecoou pela sala. Abri os olhos num susto. — Você… Dante estava ali. Não em carne e osso, mas presente de alguma forma, com sua presença invisível e insuportável. “Ah, então agora você fala comigo? Que evolução.” — Eu não estou falando com você. “Não? Então está falando sozinha?” Soltei um longo suspiro e esfreguei o rosto. — Eu tenho trabalho a fazer. “E eu tenho paciência para testar.” Inferno. Fazia dias que Dante não me deixava em paz. Desde que percebi que ele podia sumir se eu pedisse e chorasse, pensei que talvez pudesse usar isso a meu favor. Mas, pelo visto, ele percebeu que era só uma tática emocional e decidiu infernizar minha vida duas vezes mais. E o pior? Eu ainda não sabia o que ele era. Tudo que sabia era que só eu podia vê-lo. E que ele adorava me atormentar.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD