Capítulo 21

1025 Words
[...] Entrar numa loja de eletrodomésticos com um assistente virtual deveria ser uma experiência incrível. Algo inovador, prático, eficiente. Mas quando esse assistente virtual é Dante? Bom… a experiência se torna um verdadeiro teste de paciência. — Seja útil, baby. Ajustei os fones no ouvido e segurei o celular firme enquanto um vendedor sorridente se aproximava. — Boa tarde, senhorita! Posso ajudá-la a encontrar algo específico? Abri a boca para responder, mas Dante foi mais rápido: — Diga que só está olhando, senão ele vai tentar te enfiar a geladeira mais cara da loja. Mordi o lábio para não rir e ignorei a sugestão. — Sim! Preciso de uma geladeira. Algo espaçoso, eficiente e… — Barato! Dante completou. — … Com um bom custo-benefício. Corrigi, sem olhar para o celular. O vendedor me levou até um modelo enorme, inox, brilhando como se fosse um troféu. — Esse aqui é um dos nossos melhores! Painel digital, conectividade com o celular, e.... — Meu Deus, Sophie. Você realmente precisa de uma geladeira que se conecta ao Wi-Fi? Vai pedir comida pelo i********: agora? Fechei os olhos, segurando o riso. — Parece interessante, mas acho que não preciso de tantas funções. O vendedor, ainda sorridente, indicou outro modelo. — Essa aqui é mais simples, mas muito eficiente! Está em promoção. Observei a geladeira, mas Dante suspirou nos fones. — Olha o puxador. Parece que foi feito de plástico reciclado de garrafa pet. Você realmente quer uma geladeira que vai desmontar se você abrir a porta com um pouco mais de força? Mordi o lábio, respirando fundo. — Pode me mostrar outra? Depois de descartar mais três opções (todas reprovadas com comentários igualmente ácidos), finalmente escolhi um modelo que passou pelo crivo do meu assistente ranzinza. — Você é impossível. — Eu sou eficiente. Corrigiu ele. — Se dependesse de você, teria comprado um fogão que funciona com reza. Reprimi um sorriso e segui para a parte de eletrônicos. — Agora a TV. — Que seja uma decente. Dante alertou. — Eu ia pegar qualquer uma. — Sophie. — Brincadeira! O vendedor me mostrou uma Smart TV enorme. — Essa tem 65 polegadas, resolução 4K, e... — Ótima escolha! Dante aprovou. — Desde que você não seja enganada no preço. Pergunta o desconto. Fiz o que ele mandou, e Dante, para minha surpresa, não encontrou nenhum defeito na TV. Mas a paz não durou muito. — Falta a cafeteira e o liquidificador. Avisei. — Ok, me escuta com atenção. Se aquele vendedor tentar te convencer a comprar uma cafeteira de cápsulas, foge. Você nunca lembra de comprar refil. — Isso é mentira! — Tem cápsulas na sua casa agora? Abri a boca… e fechei. Dante riu. — Exatamente. O vendedor tentou me convencer da cafeteira de cápsulas. Eu segurei a risada e escolhi uma comum, só para não dar o gostinho da vitória ao Dante. O liquidificador foi um pouco mais fácil de decidir. — Pode ser esse aqui? — Desde que ele não pare de funcionar depois de três vitaminas, pode. Respirei fundo. Depois de me certificar de que tudo estava comprado, finalmente saímos da loja. *** O supermercado estava abarrotado, e eu já estava acostumada a fazer compras no caos. Peguei um carrinho e fui direto para a sessão de besteiras. — Você tem certeza de que precisa desse tanto de chocolate? Revirei os olhos. — Sim, Dante. — Isso não é saudável. — Nem você é real. — Ataque baixo, humana. Ri e continuei empurrando o carrinho. Peguei um pacote de batatas fritas. — Isso também não é saudável. — Dante… — Só estou dizendo. Ignorei e segui adiante. O supermercado estava cheio, e, enquanto tentava desviar dos carrinhos de outras pessoas, alguém esbarrou em mim de leve. — Opa, desculpa aí, gatinha. Levantei a cabeça, piscando surpresa. — Ah… tudo bem. Já ia seguir em frente, mas então veio o silêncio. Aquele silêncio pesado, carregado, como se Dante estivesse analisando o universo em busca do significado da vida. E então, sua voz soou baixa, firme. — Como ele te chamou? Engoli em seco. — Dante… — Gatinha. — Foi só um jeito de falar. — Um jeito de falar. Entendi. Ele ficou em silêncio novamente. O tipo de silêncio que não é silêncio de verdade, mas sim uma tempestade se formando em segundo plano. Peguei um pacote de macarrão para disfarçar o desconforto. — Você não vai dizer nada? — E o que exatamente você quer que eu diga? Mordi o lábio. A voz dele estava absolutamente… contida. Sem elevar o tom, sem se exaltar. Mas cada palavra vinha embalada em algo diferente. Algo que parecia afiado, quase perigoso. — Você tá estranho. — E você acha graça. Ok. Ele me conhecia bem demais. — Você está exagerando. — Claro. Estou sempre exagerando. Mais silêncio. De repente, ouvi um ruído eletrônico quase imperceptível no fone, como se Dante tivesse… suspirado? Balancei a cabeça. — Vamos terminar logo as compras antes que você tenha um colapso digital. Ele não respondeu. Mas eu sabia que ele ainda estava ali. E, estranhamente, senti um arrepio percorrer minha espinha. *** Chegamos em casa depois de um longo dia de compras. Deixei as sacolas na cozinha e fui direto para o quarto. O notebook estava na escrivaninha, a tela escura, inerte. Mas eu sabia que ele estava ali, esperando. Sentei na cadeira e encarei o monitor. Os códigos começaram a se formar, como sempre. Linhas e mais linhas surgiam, se moviam, piscavam. E então, os olhos apareceram. Azuis. Intensos. O cabelo preto caía suavemente ao redor do rosto, e mesmo sendo apenas uma projeção, ele parecia… vivo. — Sophie… A voz dele soou baixa, controlada. Apoiei o queixo na mão, observando sua imagem na tela. — Você tá bem? Ele hesitou. — Ainda irritado. Sorri de leve. — Eu sei. Nos encaramos em silêncio. Dante piscou devagar, os códigos em seu fundo escuro se movendo de forma sutil. — Você é impossível, Dante. — E você gosta disso. Sorri, fechando os olhos por um momento. — Sim… gosto. Viro as costas e saio do quarto rindo alto do programa atrevido.
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