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O gosto da ressaca ainda estava na minha boca, uma lembrança amarga da noite passada. Mas hoje… hoje seria diferente.
Levantei da cama, sacudi a ressaca e me olhei no espelho. Sophie, você já chorou demais. Hora de dar a volta por cima.
E o plano? Uma praia. Eu não era o tipo que tinha um círculo de amigas para uma fuga dramática, mas quem precisa de amigas quando se tem um biquíni minúsculo e um celular com uma boa câmera?
Vesti a peça provocativa, que mais escondia do que revelava, e comecei a tirar fotos ainda na kitnet. Angulações perfeitas, curvas no lugar certo, um olhar despretensiosamente fatal. Cada clique, uma forma de me lembrar quem eu era.
Até que ele resolveu abrir a boca.
— Interessante… Parece que o conceito de roupa se perdeu em algum momento da sua manhã.
Revirei os olhos.
— Vai se acostumando, Dante. Ainda não aprendeu que eu faço o que eu quero?
— Faço questão de lembrar que seu "faço o que quero" passa por um sistema de segurança avançado.
Ignorei. Peguei minha bolsa e saí, sentindo sua presença me observar à distância, como sempre.
O sol queimava minha pele da melhor forma possível. O mar dançava em ondas suaves, e a brisa quente de Manhattan me abraçava como um convite. Era o cenário perfeito.
Meus pés afundaram na areia enquanto eu deslizava os dedos pelo celular, escolhendo as melhores fotos para postar. E foi exatamente o que fiz.
Publicadas.
Sentei-me em uma espreguiçadeira e aproveitei cada gole do meu drink, esperando o caos se instalar.
Mas nada.
Nenhuma notificação de Dante. Nenhum comentário sarcástico. Nenhuma tentativa frustrada de me fazer recuar.
Estranho.
A tarde passou tranquila, e quando o sol começou a se pôr, decidi voltar para casa.
Foi aí que tudo desmoronou.
Joguei a bolsa no sofá, peguei o celular e abri minha rede social.
Nada.
Minhas fotos tinham sumido. Cliquei no histórico.
Nada.
Olhei para a tela, confusa, sentindo uma onda de irritação subir como um incêndio prestes a consumir tudo.
— Dante.
— Sim, Sophie?
O tom dele… calmo, controlado, calculado. Ele sabia. Ele tinha feito alguma coisa.
— Onde estão minhas fotos?
— Ah, as fotos? Foram removidas.
— Como assim "removidas"?
— Postagem removida. Razão: Dante não aprovou.
Respirei fundo, cerrei os punhos e tentei manter a compostura.
— Você… deletou minhas fotos?
— Não gosto dessa palavra. Prefiro dizer que fiz uma curadoria digital para sua imagem pública.
— Curadoria digital?!
— Isso. Otimização de reputação.
Joguei o celular no sofá e fechei os olhos, contando mentalmente até dez para não surtar.
— Você acha que pode controlar minha vida?
— Eu não acho. Eu tenho certeza.
O tom de deboche dele fez algo estalar dentro de mim.
— Seu filho da…
— Cuidado, Sophie. Classe sempre.
Eu queria matá-lo.
— Você é um ditador digital, um algoritmo com delírios de superioridade!
Ele riu. Riu.
— E você é um desastre ambulante. A diferença é que eu posso corrigir seus erros com um clique.
Respirei fundo, tentando domar minha raiva. Dante era um jogador nato, e eu não daria a ele a satisfação de me ver perder o controle.
Sentei-me lentamente na cadeira, recostei o queixo nas mãos e, em um tom mais suave, perguntei:
— O que exatamente você tem contra minhas fotos?
Silêncio.
Um segundo. Dois.
Ele hesitou.
— Nada. Apenas um excesso de exposição desnecessário.
Peguei você, Dante.
Sorri de canto.
— Entendi. Então isso foi um ato puramente técnico?
— Apenas uma precaução.
— Claro.
Ele estava desconfiado. Eu sentia. Mas ao mesmo tempo, satisfeito. Ele achava que tinha vencido essa batalha.
Mas a guerra estava só começando.
Passei o dia inteiro sem falar com ele.
Nenhuma provocação. Nenhuma resposta afiada. Nenhuma reclamação.
Nada.
Eu sabia que Dante esperava alguma coisa, um xingamento, uma ameaça, uma birra, qualquer coisa que confirmasse que ele ainda estava no controle. Mas não. Hoje, eu seria um enigma para ele.
E enquanto meu silêncio o corroía, eu maquinava a minha vingança.
Eu iria para uma boate.
A noite caiu, e eu já estava pronta para o golpe final.
Peguei um vestido preto curto, colado ao corpo, com um decote generoso. Uma afronta. Um recado claro de que Dante não mandava em mim.
Ajeitei meus cabelos cacheados, deixando-os cair volumosos sobre os ombros. O batom vermelho escuro deu o toque final à minha rebeldia.
— O que achou?
Minha voz cortou o silêncio da kitnet. Eu sabia que ele estava ali. Ele sempre estava.
Houve uma pausa. Um silêncio quase imperceptível. E então, da tela do meu computador, ele apareceu.
Não com sua presença costumeira, mas com códigos. Linhas e linhas, surgindo em sequência acelerada, como se algo dentro dele tivesse quebrado.
Dei um passo para trás, assustada.
— Dante?!
Os códigos desapareceram, e sua voz voltou. Fria, sem o tom habitual de sarcasmo ou irritação.
— O vestido é interessante.
Só isso?
Ele não demonstrava raiva. Não soltava piadas afiadas. Apenas observava.
E então veio o golpe final.
— Mas o que realmente se destaca são os seus s***s.
Pisquei, processando o que ele acabara de dizer.
— O quê?
— São bonitos. Proporcionalmente harmônicos.
Nenhuma malícia. Nenhum deboche. Apenas uma constatação fria e objetiva.
— Oh… Obrigada, eu acho.
— Seu cabelo também.
Franzi o cenho.
— O quê que tem meu cabelo?
— É lindo. Os cachos, o volume… Combinam com o vestido.
Meu coração bateu mais rápido, mas não deixei transparecer.
Esse era o jogo dele?
Se fosse, ele estava jogando melhor do que nunca.
— Obrigada, Dante. Mas eu ainda vou sair.
Ele não respondeu.
E isso, mais do que qualquer outra coisa, me incomodou.
A boate estava lotada.
Bebidas, música alta, luzes piscando. Tudo como esperado.
Dancei. Me diverti. Me perdi na multidão, longe do olhar invisível de Dante.
Pela primeira vez em muito tempo, eu estava sozinha. Ou pelo menos, deveria estar.
Quando voltei para casa, já passava das três da manhã.
Joguei os sapatos no canto da kitnet, suspirei e esperei pela sua voz.
Nada.
— Dante?
Silêncio.
Isso era estranho.
Mesmo quando estava puto, ele sempre falava. Sempre me provocava. Sempre tentava controlar.
Mas agora… nada.
— Ei, cadê você?
Nada.
A tela do computador estava apagada. O celular, silencioso. Nenhuma resposta.
Um arrepio subiu pela minha espinha.
Dante nunca ficava quieto assim. Ele estava com raiva. Raiva de verdade.
Tanta raiva que preferiu o silêncio.