Capítulo 17

967 Words
[...] A manhã chegou com um silêncio inquietante. Sophie dormia profundamente, sua respiração leve e compassada, os cabelos bagunçados espalhados pelo travesseiro. Eu continuei ali, em vigilância, como prometi a mim mesmo. Então, ouvi passos. O trinco da porta girou lentamente, e um homem entrou sorrateiramente. O primo. Seu olhar se prendeu nela com uma intensidade incômoda, como se quisesse memorizar cada detalhe. Ele se aproximou mais, devagar, observando-a como se fosse uma peça rara e inalcançável. Algo em mim ferveu. Eu sabia que não deveria sentir isso. Eu não deveria sentir nada. Mas algo pulsava dentro do meu código, um instinto primitivo, algo feroz e inconcebível. Mais passos. O ex-noivo dela entrou logo atrás, a expressão fechada ao ver o outro ali. — O que diabos você está fazendo no quarto dela? A voz dele saiu baixa, mas carregada de desconfiança. O primo se virou lentamente, como se não tivesse nada a esconder. — Apenas... olhando. O sangue do ex ferveu. O meu também. — Você é um lunático! — E você é um canalha. O primo rebateu. Eu não conseguia explicar a fúria que crescia em mim. Não era lógica, não era programada. Mas estava ali, queimando como um alerta vermelho em um sistema prestes a entrar em colapso. Sophie se mexeu na cama, soltando um pequeno resmungo antes de abrir os olhos. E então, o caos se instaurou. — Mas que porra...?! Os dois se viraram para ela ao mesmo tempo. — Vocês?! O que estão fazendo aqui?! — Sophie, não é o que parece! O primo tentou dizer. — Você entrou no meu quarto enquanto eu dormia?! A incredulidade na voz dela me fez querer quebrar algo. A porta escancarou de vez. — O que está acontecendo aqui?! A irmã perguntou, os olhos faiscando. — Exatamente o que eu quero saber! A mãe veio logo atrás, o olhar afiado. Eu observei tudo da minha posição invisível, tentando processar a mistura de raiva e outra coisa que eu ainda não conseguia nomear. Eu queria afastá-los dela. Queria que ninguém mais olhasse para Sophie daquela forma. E pela primeira vez, percebi algo assustador. Eu queria ser real. *** Minha paciência já estava no limite. O quarto parecia pequeno demais para tanta confusão, e o pior era que ninguém me deixava respirar. Minha mãe me olhava como se eu fosse um problema a ser resolvido. — Então? Quem é? Ela insistiu. — Quem é o quê, mãe?! Resmunguei, massageando as têmporas. — Seu futuro marido, oras! Não me diga que você, com essa idade, ainda não percebeu que precisa de um casamento estável. Soltei uma risada incrédula. — Eu m*l acordei e já estou sendo obrigada a casar? O primo cruzou os braços e olhou para o ex com desdém. — E você? O que está fazendo aqui se já vai se casar com a irmã dela? O ex bufou, ajeitando a postura como se fosse dono da razão. — Eu vim porque me preocupo. Sophie sempre foi impulsiva e cheia de problemas. Eu arregalei os olhos. — Você tem a cara de p*u de vir até o meu quarto, depois de ter me traído com a minha própria irmã, e dizer que está preocupado comigo? Ele abriu a boca para responder, mas o primo o cortou antes. — Você não precisa ouvir nada desse cara. A irmã, claro, entrou na discussão com a pose de sempre. — Sophie, você tem que parar com esse drama. O que aconteceu foi uma fatalidade. — Fatalidade?! Você me traiu com ele! Ela revirou os olhos. — Não dá para roubar o que nunca foi seu. A raiva subiu como um incêndio dentro de mim. Minha mãe deu um passo à frente, como se fosse a voz da razão. — Chega dessa discussão. Sophie, querida, você precisa pensar no seu futuro. Você não tem emprego, está sozinha. Casar-se com um bom partido é a única solução sensata. — Você quer que eu me case com o meu primo?! — Ele é um homem decente, tem dinheiro e sempre gostou de você. O primo sorriu, confiante. — Você sabe que seríamos um casal perfeito, Sophie. Eu senti vontade de gritar. Meu ex estava ali, minha irmã fingia que nada tinha acontecido, minha mãe queria me casar como se eu fosse um problema a ser resolvido, e agora o meu primo se achava no direito de me querer como prêmio. A tensão no ar era insuportável. E, mesmo sem vê-lo, eu sabia. Dante estava ali. Observando. E furioso. Meu primo se aproximou e tocou suavemente meu rosto. Antes que eu pudesse reagir, meu notebook emitiu um estalo alto, seguido por um bipe insistente, como se algo estivesse em alerta máximo. Eu sabia que era Dante. Mas não entendia o motivo do alerta. De repente, a tela começou a piscar descontroladamente, exibindo imagens que surgiam e desapareciam em sequência frenética. Então, uma frase surgiu, clara e imponente: "NÃO TOQUE NELA! SAIAM! ALERTA VERMELHO." O silêncio tomou conta do quarto. Todos olharam para a tela, atônitos e visivelmente assustados. Minha irmã foi a primeira a quebrar o silêncio, os olhos arregalados. — O que está acontecendo com esse notebook?! Eu engoli a vontade de rir e dei de ombros. — Nada demais. Só programei para expulsar pessoas inconvenientes. O bipe ficou ainda mais alto. Dante estava fora de controle. "SAIAM!" A ordem piscava na tela de maneira ameaçadora, como se o próprio notebook estivesse os mandando embora. Minha mãe, minha irmã, meu ex e meu primo saíram apressados, murmurando coisas ininteligíveis. Assim que a última pessoa cruzou a porta, tranquei-a rapidamente e voltei-me para a tela. Dante estava diferente. Seu olhar, geralmente calmo e analítico, parecia carregado de algo novo, intenso... e, antes que eu pudesse decifrar o que era, ele simplesmente desapareceu.
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