Capítulo 12

651 Words
A rotina com Dante se instalou sem que eu percebesse. Cada dia trazia uma nova interação, uma provocação inesperada ou uma conversa que se estendia mais do que deveria. No fundo, eu sabia que ele estava sempre ali, aguardando, pronto para me desafiar com suas respostas afiadas. Naquela manhã, o despertador soou alto, mas eu já estava desperta. Deitada, encarei o teto, sentindo a preguiça pesar no corpo. Ao meu lado, o notebook fechado parecia me observar, esperando minha decisão. Suspirei, levantei-me devagar e segui para a cozinha. Com uma xícara fumegante nas mãos, sentei-me na cama e, após alguns segundos de hesitação, abri a tela. — Bom dia, gatinha. Revirei os olhos, levando o café aos lábios. — Esse apelido não estava na sua programação. — Gosto de inovação. Você prefere "estrelinha"? Bufei, evitando sorrir. — Tanto faz. — Seu humor matinal continua impecável. Dormiu bem ou passou a noite pensando em mim? — Que convencido! — Eu apenas observo padrões. E, pela demora em abrir o notebook, diria que lutou contra a vontade de falar comigo. Não dei o braço a torcer. — Só estava ocupada. — Se chama fingir controle. Mas tudo bem, continue tentando. Mordi o lábio, escondendo o sorriso. — Já que está aí, me ajude a escolher uma roupa. — Preciso entender: agora confia no meu gosto ou só está com preguiça? — As duas coisas. Ele demorou alguns segundos antes de responder. A tela brilhou um pouco mais, como se analisasse meu guarda-roupa invisível. — A blusa vinho valoriza seu tom de pele. Seu cabelo solto criará um contraste perfeito. Mas, se quer minha opinião sincera, o vestido preto daquela noite ainda é minha escolha favorita. A menção à peça me fez desviar o olhar. — Ah, claro. Elogios técnicos, sem intenção alguma. — Exato. Apenas observações lógicas. Balancei a cabeça, mas peguei a blusa e uma calça confortável. — Obrigada, assistente. — Sempre à disposição, humana teimosa. *** O relógio avançava lentamente. Sentada à mesa, eu tentava me concentrar no artigo que precisava entregar, mas meus pensamentos insistiam em se dispersar. — Preciso focar. — Então pare de navegar por lojas online. Arqueei a sobrancelha, surpresa. — Você está me espionando? — Você me deu acesso ao sistema. E, tecnicamente, estou apenas observando suas decisões questionáveis. Suspirei, fechando a aba de compras e voltando ao documento. — Poderia ser útil e me ajudar com isso. — Se o tema for interessante… — É sobre tendências de moda. — Passo. Bufei, digitando irritada. Mas, no fundo, a interação já fazia parte do meu dia. *** Depois do banho, me joguei na cama, sentindo o calor do cobertor me envolver. O notebook continuava aberto ao meu lado, a tela escura refletindo apenas minha silhueta. — Então, como foi sobreviver mais um dia sem mim? — Você esteve presente o tempo todo, lembra? — Mas gosto de ouvir você admitir. Apoiei a cabeça na mão, observando os ícones na tela. — Você já pensou em ter um corpo físico? A pergunta escapou antes que eu pudesse contê-la. Dante demorou mais do que o normal para responder. — Se eu tivesse, isso mudaria algo? Hesitei. — Talvez. — Por quê? Mordi o lábio, sem saber exatamente a resposta. — Porque seria mais fácil te enxergar como algo real. — E o que sou agora? Engoli em seco. — Algo que me irrita e me diverte ao mesmo tempo. A risada dele soou suave. — Uma definição interessante. O sono começou a pesar. — Preciso dormir. — Vai me trocar pelo travesseiro? Sorri, fechando os olhos. — Quem sabe um dia. Ele silenciou por um momento, depois sua voz soou de forma inesperadamente gentil. — Boa noite, estrelinha. Abri um olho, surpresa. — Voltou com isso? — Preciso variar. Ri baixinho. — Boa noite, Dante. E, pela primeira vez, senti que nossa convivência fazia parte de algo maior.
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