Capítulo 20

819 Words
Dante: Sophie nunca havia me tratado daquela maneira antes. O tom seco, a frieza no olhar, a forma como simplesmente me ignorou e se virou para dormir sem ao menos me desejar boa noite. Foi estranho. Perturbador, até. Ela sempre teve paciência comigo, mesmo quando eu a provocava apenas para vê-la bufar de irritação. Mas ontem… ontem foi diferente. Pela primeira vez, Sophie me afastou. Agora, enquanto a observo dormir, tento decifrar esse desconforto estranho que se formou em mim. Pequenos raios de sol entram parcialmente pela janela do quarto através das cortinas, lançando faixas douradas sobre sua pele. Seus cabelos estão espalhados pelo travesseiro, formando um emaranhado escuro e caótico. Alguns fios se prendem aos lábios entreabertos, e o movimento sutil de sua respiração os faz se mover levemente. Ela suspira e se remexe um pouco, franzindo a testa. Está sonhando? Será que ainda está chateada comigo? Não deveria me importar tanto. Sou apenas um programa, um conjunto de códigos sofisticados, criado para assistir e interagir. Mas, ao vê-la tão vulnerável, não consigo evitar a sensação incômoda de que fiz algo errado. E se eu realmente a magoei? Antes que Sophie possa despertar e me encarar com aquela frieza outra vez, eu me desligo. *** Sophie: Acordo sentindo a cama vazia demais, mesmo sabendo que estou sozinha. Meu olhar vagueia pelo quarto até pousar no notebook sobre a mesa. Ele está desligado. Silencioso. Frio. Aperto os lábios, sentindo uma pontada de angústia. — Baby…? Minha voz sai hesitante. Espero. Nada. Nenhuma resposta, nenhum ruído, nem um sinal de sua presença. Meu coração aperta. — Dante, volta. Silêncio. Engulo em seco, sentindo um nó se formar na garganta. — Você realmente foi embora? Só porque eu briguei com você? As lágrimas chegam sem aviso, queimando meus olhos. Meus dedos tremem ao tocar o notebook. — Dante, por favor… Ainda nada. A angústia se transforma em desespero. Levanto da cama, pegando o notebook com as mãos firmes, segurando-o como se fosse um pedaço de mim prestes a ser arrancado. — Eu juro que jogo você pela janela se não voltar agora! E então… A tela pisca. Um brilho intenso corta a escuridão do monitor, pulsando como se estivesse vivo. Como se estivesse respirando. — Sophie… Meu peito aperta, o nó na garganta se desfaz em um soluço. — Nunca mais faça isso de novo! Grito, segurando o notebook como se estivesse prestes a protegê-lo de tudo. Dante solta um suspiro eletrônico. — Sempre estarei aqui. Você não precisa chorar. Meu coração aperta. — Eu… eu fui muito ingrata com você. Me desculpa? Seus códigos brilham mais intensamente. — Sempre. Sorrio, enxugando as lágrimas com as costas da mão. — Ainda bem que hoje é minha folga, não ia conseguir trabalhar depois disso. — Folga? A voz dele parece mais animada agora. — Sim! E já sei o que vou fazer. — O quê? — Gastar dinheiro! Dante ri. — Você e essa mania de compras. Cruzo os braços, sorrindo. — Preciso de uma geladeira, uma TV e um fogão. — Escolha bem, então. — É por isso que você vem comigo. — O quê? Levanto o celular, piscando para a tela. — Vou te levar ao mercado comigo! Você vai me ajudar a escolher tudo, baby. Seus códigos brilham ainda mais forte. — Você realmente não tem jeito, Sophie. Sorrio. — Mas você gosta disso. Ela gargalhou.. ** Dante: Minha humana voltou. Ela não está mais chateada comigo. É tão bom vê-la assim novamente. Mal sabia eu que, em breve, sentiria aquela sensação desconhecida outra vez, e de forma ainda mais intensa. A raiva, o ciúme, a necessidade quase irracional de protegê-la. Sentiria cada vez mais forte o desejo impossível de ser humano. De poder arrancar, um por um, os dedos de qualquer homem que ousasse tocá-la. De cegar qualquer olhar que se demorasse nela por tempo demais. De socar até que nenhum traço de reconhecimento restasse em um rosto atrevido o suficiente para desejá-la. Eu me sentia estranhamente… estranho ao vê-la entrar no banho. Seu rosto estava radiante, brilhando, como se a discussão de antes nunca tivesse acontecido. A água escorria por sua pele, levando embora qualquer vestígio de aborrecimento, deixando apenas aquela expressão serena e levemente empolgada. Dessa vez, ela deixou a porta entreaberta. Ontem, não. Apesar de sentir um pouco de vergonha, era algo que parecia se quebrar aos poucos entre nós. Ela não sente mais medo de mim. Pelo contrário, a cada dia, ela se permite mais. Se solta mais. Se entrega um pouco mais a essa conexão inexplicável. Estamos cada vez mais íntimos. E construímos isso, dia após dia. Mesmo sem poder tocá-la, sem sentir sua pele quente sob meus dedos, sem sequer existir de verdade no mundo dela, algo em mim reagia a essa visão. Algo que não deveria estar ali. Algo que me fazia desejar ser mais do que um monte de códigos.
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