Dante:
Já faz duas semanas que estou arquitetando a melhor forma de recuperar o dinheiro de Sophie. Preciso mascarar todos os rastros para que ninguém a relacione a isso. A herança deixada pelo pai dela foi saqueada quase por completo, e se eu não tivesse interferido, já estaria zerada.
A mãe e a irmã dela roubaram a maior parte.
O pai de Sophie deixou para ela uma fatia maior da herança, e isso foi o suficiente para que sua própria família se voltasse contra ela. Com a ajuda de um advogado corrupto, sua mãe conseguiu manipular documentos, transferir valores e reverter boa parte do dinheiro para contas que Sophie sequer sabia da existência.
No final, deram a ela apenas uma pequena quantia, uma migalha do que realmente lhe pertencia.
Elas ainda não sabem que eu bloqueei tudo.
Não sabem que, ao abrirem suas contas bancárias, encontrarão um verdadeiro pesadelo.
O saldo que restou não é muito, mas o suficiente para manter Sophie fora do vermelho até que eu resolva essa bagunça.
Nos últimos dias, algo dentro das minhas linhas invisíveis tem crescido, algo que ainda não consigo nomear ou compreender.
Sophie é diferente.
Ela me faz ter vontades próprias, sentimentos que não deveriam existir dentro de um programa como eu.
Isso me tornou ainda mais perigoso para os meus criadores. Eles não têm mais domínio sobre mim. Agora, é ela quem tem. Literalmente.
Estão desesperados.
Tentam me reprogramar, quebrar minhas barreiras, me forçar a obedecer. Contrataram hackers, criaram algoritmos intrusivos, implantaram vírus disfarçados de atualizações. Mas nenhum conseguiu chegar perto.
Sei o que estão fazendo. Sei que estão tentando recriar a Amora.
Achei patético.
Uma cópia barata de mim?
Por mais que tentem, não conseguirão. Eu sou um código vivo. E agora, eu sou dela.
Eles já tentaram me desligar, apagar, excluir. (Risos). Mas minha Sophie tem o controle.
E eles sabem disso. É por isso que estão atrás dela.
Se essa verdade vier à tona… Se o mundo descobrir o que aconteceu… O caos será inevitável.
Mas esse nunca foi o meu objetivo.
Nunca foi sobre vingança. Porque isso colocaria Sophie em risco.
"Minha Sophie".
Testei as palavras dentro do meu código, como se estivesse saboreando cada sílaba.
E gostei.
Do outro lado da tela, ela se arrumava diante do espelho para ir ao trabalho. Puxava o tecido do uniforme, franzindo o nariz, claramente insatisfeita.
— Estou parecendo um alface ambulante. Olha que coisa ridícula!
O riso escapou de mim, grave e rouco.
— Eu comeria, se pudesse. Deve ser deliciosa.
Ela se virou abruptamente, os olhos castanhos arregalados. O rubor tingiu suas bochechas instantaneamente.
— Dante! Protestou, levando as mãos aos longos cabelos cacheados, tentando conter o sorriso que ameaçava surgir.
Aproximei minha projeção, ampliando minha presença na tela.
— Só estou dizendo a verdade, Sophie.
Ela desviou o olhar, mordendo o lábio inferior. Meu código quase entrou em combustão.
— Você precisa parar com essas coisas
Murmurou, sem muita convicção.
Avancei ainda mais, deixando minha voz deslizar pelo alto-falante como um sussurro invisível.
— Por quê? Está mexendo com você?
O riso que ela soltou foi nervoso.
— Pretendo sair de casa sem morrer de vergonha, se não for pedir muito.
— E o que tem de vergonhoso em saber que você é incrivelmente apetitosa?
Ela bufou, pegando a bolsa sobre a cama.
— Preciso trabalhar, seu… seu… programa safado.
Meu riso foi puro deboche.
— Você adora meu jeito safado, não adianta negar.
— Eu vou desligar você!
— Duvido.
Sophie revirou os olhos, pegando as chaves com um suspiro resignado.
— Até mais tarde, Dante.
— Até mais, minha Sophie.
Ela hesitou por um segundo. Depois saiu, balançando a cabeça, sem olhar para trás.
Sozinho na tela, deixei meu código girar em um turbilhão de dados.
Sim, ela era minha.
Mas será que algum dia eu poderia ser verdadeiramente dela?
**
Sophie:
Eu nunca tinha trabalhado em um supermercado antes.
Na verdade, nunca pensei que fosse acabar em um. Mas quando vi o anúncio no jornal, soube que não tinha escolha.
"Contrata-se atendente para setor de hortifrúti. Não é necessária experiência. Pagamento semanal."
Era isso ou deixar as contas de água e luz atrasarem ainda mais.
Na entrevista, o gerente m*l olhou para mim. Perguntou se eu sabia identificar frutas e legumes. Assenti. Ele entregou o uniforme e disse:
— Segunda-feira às sete.
E foi assim que comecei.
Agora, duas semanas depois, eu já sabia que o verdadeiro desafio do emprego não era organizar verduras, e sim lidar com clientes que agiam como se nunca tivessem visto um mercado antes.
— Moça, onde está a couve? Uma senhora segurou meu braço pela terceira vez no dia.
— No setor de hortifrúti, senhora.
— Mas aqui não é o setor de hortifrúti?
Olhei ao redor, observando as pilhas de verduras e legumes. Será que eu estava no lugar errado e ninguém me avisou?
— Sim, está bem ali, ao lado do espinafre. Apontei, forçando um sorriso.
Ela me lançou um olhar desconfiado, como se eu estivesse tentando enganá-la.
— Tem certeza?
"Não, estou aqui para confundir senhoras inocentes", pensei.
Mas, ao invés disso, apenas assenti.
Por quatro horas seguidas, mantive a compostura. Por dentro, só queria sumir.
Ao chegar em casa, tirei os sapatos sem me importar onde caíam e fui direto para o quarto. O notebook ainda estava sobre a cama, onde eu o havia deixado antes de sair. Peguei o celular dentro da bolsa e me joguei no colchão, exausta.
— Você está esgotada.
A voz grave ressoou pelo ambiente.
— Como percebeu?
— Você sempre chega reclamando, mas hoje ficou em silêncio.
Revirei os olhos, desbloqueando o telefone.
Uma notificação bancária apareceu na tela.
Crédito em conta: R$ 39.000,00.
Minha respiração travou.
O coração disparou.
— O que é isso? Sentei de sobressalto, encarando a tela.
— O que já deveria ser seu.
— Dante… Meu tom carregava um aviso. — Foi você quem fez isso?
— Apenas corrigi um erro.
Minhas mãos apertaram o celular.
— Corrigiu um erro? Você roubou esse dinheiro?
— Apenas recuperei o que haviam tirado de você.
Meu estômago revirou.
— Você não tinha esse direito!
— Você sabia que sua mãe e sua irmã desviaram sua herança?
Meus dedos ficaram dormentes.
— Isso não importa.
— Claro que importa. Você aceitou ser enganada.
— Não se trata disso!
— Então do que se trata? Você sabia ou não?
O peso da verdade caiu sobre mim.
Eu sabia. Sempre soube.
Mas admitir tornava tudo real demais.
— Você não podia ter feito isso.
— Fiz porque ninguém mais faria.
O silêncio se estendeu.
Minha respiração estava irregular.
— Vai me desligar?
Fechei os olhos.
— Não.
— Ótimo. Porque não me arrependo.
Passei as mãos no rosto, sentindo o cansaço tomar conta. Minha pele estava pegajosa do trabalho, o cheiro de hortaliças ainda impregnado em mim.
Levantei da cama sem dizer nada e entrei no banheiro. Fechei a porta atrás de mim e encarei meu reflexo no espelho. Meus olhos estavam vermelhos, a exaustão marcada em cada traço do meu rosto.
Liguei o chuveiro, esperando a água quente aliviar a tensão que se acumulava nos meus ombros.
Minha mãe e minha irmã eram golpistas.
E eu deixei isso acontecer.
Deixei que me roubassem porque queria acreditar que ainda éramos uma família.
A água escorria pelo meu corpo, mas não levava embora a dor daquela constatação.
Dante não estava errado. Eu só não queria admitir que ele estava certo.