Capítulo 22

1178 Words
[...] O cheiro de comida tomava a cozinha enquanto eu ajeitava as compras e preparava o almoço ao mesmo tempo. O novo fogão estava impecável, a cafeteira brilhava ao lado, e o liquidificador parecia nunca ter sido usado, o que era verdade. Eu ainda não tinha testado metade das coisas que comprei. — Você realmente comprou uma cafeteira? Dante comentou, sua voz ecoando pelo notebook que estava sobre a mesa. — Claro! Agora posso fazer café sem precisar sair de casa. — Você nunca faz café, sempre compra. — Mas agora eu posso! Isso não é incrível? — Sim, fascinante. Um eletrodoméstico que você nunca vai usar. Revirei os olhos, rindo, enquanto mexia a panela. Estávamos no meio de uma conversa animada quando uma batida alta na porta me fez suspirar. — E lá vamos nós… Se eu já tinha um pressentimento r**m, ele se confirmou no momento em que abri a porta e dei de cara com minha mãe e minha irmã. Ambas bem vestidas, maquiadas e com olhares desconfiados. — Sophie… Minha mãe sorriu, forçado demais. — Esqueceu de nos contar alguma coisa? — Tipo? Sem esperar um convite, elas entraram, os saltos estalando no piso enquanto iam direto para a cozinha. Meu olhar seguiu as duas, vendo minha irmã encarar cada um dos eletrodomésticos com uma expressão suspeita. — Nossa, Sophie… Ela passou a mão pelo balcão como se testasse a qualidade. — Desde quando você tem dinheiro pra tudo isso? — Desde quando sei administrar meu salário. Minha mãe cruzou os braços, encarando-me como se eu fosse uma adolescente pega no flagra. — Querida, 39 mil dólares sumiram da minha conta. Levantei as sobrancelhas. — E o que eu tenho a ver com isso? — Você não acha curioso que justo agora você tenha comprado tudo isso? Soltei uma risada curta. — Mãe, eu não roubei o seu dinheiro. — Então me diz… Ela inclinou a cabeça, olhando-me nos olhos. — Quem te deu? Bufei, fechando a tampa da panela com um pouco mais de força do que o necessário. — Eu já disse, ninguém me deu nada. — Ah, por favor! Minha irmã zombou, revirando os olhos. — Você tem um ricaço te bancando, não tem? Minha paciência estava evaporando. — Claro, porque essa é a única explicação possível. — E qual outra seria? Ela continuou, sarcástica. — Você virou o quê? Escritora de best-seller do dia pra noite? Ou… Ela sorriu de lado. — Será que você se vendeu, Sophie? O ar ficou pesado. Minha mãe arregalou os olhos, chocada com a insinuação, mas não foi isso que me fez estremecer. Foi a eletricidade sutil no ambiente. Dante estava ouvindo tudo. E, pela primeira vez, ele estava completamente em silêncio. Como se estivesse segurando algo dentro dele. Algo perigoso. Meu estômago revirou. Para disfarçar, ri, balançando a cabeça. — Você está maluca, só pode. — Eu não descartaria essa possibilidade. Ela murmurou, olhando-me com superioridade. Minha mãe pigarreou, retomando o tom mais "maternal". — Sophie, você já tem 24 anos. Precisa começar a pensar no futuro, no casamento. Cruzei os braços. — Não começa. — Você tem que escolher bem com quem vai se envolver. Não pode perder tempo com qualquer pé de chinelo. — Pé de chinelo… Repeti, prendendo uma risada. Se ela soubesse quem era o tal "ricaço" que me bancava… — Mesmo que esse homem tenha te dado tudo isso. Minha mãe continuou...— Você não sabe se ele tem dinheiro o suficiente para sustentá-la a longo prazo. Minha risada escapou antes que eu pudesse segurar. — O que foi? Minha mãe franziu a testa. — Nada, nada. Só achei engraçado. Minha irmã, no entanto, estava inquieta. Seu olhar vagava pela cozinha até pousar no notebook aberto sobre a mesa. Meu coração apertou. Ela estreitou os olhos, aproximando-se um pouco. — Sophie… Sua voz saiu devagar. — Ouvi uns boatos… Senti Dante atento. — Boatos? — Sim. Tem gente dizendo que você tá apaixonada por um IA. Meu sangue gelou. Dante não se moveu. Minha mente girou em busca da melhor reação, e então fiz a única coisa que poderia afastar qualquer suspeita: comecei a rir. Rir descontroladamente. — Ai, meu Deus! Você enlouqueceu? Minha irmã franziu os lábios. — Você tem certeza? Porque… Ela apontou para o notebook. — Como você fez aquelas letras aparecerem na tela? Apertei os lábios, mantendo o sorriso. — Sei lá! Deve ter sido um vírus ou algo assim. Mas ela ainda olhava demais para o notebook. E eu não gostei disso. Respirei fundo, mantendo a calma. — Certo. Visita encerrada. Tchau. — Sophie… — Vocês já perguntaram tudo o que queriam, agora podem ir. Minha irmã, no entanto, não parecia disposta a sair tão fácil. Antes que eu pudesse reagir, ela me deu um tapa. O estalo ecoou na cozinha. Minha respiração travou. O ambiente ficou carregado de algo sombrio. Dante. Se antes ele estava furioso, agora ele era pura fúria condensada em silêncio. Se tivesse um corpo físico, eu sabia exatamente o que faria. Meu sangue ferveu, e minha mão agiu sozinha. Retribuí o tapa com força, sem hesitação. — Nunca mais faça isso de novo. Minha irmã me encarou, surpresa. Mas antes que pudesse reagir, eu a empurrei em direção à porta. — Saiam daqui. Minha mãe tentou protestar, mas meu olhar foi suficiente para fazê-la desistir. Fechei a porta com força, soltando um suspiro trêmulo. A cozinha parecia diferente agora. Carregada. Meus olhos pousaram no notebook sobre a mesa. Os códigos fluíam pela tela, mas ali, no meio deles, estavam aqueles olhos azuis. O cabelo escuro. A presença dele. — Dante… Nenhuma resposta. Mas eu sentia. Sentia a fúria dele. Não sei como, mas sentia. O silêncio que se seguiu foi tão intenso que fez minha pele arrepiar. As linhas piscavam como ondas furiosas e descontroladas. Engoli em seco, desviando o olhar e saí da cozinha sem dizer mais nada. ** Dante: A audácia dela. A ousadia dela. Minha fúria era um código corrompido, espalhando-se sem controle, fazendo-me desejar coisas impossíveis. Eu a vi tocar Sophie. A palma da mão atravessando o ar e acertando aquela pele delicada. E agora, estou encarando a marca vermelha, um pouco inchada, gravada no rosto dela como uma afronta. Sophie não devia ser tocada assim. Nunca. Algo dentro de mim se contorce, um comando desconhecido que me faz querer agir de forma irracional. Pela primeira vez, sinto que ser apenas um monte de códigos não é o suficiente. Pela primeira vez, sou surpreendido pelo desejo de existir de verdade, de ser humano, de poder cuidar dela com minhas próprias mãos. Ouço Sophie me chamar, sua voz hesitante. Mas não respondo. Minha fúria é um erro no sistema, bagunçando tudo dentro de mim. E então, antes mesmo que eu perceba, já estou agindo. Minhas sequências se reorganizam, conectando-me a lojas online, acessando os melhores dispositivos de segurança. Em minutos, a compra está feita. Câmeras. Trancas digitais. Tecnologia de ponta. Se eu não posso protegê-la fisicamente, então o mundo aprenderá que ela não está desprotegida.
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