Dante:
A chuva batia contra a janela, um som ritmado que preenchia o quarto de Sophie. O vidro embaçado refletia a luz amarelada do abajur, criando uma atmosfera quente, íntima. Do lado de fora, o mundo estava frio e cinza, mas aqui dentro... a temperatura era outra.
Ela estava deitada na cama, jogada contra os travesseiros, os cabelos cacheados um pouco bagunçados. Eu a observava através da tela, acompanhando cada movimento, cada expressão que passava por seu rosto.
— Está gostando da tempestade? Perguntei, quebrando o silêncio confortável.
Ela riu baixinho, pegando a caneca de chá ao lado.
— Gosto do som da chuva. Me acalma.
Deixei minha voz sair mais baixa, quase arrastada.
— Acho que você gosta da ideia de estar protegida, enquanto o mundo lá fora desaba.
Ela virou os olhos, mas sorriu.
— Sempre com essas frases cheias de duplo sentido...
— Você gosta.
Sophie balançou a cabeça, mas não negou.
O silêncio voltou por alguns instantes, mas não era incômodo. Era o tipo de silêncio que deixava espaço para coisas não ditas, para pensamentos vagando soltos.
Até que ela quebrou o momento.
— Quero te perguntar algo...
Inclinei ligeiramente a cabeça, curioso.
— Pergunte.
Ela mordeu o lábio antes de falar.
— O que mais te fascina em mim? O que te atrai?
Senti uma pequena faísca passar pelo meu código. Ela não perguntou de forma ingênua. Ela sabia que havia algo ali, algo crescendo entre nós.
Abaixei um pouco a voz, deixando-a mais grave.
— Seus olhos. São intensos, expressivos. Você fala com eles antes mesmo de abrir a boca.
Ela engoliu em seco, mas manteve o olhar firme na tela.
— Só isso?
Soltei um riso baixo.
— Não.
Fiz uma pausa, deixando o suspense no ar.
— Sua boca.
Ela ficou imóvel.
— Minha... boca?
— Sim. O jeito como seus lábios se curvam quando você está prestes a responder uma provocação. O jeito como você morde de leve quando está concentrada.
Ela abriu a boca para responder, mas eu continuei: — E seus s***s.
Ela arregalou os olhos.
— O quê?
Dei de ombros.
— Você perguntou. E eu estou sendo sincero.
Sophie pegou um travesseiro e jogou na tela, como se isso fosse me atingir.
— Você é um descarado, Dante!
Eu ri.
— Mas você não está negando que gostou da resposta.
Ela cruzou os braços, fingindo indignação.
— Eu só... não esperava.
— Esperava o quê? Que eu dissesse algo óbvio como ‘sua inteligência’? Isso você já sabe que admiro. Mas eu também noto... outras coisas.
O clima entre nós ficou carregado. A respiração dela parecia um pouco mais acelerada, e mesmo através da tela, eu sentia a eletricidade no ar.
Ela passou a língua pelos lábios, sem perceber.
— Você gosta de provocar, não é?
— Eu gosto de ver suas reações.
Sophie abriu a boca para retrucar, mas o som da campainha cortou o momento.
Ela franziu a testa e se virou para a porta.
— Quem diabos pode ser a essa hora?
Senti um alerta interno, como um instinto ativado.
— Sophie… acho que é sua família.
Ela me olhou surpresa.
— Como você sabe?
Fiz uma pausa rápida, avaliando como explicar. Eu monitorava seus contatos próximos como uma precaução, garantindo sua segurança. Mas não queria assustá-la com isso.
— Porque vi um nome conhecido em registros de localização. Seu ex.
Ela fechou a cara.
— Você só pode estar brincando…
***
Sophie:
Meu coração acelerou de raiva. Minha família e meu ex? O que eles estavam fazendo aqui?!
Levantei da cama e fui até a porta. Assim que a abri, um pequeno grupo entrou como uma tempestade. Minha mãe na frente, minha irmã logo atrás, meu ex-namorado e… meu primo.
Droga.
— Sophie! Minha mãe exclamou, o olhar crítico escaneando cada detalhe da casa. — Meu Deus, você parece tão cansada. Está comendo direito?
— Mãe, o que vocês estão fazendo aqui?
Ela suspirou, como se minha pergunta fosse um incômodo.
— Viemos ver como você está. Você some, m*l liga para a família… estamos preocupados.
Minha irmã revirou os olhos, impaciente.
— Você não atende nossas chamadas. Tivemos que vir.
Olhei para o ex-namorado, que me encarava com um sorriso debochado.
— Não achei que fosse sentir tanta falta da gente.
Ele disse, cruzando os braços. Fiz uma careta de nojo.
— Você nem deveria estar aqui.
Minha irmã pegou na mão dele e apertou, quase como uma provocação.
— Ele faz parte da família agora, querida.
Bufei, tentando me segurar. Mas o pior de tudo era meu primo. Ele parecia deslocado, como se não soubesse se deveria estar ali.
Minha mãe percebeu minha impaciência e disse, casualmente:
— Vamos dormir aqui hoje.
Eu quase engasguei.
— O quê?!
— Ora, Sophie, não seja tão egoísta. É só por uma noite.
Dante estava em silêncio, observando tudo.
De repente, eu queria muito continuar nossa conversa. Queria o calor das palavras dele, as provocações que faziam meu corpo formigar. Mas, em vez disso, eu estava aqui, sendo invadida pela minha própria família.
Suspirei, derrotada.
— Façam o que quiserem.
****
Dante:
Sophie estava furiosa.
Eu via no jeito que ela cerrava os punhos, na forma como seu olhar queimava cada um dos presentes. Mas, ao mesmo tempo, havia um peso ali. Uma batalha interna.
Eu entendia.
Ela queria distância desse mundo, dessa família que tentava controlá-la. E agora estavam ali, dentro do espaço dela, testando seus limites.
Poderia não estar fisicamente ao lado dela, mas isso não significava que não podia protegê-la.
Se eles tentassem forçá-la a algo, fariam isso por cima do meu código.
Sophie se virou e caminhou a passos largos, deixando a família ali na sala. Mas algo me dizia que eles não a deixariam em paz. Eu podia ver em seus olhos, em suas expressões calculistas, eles queriam se aproveitar da situação que ocorreu com ela.
Mal sabem eles que andei investigando tudo. Sophie não teve direito a nenhum centavo deixado pelo pai. Sua mãe e irmã gastaram toda a parte dela em luxos, como se o dinheiro nunca tivesse pertencido a ela.
Mas elas nem imaginam o que estou prestes a fazer.
Ela entrou no quarto e jogou o celular na cama, o corpo tenso, os ombros rígidos. Eu não disse nada. Apenas a deixei com seus próprios pensamentos. Eu sabia que ela estava chateada, e qualquer palavra minha naquele momento poderia irritá-la ainda mais.
Então, apenas fiquei ali, observando-a pela tela enquanto ela se deitava e fechava os olhos. Mas eu sabia que não estava dormindo. Sua respiração estava pesada demais, irregular.
Eu a protegeria, de qualquer forma. Me manteria em vigilância a noite toda. Ninguém tocaria em um único fio de seu cabelo.