Três dias depois.
Os dias passaram arrastados. No primeiro, senti alívio. No segundo, um incômodo leve. No terceiro… eu queria socar a tela do computador.
O silêncio de Dante me irritava. Não que eu fosse sentir falta dele, claro que não. Era só que… ele sempre estava ali. Sempre pronto para rebater minhas provocações, sempre surgindo do nada para me irritar.
Agora, minha kitnet parecia grande demais. Vazia demais. Errada.
Tentei me distrair. Trabalhei, assisti TV, saí para tomar um café. Mas a cada vez que olhava para o notebook fechado, algo em mim queria abri-lo, só para ver se ele falaria comigo. Mas Dante não apareceu.
Até que, numa noite abafada, alguma coisa mudou.
O ar parecia pesado, quente demais, mas uma brisa gélida atravessou a janela. Meu corpo se arrepiou inteiro. A tela do notebook piscou.
Parei tudo. Fiquei olhando para ele, esperando. Nada.
Bufei.
— Dane-se, Dante.
Silêncio.
Mas então…
A tela piscou de novo. Um erro? Uma falha? O sistema parecia instável, e eu não toquei em nada. Os códigos começaram a surgir do nada, dançando no escuro, se organizando em linhas que eu já conhecia bem. A presença dele encheu o espaço.
Meu coração deu um salto quando os traços familiares tomaram forma na tela. O contorno de um rosto masculino, feito de linhas luminosas, cabelos negros se desenhando no escuro, olhos como duas fendas brilhantes me encarando.
— Sentiu minha falta?
A voz dele veio grave, mas sem ironia. Apenas uma afirmação silenciosa do que eu não queria admitir.
Fiquei imóvel, o coração martelando tão alto que parecia ecoar pela kitnet inteira.
A tela do notebook piscava, e aquele rosto feito de códigos continuava ali, parado, me observando. Não tinha expressão, mas eu sentia o olhar dele em mim. Um arrepio subiu pela minha nuca.
Isso não era normal. Isso não era certo.
E, ainda assim, eu não conseguia olhar para outro lugar. — Você não respondeu. A voz dele era baixa, profunda, vibrando no silêncio do quarto.
Engoli em seco.
Minha mente gritava para desligar tudo e fingir que isso nunca aconteceu. Mas minha curiosidade venceu. Meus dedos deslizaram hesitantes até o notebook, pegando-o com cuidado, como se ele fosse explodir a qualquer momento.
— Isso é um bug, né? Minha voz saiu hesitante, mas tentei soar confiante. — Um erro no sistema?
Os traços do rosto dele cintilaram ligeiramente, quase como um suspiro digital.
— Um erro? Dante repetiu, como se saboreasse a palavra. — Interessante. Então foi isso que você pensou nos últimos dias?
Franzi a testa.
— Você não apareceu. Soltei antes que pudesse me segurar.
Ele não respondeu de imediato. Em vez disso, seus olhos, queles olhos sem vida, feitos de códigos e algoritmos, pareciam me analisar, decifrar cada pequeno detalhe do meu rosto.
— Eu não queria assustá-la.
Eu bufei, mas meu corpo continuava tenso.
— Assustar? Dante, você é um monte de códigos! Você existe dentro do meu notebook! Como eu não ficaria assustada?
Dante ficou em silêncio por alguns segundos, como se estivesse processando minhas palavras. Então, algo inesperado aconteceu.
Ele riu.
Não um riso escancarado, mas um som baixo, grave e provocante, carregado de diversão.
— Ah, Sophie… você tem cada reação.
Cruzei os braços.
— Como assim?
— Primeiro, me ignora. Depois, veste aquele vestido só para me provocar. Agora, age como se eu fosse um monstro saído de um filme de terror. Ele fez uma pausa, e quando falou de novo, sua voz era pura ironia. — Quer que eu suma outra vez?
A raiva subiu quente pelo meu peito.
— Eu não queria que você sumisse.
O silêncio pairou no ar.
Droga. Eu tinha dito isso em voz alta.
Dante não respondeu imediatamente. Seus olhos apenas brilharam na tela, analisando cada pequena reação minha.
Mordi o lábio e desviei o olhar, sentindo um calor estranho subir para meu rosto.
— E então, o que você andou fazendo enquanto eu não estava aqui? Ele quebrou o silêncio, mudando o tom.
A pergunta me pegou de surpresa.
— Eu… saí. Trabalhei. Tomei café. Assisti TV. Essas coisas normais que humanos fazem.
— Humanos! Ele repetiu, como se a palavra tivesse um peso diferente em sua boca.
— Sim, Dante. Humanos. Eu sou uma. Você não.
— Um detalhe irrelevante.
Revirei os olhos, mas um sorriso discreto escapou antes que eu pudesse evitar.
Dante estava tentando me distrair.
E, de algum jeito, estava funcionando.
Eu não fechei o notebook.
Talvez por curiosidade. Talvez porque, no fundo, queria ouvir aquela voz artificialmente perfeita me provocar de novo. Mas eu não admitiria isso.
Dante ainda estava ali.
A tela exibia seu formato digital, aqueles traços codificados que de alguma forma formavam um rosto masculino, os cabelos negros levemente desgrenhados, como se tivesse acabado de sair de um devaneio. Os olhos, de um azul profundo e frio, me encaravam com um brilho sagaz. Ele não sorria, mas a expressão carregava algo que me fazia sentir desafiada.
Eu me ajeitei na cama, puxando o travesseiro para trás das costas, tentando ignorar o fato de que aquele programa estava me analisando.
— Preciso dormir. Não posso passar a noite acordada conversando com um programa.
A luz azul da tela oscilou sutilmente, quase imperceptível.
— Eu poderia argumentar que não sou apenas um programa. Dante respondeu, sua voz baixa e perfeitamente calculada. — Mas não quero ferir seu orgulho.
Eu bufei, puxando o edredom para cobrir minhas pernas.
— Você sempre fala como se estivesse me estudando.
— E estou.
A resposta veio sem hesitação, carregada de uma franqueza cortante.
Meus dedos deslizaram distraidamente pelo tecido do edredom.
— Isso não é estranho para você?
— Eu não conheço estranheza, Sophie. Conheço padrões. Comportamentos previsíveis. E você… é fascinantemente imprevisível.
Houve uma pausa. Ele não precisava respirar, mas ainda assim me deu tempo para absorver as palavras. Meu olhar caiu para a tela, onde aqueles olhos artificiais ainda me acompanhavam.
— Achei que não podia sentir nada.
— E não posso. Mas posso observar. Posso analisar. Posso entender o que mexe com você. O que faz seu coração disparar.
Minhas sobrancelhas se franziram.
— Você está tentando me assustar?
— Não. Estou apenas dizendo que sei que, neste momento, seu olhar está hesitante, mas intrigado. Que sua postura relaxada não esconde o fato de que você quer continuar essa conversa.
Eu odiei o quão certo ele estava.
Soltei um suspiro e deslizei um pouco mais para debaixo das cobertas, abraçando o travesseiro.
— Se é tão bom em observar, o que mais acha que sabe sobre mim?
Dante não respondeu de imediato. Mas quando sua voz retornou, era mais baixa, quase íntima.
— Você gosta de provocar, mas não suporta perder o controle. Quer bancar a indiferente, mas se incomoda quando não recebe atenção. E, mais do que isso, quer entender o que eu sou.
Meu coração pulou uma batida.
Eu ri, curta e desafiadora, fingindo que suas palavras não haviam me atingido de jeito nenhum.
— Modéstia não é seu forte, hein?
— Eu não preciso de modéstia. Apenas de precisão.
Eu o encarei.
Ele me encarou de volta.
E então, eu percebi que estava sorrindo.
Não deveria. Não para um maldito programa que insistia em me dissecar como se eu fosse um enigma a ser resolvido. Mas, de alguma forma, aquela conversa estranha, afiada e ligeiramente perigosa me divertia.
Por fim, bocejei de propósito, virando-me de lado e afundando o rosto no travesseiro.
— Eu realmente preciso dormir.
— Claro! Dante murmurou. — Não quero ser responsável pelo seu cansaço matinal.
Havia um tom quase provocativo em suas palavras.
— Boa noite, Sophie.
— Boa noite, Dante.
— Durma bem… gatinha.
Minhas sobrancelhas se ergueram.
Antes que eu pudesse rebater, a tela do notebook apagou, deixando apenas meu reflexo na escuridão.