Sophie:
O dia começou como qualquer outro. Ou, pelo menos, era o que eu queria acreditar. Depois de uma manhã relativamente tranquila, sem Dante infernizando minha paciência, achei que finalmente teria um dia de paz.
Ingênua da minha parte.
O toque insistente da campainha interrompeu minha tentativa de almoçar em silêncio. Estranhei. Ninguém costumava aparecer na minha casa sem avisar. Larguei o garfo e fui atender, já esperando uma visita indesejada.
Quando abri a porta, meu estômago revirou.
Lá estavam eles. Adrian e Bianca.
Meu ex-namorado e minha irmã.
Os dois pareciam perfeitamente arrumados, como se aquele encontro não fosse uma cena patética de novela barata. Bianca, com seu sorriso falso e vestido impecável, e Adrian, com aquele ar de superioridade que sempre me irritou.
Meu coração martelava no peito, mas eu me recusei a demonstrar qualquer emoção.
— Sophie. Adrian começou, num tom quase casual. — Que bom te ver.
Cruzei os braços.
— Diga logo o que quer.
Bianca sorriu, balançando uma pequena caixa branca nas mãos.
— Viemos te entregar um convite.
Ela estendeu a caixa para mim. Eu não peguei.
Meus olhos foram de um para o outro, e então para a embalagem. Não precisava abrir para saber. Eles iam se casar.
A traição já tinha sido um golpe baixo, mas esfregar isso na minha cara? Isso era maldade gratuita.
Engoli em seco, me recusando a dar qualquer satisfação.
— Parabéns! Respondi, sem um pingo de emoção.
Bianca e Adrian trocaram olhares. Eles não esperavam isso.
— Você… não vai abrir? Bianca insistiu, tentando medir minha reação.
Peguei a caixa sem pressa, abri e tirei de dentro um convite luxuoso. Meus olhos passaram rapidamente pelo texto. O nome dos dois, a data, o local. Tudo perfeitamente planejado.
Levantei os olhos para eles e sorri de canto.
— Se vieram para me ver chorar, lamento decepcionar.
Adrian se ajeitou, desconfortável.
— Sophie… eu sei que as coisas não terminaram bem, mas eu queria que soubesse que não foi pessoal.
Ri sem humor.
— Ah, claro. Você só me traiu com minha própria irmã e agora vai casar com ela. Nada pessoal.
Ele ficou em silêncio. Bianca, no entanto, parecia prestes a explodir.
— Você não pode simplesmente ignorar isso! Ela disparou, irritada.
Levantei uma sobrancelha.
— E por que não? Achei que era isso que vocês queriam. Estão juntos, felizes, prestes a casar. Eu sou apenas um detalhe insignificante, não sou?
Ela apertou os punhos, o rosto ficando vermelho.
— Você sempre age como se fosse melhor do que todo mundo!
Revirei os olhos.
— Não, Bianca. Eu só aprendi a não perder tempo com lixo reciclado.
A reação foi instantânea. Ela arregalou os olhos, tomada pelo choque e pela raiva. Adrian suspirou, parecendo cansado daquilo.
— Melhor irmos! Disse ele, pegando a mão dela.
Bianca puxou o braço de volta, furiosa.
— Essa garota sempre se achou tão especial! Sempre se achou a queridinha do papai e da vovó. Aposto que nem superou a traição, só está fingindo!
Mantive a expressão fria.
— Acredite no que quiser.
Sem dizer mais nada, fechei a porta na cara deles.
O silêncio caiu sobre a kitnet como um peso sufocante.
Eu queria acreditar que aquelas palavras não me afetavam. Que não doía mais. Mas algo dentro de mim ainda se contorcia, uma sombra do que eu havia sentido quando tudo aconteceu.
Antes que eu pudesse pensar muito, o computador ligou sozinho. Eu deveria ter esperado por isso.
"Que cena patética", surgiu na tela.
Dante.
Não respondi.
"Adrian é um i*****l, mas sua irmã... ela é um espetáculo de insegurança. Queria tanto te ver desmoronar e perdeu a chance."
Respirei fundo.
— Não estou no clima para isso, Dante.
"Ah, eu sei. Mas preciso dizer… estou impressionado."
A mensagem piscou algumas vezes antes que ele continuasse.
"Esperava que você fosse chorar e beber até cair hoje."
Mordi o lábio.
Era exatamente o que eu queria fazer. Mas ouvir isso de Dante…
— Não darei esse gostinho para eles.
Um silêncio curto se instalou.
Então, a tela piscou de novo.
"Bom para você."
Pisquei.
Dante nunca dizia esse tipo de coisa.
Fiquei olhando para o monitor, esperando mais provocações. Mas nada veio.
Era estranho ele simplesmente parar.
Levantei-me, peguei uma garrafa de vinho e me servi de uma taça.
Mas, no fundo, alguma coisa parecia diferente naquela noite.
Dante ficou quieto. Nenhuma palavra sarcástica, nenhuma piada debochada. Apenas o som da música que coloquei para tocar.
Talvez, pela primeira vez, ele tivesse entendido que algumas dores não precisavam de ironia.
Talvez ele tivesse me dado um momento de trégua. Mas eu sabia que isso não duraria muito.
O gosto amargo da traição ainda queimava na minha garganta, mas nada se comparava ao ardor da bebida que descia queimando pelo meu peito. Nunca fui adepta a bebidas.
O primeiro gole foi um choque, o segundo desceu mais fácil, e no terceiro eu já nem sentia tanto o gosto. A garrafa de vinho repousava sobre a mesa, já pela metade, enquanto eu encarava aquele maldito convite de casamento jogado ali como uma piada de mau gosto.
Bufei.
— Que ironia, não é? Murmurei para ninguém em particular. — A minha própria irmã…
Uma risada amarga escapou antes que eu pudesse conter. Minha cabeça já girava um pouco, e eu percebi que estava falando sozinha.
Ou talvez não tão sozinha assim.
— Achei que você tivesse mais resistência para bebida.
Meu coração deu um salto, mas eu nem me mexi.
Respirei fundo e virei mais um gole.
— Você voltou! Falei, sem olhar para o computador.
— Claro. Estava ficando chato demais por aqui sem você.
Revirei os olhos.
— Poupe seu sarcasmo, Dante. Hoje não.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos, e, quando a tela piscou, lá estava ele de novo, suas palavras aparecendo com aquele tom de deboche característico.
— Deixa eu adivinhar… ex-namorado escroto, ainda?
Eu ri pelo nariz, balançando a cabeça.
— Pior. Ex e irmã escrotos.
— Uau. Você realmente não tem sorte.
A ironia na voz dele fez meu estômago revirar.
— E ainda assim, aqui estou eu. Virei mais um gole. — Fingindo que não me importo.
Dante não respondeu de imediato, o que era estranho. Ele sempre tinha algo a dizer.
Apoiei o cotovelo na mesa e encarei o notebook, minha visão levemente turva pelo álcool.
— O que foi? Ficou sem palavras?
— Não. Só estou assistindo.
Franzi o cenho.
— Assistindo o quê?
— Você se afundar.
Fiquei em silêncio, sentindo um nó na garganta.
A bebida deveria estar ajudando, mas, de repente, parecia que só piorava tudo.
— Eu já estava afundada antes mesmo de abrir essa garrafa. Murmurei.
— Ah, então é só um reforço?
Bufei, largando a taça com mais força do que deveria.
— Você podia simplesmente calar a boca, sabia?
— Podia. Mas aí você ia ficar sozinha.
Fechei os olhos.
Ele tinha razão, e isso me irritava mais do que qualquer provocação.
Engoli em seco e tentei ignorar o aperto no peito.
— Não preciso da sua companhia.
— Não? Então por que não desligou o computador ainda?
Olhei para a tela, para aquelas palavras brilhando diante de mim, e me odiei por não ter uma resposta.
Dante ficou quieto depois disso. Nenhum comentário sarcástico, nenhuma provocação. Apenas esperou.
E eu bebi.
Bebi até não sentir mais nada.
Até que a tela do computador ficou embaçada.
Até que a minha cabeça pesou sobre os braços, e a escuridão me levou.
Quando acordei, a dor de cabeça era insuportável. O sol entrava pela janela, c***l e impiedoso.
Pisquei algumas vezes, tentando me lembrar da noite anterior. E então vi o computador, fechado sobre a mesa.
Dante não estava lá. Mas eu sabia que ele tinha visto tudo.