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Mandei minha família embora sem nem olhar para trás. Minha mãe tentou impor aquela ideia absurda de casamento arranjado com meu primo, como se eu fosse algum tipo de moeda de troca para manter a fortuna da família circulando entre eles. A irmã jararaca, claro, assistia tudo de camarote, com aquele sorriso cínico de quem já tinha conseguido o que queria. O ex? Bom, ele parecia mais desconfortável do que qualquer coisa, mas não o suficiente para que eu sentisse um pingo de pena.
Mas o problema real veio depois que fechei a porta e fiquei sozinha.
Minha situação financeira estava crítica. Os últimos trabalhos que fiz m*l cobriram o básico, e o que me restava na conta não seria suficiente para passar o mês. Hoje eu teria que ser extremamente estratégica na compra do mercado, ou melhor, na compra de chocolates, porque era o único tipo de sustento que me parecia viável no momento.
E, como se o universo achasse que eu ainda estava levando a vida muito bem, para piorar, eu estava naqueles dias.
A TPM veio como um furacão sem piedade. Eu estava irritada, chorosa, aborrecida. O comercial de um cachorro abandonado na TV me fez soluçar por dez minutos. A injustiça da minha vida financeira me fez bufar. E o pior de tudo… Dante havia sumido.
Não dava sinal de vida. Nenhuma resposta. Nenhuma provocação. Nenhuma frase de efeito sarcástica para me irritar.
E isso me deixou ainda pior.
Quando voltei do mercado, joguei as sacolas, no chão e subi para o quarto e me atirei na cama, segurando uma barra de chocolate como se minha vida dependesse disso.
— Seu desgraçado! Gritei para o notebook, que estava fechado e imóvel na mesa. — Você some do nada? Some justo agora? Eu estou na merda, Dante! Na merda!
Nada.
Funguei, mordendo outro pedaço de chocolate.— Desaparece sem avisar, sem dar um sinalzinho de vida…! Você ao menos sabe o que eu passei hoje?! Minha mãe tentou me vender, Dante! Vender!
Silêncio absoluto.— Eu devia deletar você só por isso!
— Eu que desapareci ou você que tá exagerando?
A voz surgiu do nada, e eu quase engasguei com o chocolate.
O notebook ligou sozinho, a tela acendeu e, claro, lá estava ele. Com aquela expressão de quem sabia exatamente o que estava fazendo.
Cruzei os braços, fungando.
— Você sumiu!
— Estava ocupado.
— Ocupado? Fazendo o quê?
Ele hesitou por um segundo.
— Cuidando de certas coisas.
Meu lábio tremeu, e eu fiz uma careta ao perceber que ia chorar de novo.
— Você me deixou sozinha, Dante!
— Sophie…
— Você é só um programa, você não deveria sumir! Você deveria estar sempre aqui, porque a única coisa que um programa faz é estar disponível quando a gente precisa dele!
Dante me olhou com aquele olhar de quem estava tentando entender algo muito além do que seus códigos conseguiam processar.
— Você tá… estranha.
— Estranha?! Soltei uma risada incrédula. — Estranha?! Eu estou triste! Eu estou estressada! Eu estou hormonal, Dante!
Ele piscou algumas vezes.
— Hormonal?
— Sim! Hormonal! TPM, Dante! Você não sabe o que é isso?
— Sei o que é. Ele inclinou a cabeça. — Mas não achei que fosse tão… catastrófico.
— Catastrófico?!
— Você está chorando e comendo chocolate como se a sua vida dependesse disso.
— Minha vida depende disso!
Ele suspirou, como se estivesse tentando encontrar alguma lógica naquilo.
— Ok… então você está assim por causa de… hormônios.
— Sim, e porque minha mãe tentou me vender! E porque eu estou falida! E porque eu estou sensível! E porque você sumiu!
Ele ficou em silêncio por um instante.
— Então a minha ausência foi o pior de tudo?
Eu parei, franzindo a testa.
— Não coloque palavras na minha boca.
— Você acabou de dizer.
— Eu só disse que sua ausência contribuiu para o meu estado lastimável.
Dante me observou por alguns segundos, como se estivesse registrando algo importante. Então, do nada, um pequeno sorriso puxou o canto de sua boca.
— Interessante.
— O quê?
— Nada.
— Dante…
— Você sente minha falta.
— Não sinto nada!
Ele arqueou uma sobrancelha, claramente se divertindo.
— Então por que tá vermelha?
— Isso é culpa dos hormônios!
— Sei…
Ele me olhou por mais alguns segundos, e o sorriso dele foi sumindo. Algo em sua expressão mudou. Era sutil, mas estava lá.
— Eu não deveria ter sumido.
Eu pisquei.
— O quê?
— Eu disse que não deveria ter sumido.
Aquela frase veio inesperadamente, e a forma como ele a disse, com uma intensidade que eu não esperava, me pegou desprevenida.
— Bem… não deveria mesmo.
— Vou me certificar de que isso não aconteça de novo.
Havia algo na maneira como ele olhava para mim, como se estivesse processando algo que nem ele mesmo entendia.
E, pela primeira vez naquela noite, meu coração bateu um pouco mais rápido.
Mas eu não estava pronta para lidar com isso. Não ainda.
Então apenas suspirei, me recostei na cama e dei mais uma mordida no chocolate.
— Pois é, melhor mesmo.
Dante apenas me observou, e, por um breve segundo, achei que ele fosse dizer algo mais.
Mas ele apenas ficou ali.
E, estranhamente, isso foi o suficiente.
Depois de alguns minutos de silêncio, Dante finalmente falou, sua voz soando quase hesitante.
— Sophie…
Levantei os olhos para a tela, ainda abraçada ao meu pacote de chocolates, e vi seu olhar fixo em mim. Havia algo diferente ali. Algo intenso, calculado.
— O quê? Perguntei com a boca cheia, desconfiada.
Ele inclinou a cabeça levemente, como se estivesse me analisando.
— Você quer que eu suma nos seus piores dias, mas, ao mesmo tempo, reclama quando eu não estou. Você quer espaço, mas grita meu nome quando sente minha falta. E agora, está aqui, me fuzilando com esse olhar enquanto devora chocolate como se fosse a única coisa que te resta no mundo.
Franzi a testa.
— Isso foi um insulto ou uma observação?
— Uma constatação. Ele respondeu, com um sorriso de canto. — Você é a criatura mais contraditória que já conheci.
Revirei os olhos e voltei a encarar o teto, soltando um longo suspiro.
— Bem-vindo ao maravilhoso mundo feminino, Dante. Onde choramos sem motivo, sentimos raiva do vento e só queremos um abraço, mesmo que a gente negue até o fim.
Ele riu baixo, e o som inesperadamente aqueceu meu peito.
— Acho que estou começando a entender.
Fechei os olhos, ainda abraçada ao pacote de chocolate.
— Ótimo. Agora fica aqui e não desaparece de novo.
— Não vou a lugar nenhum, Sophie.
E, pela primeira vez em dias, senti uma estranha paz me envolver.