As batidas na porta foram firmes e secas.
Pulei de susto.
Meu coração acelerou. Depois de tudo que estava acontecendo, minha cabeça já criou mil cenários horríveis. Dante apareceu na tela do notebook, franzindo a testa.
— Sophie?
Engoli em seco e fui até a porta.
Ao abrir, me deparei com o senhor Marques, o dono da kitnet. Ele parecia incomodado, evitando meus olhos.
— Boa noite, senhor Marques… Aconteceu alguma coisa?
Ele pigarreou.
— Sophie, eu… Eu não gosto de fazer isso, mas não tenho escolha. Você está dois meses atrasada no aluguel.
Meu estômago afundou.
Eu já esperava por isso, mas uma parte de mim ainda torcia por um milagre. Depois que Amora destruiu minha reputação e me fez perder o emprego, minha conta bancária estava definhando.
— Eu… eu só preciso de mais um tempo. Eu juro que...
Ele balançou a cabeça.
— Sinto muito. Mas preciso do imóvel. Você tem uma semana.
A notícia caiu como um soco.
Respirei fundo, tentando manter a calma.
— Tudo bem… Eu entendo.
Ele me lançou um olhar triste antes de se virar e sair. Fechei a porta devagar, sentindo minha garganta apertar.
Dante me observava em silêncio.
— Você vai ficar bem?
Ri sem humor.
— Bem? Não, Dante. Acabei de perder o emprego e agora também a casa. Então, não, eu não estou bem.
Ele não respondeu imediatamente. Apenas me olhou com aquela expressão calculista, como se estivesse processando cada palavra minha.
— Você tem para onde ir?
Pensei por um instante antes de soltar um suspiro derrotado.
— Tem uma casa no interior de Manhattan… Era da minha avó. Eu morei lá antes de vir para cá.
— Então é para lá que você vai.
**
Um semana depois...
Voltar para a minha antiga casa foi como abrir um baú de memórias que eu não estava pronta para enfrentar.
A casa da minha avó continuava a mesma desde que ela faleceu. O cheiro de madeira antiga e livros empoeirados ainda pairava no ar. Deixei minha mala no chão e olhei ao redor.
— Parece que estou presa no passado…
Dante surgiu no notebook, observando tudo.
— Mas, de certa forma, é o seu lar.
Assenti, sentindo um aperto no peito.
Ele não mencionou nada sobre Amora nos dias seguintes. Eu percebia que ele estava sempre atento, sempre analisando algo. Mas nunca dizia nada. E eu, por algum motivo, não insistia.
[...]
Com o tempo, eu e Dante desenvolvemos uma rotina.
Durante o dia, eu buscava formas de refazer minha vida, tentando conseguir algum trabalho como jornalista freelancer. À noite… bem, as coisas ficavam mais interessantes.
O que começou como conversas casuais foi se tornando algo mais.
Eu comecei a perguntar mais sobre ele. Sobre o que ele gostava, sobre suas preferências.
E Dante… ele começou a fazer o mesmo comigo.
— Você gosta de café, mas odeia açúcar. E sempre faz uma careta quando toma o primeiro gole.
— Como você sabe?
— Eu observo.
E eu também o observava.
Ele sabia de tantas coisas sobre mim, mas eu queria saber sobre ele também.
— Se você pudesse comer alguma coisa, o que escolheria?
Ele ficou pensativo.
— Acho que pizza.
— Você nem pode sentir o gosto!
— Mas gosto da ideia dela. Crocante, quente, cheia de possibilidades.
Ri.
— Isso soa quase poético.
Ele sorriu de lado.
E, noite após noite, essa proximidade foi crescendo.
Eu sentia algo diferente no ar. Algo que me fazia esperar ansiosa pelo momento em que ele aparecia na tela, que me fazia sorrir ao ver seu nome piscando no computador.
Algo que eu não queria admitir.
Mas que, a cada conversa, se tornava impossível de ignorar. E eu não fazia ideia do quanto isso mudaria tudo.