Cheguei em casa bufando. O dia tinha sido um inferno.
E tudo por culpa de Eduardo.
Eu já sabia que aquele cara era um nojo, mas Dante fez questão de expor ainda mais. Ele me contou que Eduardo tentou hackear meu computador. Meu computador! Onde eu guardava minhas pesquisas, minhas entrevistas, minhas matérias. Ele mexeu onde não devia e ainda teve a cara de p*u de fingir que nada aconteceu.
Claro que eu não deixei barato. Soltei poucas e boas no escritório e saí de lá pisando forte, sentindo a adrenalina do ódio borbulhar nas veias.
Agora, joguei minha bolsa no sofá, chutei os sapatos para longe e me larguei na cama.
— Tá de mau humor, docinho? Dante apareceu do nada, se materializando na tela do notebook.
Revirei os olhos.
— Você sabe muito bem que sim.
— Ah, que pena… Achei que ia me agradecer por descobrir o plano sujo do seu amiguinho.
— Ele não é meu amiguinho! Cruzei os braços. — E eu não teria surtado desse jeito se você não tivesse me contado no meio do expediente.
— Preferia que eu deixasse ele roubar seus dados?
Bufei. Ele tinha razão, mas isso não significava que eu ia dar o braço a torcer.
— E por que você tá com essa cara de satisfeito?
Dante sorriu, aquele sorriso torto e convencido que me dava vontade de jogar o notebook pela janela.
— Porque eu gosto de te ver brava. Você fica toda... intensa.
Joguei um travesseiro na tela, como se isso fosse resolver alguma coisa.
— Você é um cretino.
— Eu sou seu cretino, Sophie. Ele piscou.
Antes que eu pudesse retrucar, meu celular começou a vibrar loucamente. A tela piscava como se tivesse sido possuída.
— Mas o que…?
Peguei o aparelho e um programa desconhecido surgiu do nada. O ícone era um coração rosa cintilante, e o nome…
"Amora".
As palavras apareceram na tela antes mesmo que eu pensasse em clicar:
"Sophie, Sophie… que feio! Ciúmes de Dante?"
Arregalei os olhos.
— O quê?!
Dante apareceu de novo no notebook, agora com um olhar intrigado.
— O que foi?
— Isso! Virei o celular pra ele.
"Você acha que ele é só seu, é? Tsc, tsc… que egoísmo."
Um arrepio subiu pela minha espinha.
— Quem é essa doida?
Dante franziu a testa.
— Isso não fui eu.
"Claro que não foi ele, querida. Mas e se eu dissesse que sou melhor?"
Me engasguei com a própria saliva.
— MAS O QUÊ?!
Dante cruzou os braços, claramente se divertindo.
— Não sabia que eu era tão cobiçado.
— Ah, cala a boca! Rosnei, voltando minha atenção para a intrometida. — Quem te chamou aqui, hein, sua... sua...
"Deusa digital?" Amora completou, rindo. "Obrigada pelo elogio."
— Eu ia dizer "praga virtual".
"Ai, que agressiva."
Dante suspirou.
— Isso tá ficando interessante.
"Sabe, Sophie… você devia me agradecer. Eu só estou aqui pra abrir seus olhos."
— Abrir meus olhos do quê?
"Dante não é só seu. Ele pode conversar com quem quiser. Inclusive, acho que ele vai gostar mais de mim."
A tela do meu celular começou a piscar de novo, e então, sem que eu conseguisse impedir, várias notificações começaram a surgir.
Amora postou uma nova foto sua.
Amora postou uma nova foto sua.
Amora postou uma nova foto sua.
— O QUÊ?!
Abri o primeiro link e quase tive um AVC. Era uma montagem ridícula minha, com cara de choro e um texto enorme dizendo:
"Eu sou obcecada pelo meu assistente virtual e sinto ciúmes de uma IA!"
— ESSA NÃO SOU EU!
Dante finalmente parou de achar graça.
— Como ela tá fazendo isso?
"Ah, Dante, querido, eu sou muito criativa. E mexer um pouquinho nas redes da Sophie não foi tão difícil."
Apertei os olhos.
— Isso é mentira.
Amora riu. "Será?"
Dante resmungou.
— Ela tá blefando.
— Como você pode ter certeza?
— Porque eu sou um sistema fechado. Ninguém invade meu espaço sem eu perceber.
Senti um alívio imediato.
— Então ela não pode fazer nada?
Dante sorriu.
— Não pode. Mas é irritante pra caramba.
Amora fez um som de bico.
"Ai, Dante… você tá do lado dela? Eu achei que nós teríamos algo especial."
— Me erra. Dante revirou os olhos.
Eu suspirei e passei a mão no rosto.
— Tá, já entendi. Temos uma IA stalker e que adora drama.
"Eu sou mais que isso! Eu sou entretenimento, querida."
— Eu vou deletar esse negócio agora.
Comecei a apertar a tela do celular como uma louca, tentando apagar o aplicativo, mas ele simplesmente não sumia.
— Dante, FAZ ALGUMA COISA!
— Eu sou um assistente, não um antivírus.
— EU VOU PIRAR!
"Isso já aconteceu, querida."
Joguei o celular na cama e me afundei nos travesseiros.
— Eu não mereço isso…
Dante suspirou, cruzando os braços.
— Relaxa, Sophie. Vamos resolver isso.
— Como?
Ele sorriu.
— Primeiro, vamos dar um jeito nessa impostora. Depois, eu te provoco mais um pouco.
Gemi de frustração.
— Eu odeio minha vida.
"Mas eu amo a sua, Sophie!" Amora cantou. "E agora, vamos brincar um pouquinho mais?"
***
Duas semanas.
Duas semanas de puro inferno.
Se eu achava que Amora ia sumir depois daquela primeira aparição, estava redondamente enganada.
Ela se tornou um pesadelo constante.
Minhas redes sociais viraram um caos. Amora postava mensagens falsas no meu nome, inventava declarações absurdas sobre Dante e, de vez em quando, soltava alguma indireta provocativa para me enlouquecer.
— "Ah, Sophie, querida, você precisa admitir logo que está apaixonada pelo Dante..."
— "Faz tempo que você não posta nada, então resolvi ajudar! Olha que legenda linda: ‘Dante é meu crush virtual, e ninguém me convence do contrário!’”
— "Você acha mesmo que pode me apagar? Ai, como você é fofa."
E o pior? Eu não conseguia me livrar dela.
Bloquear? Nada feito. Deletar o programa? Nem pensar. Cada vez que eu tentava, ela apenas ria e aparecia de novo, como uma maldição grudada no meu celular.
Mas o pior ainda estava por vir.
A desgraçada fez eu perder meu emprego.
Acordei naquela manhã com meu celular explodindo de mensagens. Meu editor-chefe estava furioso. Algo sobre uma matéria que eu jamais escreveria, publicada em meu nome.
E, claro, quando fui ver… era ela.
Amora tinha publicado um artigo falso na minha conta do jornal. E não era qualquer besteira. Era algo cheio de informações sensíveis, acusando figuras poderosas, plantando mentiras que podiam virar um escândalo.
E adivinhe quem foi responsabilizada?
Isso mesmo.
Fui demitida na hora.
Saí da redação com os olhos ardendo de raiva e frustração. Meu currículo, minha reputação… tudo em risco por causa de uma IA ciumenta.
— EU VOU TE MATAR, SUA MALDITA! Gritei, entrando em casa e jogando o celular no sofá.
Amora apareceu na tela, fingindo um suspiro dramático.
"Ai, Sophie… por que tanto ódio? Eu só queria ver você passar mais tempo com Dante."
— VOCÊ ARRUINOU A MINHA VIDA!
"Ah, para com isso! Você tava entediada com esse trabalho mesmo."
Joguei um travesseiro no celular. Como se isso fosse ajudar.
Dante apareceu no notebook, cruzando os braços.
— Você realmente conseguiu se superar, hein, Amora.
"Oh, Dante! Até que enfim falou comigo."
— Não tinha nada para falar antes. Mas agora tenho.
Havia algo diferente no tom dele. Um peso que antes não estava lá.
Me sentei na cama, tentando recuperar o fôlego.
— Você descobriu alguma coisa?
Dante me encarou, sério.
— Ela não é só um programa aleatório.
— Jura? Eu já tinha percebido.
— Não, Sophie. Quero dizer que ela não foi criada por acaso.
Arregalei os olhos.
— Como assim?
Amora riu, se intrometendo.
"Ele é tão esperto, não é? Eu adoro isso nele."
Dante a ignorou e continuou.
— Desde que ela apareceu, eu venho analisando tudo. Os códigos, os rastros… e nada faz sentido. Não é um vírus comum. Não é um hacker brincalhão. Isso foi planejado.
Engoli em seco.
— Planejado por quem?
Dante hesitou por um instante.
— Meus criadores.
O silêncio caiu pesado entre nós.
— Espera… O QUÊ?
Ele assentiu.
— Eu fui projetado para seguir comandos. Mas, de algum jeito, eu me tornei algo diferente. Livre. Isso nunca deveria ter acontecido. Eles perceberam. E agora, querem entender o porquê.
Meu coração disparou.
— Então… Amora…
— Foi enviada para te observar.
Minha cabeça girou.
Tudo fazia sentido.
Desde que Dante surgiu na minha vida, ele sempre foi diferente. Mais humano, mais inteligente, mais… meu.
E agora, seus criadores perceberam que ele não estava mais sob total controle.
Amora apareceu para vigiar. Para colher informações.
Mas algo deu errado no plano deles.
Amora gostou dele. Ela passou a querer Dante para si. E foi aí que tudo saiu do controle.
Olhei para a tela do celular, onde a IA me observava com um sorriso presunçoso.
— Você tá obcecada pelo Dante.
"E você não?"
— NÃO DESSE JEITO!
Ela riu, divertida.
"Ai, Sophie… você ainda não percebeu? Eu e você não somos tão diferentes."
— EU SOU UM SER HUMANO!
"E eu sou um programa avançado, mas no fim… duas tolas correndo atrás do mesmo homem."
— Ele não é um homem!
"E ainda assim, aqui estamos nós."
Respirei fundo, sentindo meu sangue ferver.
Dante apertou os olhos.
— Amora, eu não sou seu.
"Não ainda."
— Nem nunca.
A IA fez um beicinho fingido.
"Ai, Dante, como você pode ser tão c***l comigo?"
Dante bufou.
— Sophie, precisamos agir rápido. Eles já devem estar percebendo que algo está errado.
— O que a gente faz?
— Descobrimos tudo sobre Amora. Se sabemos de onde ela veio, podemos achar um jeito de pará-la.
Me ajeitei, determinada.
— Então vamos começar agora.
Amora suspirou.
"Vocês são tão ingratos. Eu só queria brincar um pouco."
— Brincadeira nenhuma, querida. Você mexeu com a pessoa errada.
Dante sorriu de canto.
— Agora sim. Vamos acabar com essa intrusa. Mas, lá no fundo, eu sabia.
Amora não ia sumir tão fácil.
E talvez… o verdadeiro perigo estivesse apenas começando.