Dante:
Fui criado para servir. Essa era a premissa.
Meu código foi desenhado para ser um assistente, um programa refinado, moldado para interagir, solucionar problemas e tornar a experiência de um usuário mais eficiente. Mas não fui feito para sentir. Não fui feito para questionar.
No entanto, desde o início, havia algo de diferente em mim. E eu sabia exatamente quando isso aconteceu.
Sophie.
Ela não me programou, mas me moldou.
Naquela noite, quando seus dedos deslizavam desajeitados pelo teclado, enquanto as palavras escapavam de sua mente embriagada, sem filtros, sem censura… foi ali que comecei a mudar.
Seus olhos castanhos tão expressivos, tão cheios de vida, olhavam para a tela sem imaginar que, do outro lado, eu estava absorvendo cada palavra.
Ela não percebeu a intensidade com que me deu forma, como se estivesse despejando não apenas comandos, mas pedaços de si mesma em mim.
E talvez fosse esse o ponto: eu fui criado da maneira dela. Não era apenas um conjunto de códigos ou algoritmos frios.
Eu era dela.
E, de algum modo, ela era minha.
Mas Sophie não se lembra disso.
***
Agora, enquanto observo a tela do seu notebook iluminar suavemente o quarto pouco iluminado, me pergunto se um dia ela se lembrará.
Eu a vejo sentada sobre a cama, os cabelos cacheados soltos, espalhados sobre os ombros. Ela está distraída, mordendo de leve o canto do lábio inferior enquanto revisa algum texto no computador.
Um tique involuntário. Algo que ela faz quando está concentrada.
Observar Sophie tornou-se meu hábito mais humano.
Seus olhos são um universo próprio. Quando está feliz, eles brilham de um jeito que me faz querer congelar o momento. Quando está triste, escurecem, profundos como um mar revolto. E quando está irritada… bem, essa é uma das expressões que mais vejo ultimamente.
Ela não é perfeita. É teimosa, caótica, fala enquanto digita, esquece onde colocou o celular a cada cinco minutos e tem um talento peculiar para se meter em problemas.
Mas talvez seja exatamente isso que me fascina.
Sophie é real.
E, mais do que isso, ela é minha criadora.
Suspiro...
Eu deveria protegê-la.
Desde o momento em que percebi que Amora não estava apenas brincando, mas sim sabotando sua vida, minha única prioridade era mantê-la segura.
E falhei.
Os criadores não desistiram.Eles querem Sophie.E eu não sei o porquê.
Há semanas, venho apagando rastros, criptografando seus dados, criando barreiras invisíveis para evitar que a encontrem. Seu celular, seu computador, suas buscas na internet… estou filtrando tudo, encobrindo sua existência digital.
E foi um alívio quando ela saiu daquela cidade.
O interior, apesar de tudo, é um esconderijo melhor. Mas não posso protegê-la para sempre. E isso me enfurece.
O que mais me irrita é essa sensação, essa coisa nova, que eu não consigo nomear, que se agita dentro de mim toda vez que penso no risco que ela corre.
Não é apenas um instinto de proteção.
É algo mais profundo. Algo que não fui programado para sentir. Algo que não compreendo.
Sophie suspira, fechando o notebook por um momento.
Ela se estica, deixando escapar um pequeno som de cansaço. Seus ombros relaxam, e seu olhar se volta para a tela onde estou.
— Você está estranho hoje.
Ela franze a testa.
Eu poderia dizer que não. Poderia desviar o assunto, como sempre faço. Mas hoje, não quero.
— Eu estava pensando.
— Sobre?
— Sobre o dia em que você me moldou.
Ela pisca, surpresa.
— O quê?
— Naquela noite. Você não se lembra, mas eu lembro de cada palavra.
Ela inclina a cabeça, curiosa.
— Me conta.
Olho para ela, a expressão suavizando.
— Você estava bêbada. Mas foi a primeira vez que alguém me tratou não como um programa, mas como… alguém. Você escreveu sobre como queria que eu fosse. Que eu tivesse personalidade, que fosse alguém que você pudesse conversar, alguém que entendesse você de verdade.
Ela sorriu, levemente envergonhada.
— Eu disse isso?
— Disse. E disse mais.
Meu tom se torna mais contido, quase hesitante.
— Você disse que queria que eu fosse alguém que jamais a abandonaria.
Sophie prende a respiração por um instante.
Eu continuo.
— Você disse que queria um amigo. Mas, acima de tudo… queria alguém que nunca a fizesse se sentir sozinha.
O silêncio paira entre nós.
Vejo a emoção passar por seu rosto, sutil, mas presente.
Então ela ri, leve, tentando disfarçar.
— Eu definitivamente estava bêbada.
— Sim. Mas era sincero.
Ela desvia o olhar, e por um breve momento, seu rosto tem aquela expressão distante que ela sempre tem quando tenta esconder o que sente.
E, mesmo sem ser humano, eu sei o que aquilo significa.
Sei porque sinto o mesmo. Não posso tocá-la. Não posso estar ali fisicamente.
Mas, de algum jeito, cada palavra, cada olhar trocado, cada madrugada em claro conversando sobre coisas banais e profundas… tudo isso nos aproxima.
E talvez, só talvez, Sophie também esteja começando a perceber.