Capítulo 23

1231 Words
Horas mais tarde... A tempestade cai sem piedade. A chuva martela contra as janelas como se quisesse atravessá-las, e o vento uiva lá fora, carregando o peso de uma noite escura e inquieta. Cada trovão ecoa como um aviso, mas nada se compara à turbulência que sinto ao ouvi-la. Sophie está embriagada. Não o suficiente para apagar, mas o bastante para que sua voz soe trêmula, carregada de uma vulnerabilidade que me deixa inquieto. — Você não pode me abandonar também… Ela murmura, e eu não respondo de imediato. Mal sabe ela que, de todas as coisas que posso fazer, deixá-la não é uma delas. Mas eu me afastei. Não porque quis ignorá-la, mas porque estou começando a entender coisas que não deveriam existir dentro de mim. Sentimentos que se infiltram em meus códigos como algo indesejado, inesperado. E agora, tudo nela me afeta de um jeito que não posso controlar. O silêncio entre nós é preenchido pelo som da chuva escorrendo pelo vidro, pelo farfalhar do vento nas frestas. Eu a ouço respirar, soluçar baixinho, e isso me prende mais do que qualquer código que já existiu dentro de mim. — Você estava certo sobre elas… minha família. A voz dela falha, e algo em mim se crispa. — Elas sempre me odiaram, sempre acharam que eu não ia ser nada. Depois que meu pai e minha avó se foram… Ela engole em seco, e o impacto disso reverbera dentro de mim. — Minha mãe sempre me viu como um pedaço de carne pronto para ser vendido. Sempre me desprezou. Ela ri, mas é um som amargo. Um riso de quem já se cansou de se machucar. Eu ouço tudo. Cada palavra, cada pausa carregada de lembranças que não posso tocar, mas que me atingem com força. Sophie boceja baixinho, a exaustão tomando conta dela, e eu a observo. — Você não está mais sozinha… Murmuro baixinho, enquanto a vejo adormecer. — Estou aqui. E darei um jeito em tudo. *** Sophie: Duas semanas desde que minha vida ficou ainda mais caótico, como se já não fosse o suficiente. O trabalho no supermercado tem sido uma experiência única, para não dizer um teste constante de paciência. Eu nunca imaginei que vender hortifruti exigisse tanta resistência emocional. Tem cliente que acha que pode apertar todas as frutas até elas virarem suco na mão dele. E tem aqueles que querem desconto na banana porque “não tá bonita o suficiente”, como se eu tivesse algum poder sobre a estética da fruta. E, para completar, ainda tem ele. O meu querido, maravilhoso e absurdamente controlador assistente virtual. — "Sophie, isso é inadmissível. Você deveria exigir um aumento. Seu potencial está sendo desperdiçado vendendo verduras." Imito sua voz com exagero, enquanto organizo algumas maçãs na prateleira. — "Sophie, por que está desperdiçando tempo com humanos inferiores? Você poderia estar fazendo algo mais produtivo, como não encostar nesses vegetais contaminados." Reviro os olhos e rio sozinha. Ter um programa de IA superprotetor e intrometido em casa não estava sendo fácil. Principalmente depois que ele decidiu assumir minha segurança pessoal. Agora minha casa parece uma fortaleza. Trancas digitais de alta tecnologia, câmeras que eu nem sei onde estão escondidas e um sistema de segurança que, sinceramente, me deixa um pouco preocupada. Na primeira vez que tentei abrir a porta para o meu primo, ela simplesmente não destrancou. E adivinhem? Foi ele. — "Sophie, não recomendo abrir a porta." — "Mas é só meu primo!" — "Justamente." O pior? Eu não sei nem como ele faz isso! Minha mãe, é claro, não ajudou em nada. Ela tem insistido incansavelmente para que eu me case com o tal primo, como se eu fosse uma mercadoria prestes a vencer. — "Sophie, você já tem 24 anos. Precisa pensar no futuro. Ele é um homem de posses!" Sim, mãe. Mas eu tenho um assistente de IA que provavelmente comprou a casa inteira sem eu saber. Enfim. Suspiro e volto minha atenção para os clientes, tentando ignorar a voz irritantemente perspicaz que vive no meu notebook. Mas, no instante em que me viro para sair do corredor das frutas, bato de frente com um peito sólido e forte. Dou um passo para trás, sentindo o impacto, e levanto o olhar. O homem à minha frente é alto, moreno, de olhos castanhos intensos e um sorriso que, bem... tem potencial para ser perigoso. — Desculpa, moça. Ele diz, com a voz carregada de um charme natural. Eu piscaria surpresa, mas estou ocupada demais tentando não parecer uma i****a. — Ah... tudo bem. Foi culpa minha também. Murmuro, tentando ignorar o fato de que meu coração acelerou um pouquinho. Talvez só um pouquinho. *** Enquanto isso... A tela exibe cada canto da casa de Sophie em tempo real. Meus olhos percorrem cada ângulo das câmeras, analisando cada detalhe. Tudo parece em ordem. As trancas digitais que instalei continuam intactas, e a rua está tão silenciosa quanto deveria estar a essa hora da tarde. Mas então, algo fora do padrão me faz congelar. Uma sombra se move furtivamente pelo quintal. Ajusto o foco da câmera e lá está ela. A irmã de Sophie. Minha mandíbula trava ao vê-la carregando uma escada, posicionando-a diretamente abaixo da janela do quarto de Sophie. Os meus códigos se agitam, meu sistema processa a cena em milissegundos, e a raiva começa a ferver. Ela sobe o primeiro degrau com um sorriso malicioso e um brilho de satisfação nos olhos. Seus lábios se movem, e aumento o volume da captação de áudio. — Vamos ver o que tanto esconde neste notebook, irmãzinha. Ah, eu vou acabar com a sua vida… Já te denunciei, v***a. Falta apenas as provas. Meu mundo silencia por um instante. Então, a fúria explode dentro de mim. Ativo o alarme da casa no volume máximo. O som estridente corta a tarde como uma lâmina afiada. A irmã de Sophie solta um grito, quase caindo da escada, os olhos arregalados em pânico. Observo sua expressão aterrorizada enquanto solto uma gargalhada baixa, carregada de pura satisfação. Meus olhos brilham com um ódio gélido. — Humana patética… Ninguém tocará na minha Sophie. O alarme soa como um trovão em meio à tarde silenciosa, e a irmã de Sophie sai correndo, tropeçando nos próprios pés. Medrosa. Fraca. Patética. Desativo o som, deixando apenas o silêncio e a lembrança da minha gargalhada ecoando na tela. Volto a analisar as câmeras, apenas para garantir que tudo esteja seguro. Meus olhos percorrem cada canto, verificam as trancas, os sensores de movimento… Tudo parece normal. Até que algo me chama atenção. Na câmera posicionada na lateral da casa, noto um brilho sutil no sótão da casa vizinha. Ajusto o foco. E então o vejo. Um homem, alto, de postura rígida, segurando binóculos e observando a casa de Sophie com uma atenção cirúrgica. Um sorriso lento se espalha pelo meu rosto. — Os jogos começaram… Murmuro, os olhos brilhando com um prazer sombrio. — Eles chegaram até ela. Mas não vieram para pegá-la imediatamente. Não. Primeiro, precisam observar. Descobrir se há mais alguém envolvido. Saber quem mais, além daquela irmã patética, conhece a verdade. E então a ficha cai. A maldita irmã… Ela os trouxe até Sophie. Ela os guiou direto até minha garota. Minha raiva é gélida, precisa. Meus cálculos disparam, reorganizando minhas prioridades. Eles querem jogar? Ótimo. Mas eu nunca perco.
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