Sophie:
Abri os olhos lentamente, tentando evitar a luz que queimava minhas pupilas, e uma dor intensa na cabeça me fez suspirar. O gosto amargo da bebida ainda estava impregnado na minha boca. Eu provavelmente exagerei ontem... não sou de beber, mas parece que me empolguei.
Foi então que um cheiro delicioso invadiu minhas narinas. Cheiro masculino, algo entre perfume e… poder. Tentei me mover, mas o corpo não cooperava.
Me forcei a levantar, recostando na cabeceira da cama, tentando dar sentido à confusão. Nunca tive o costume de beber, acho que passei dos limites ontem.
Foi então que eu os meus olhos pousaram em um homem. Ele estava de pé, na minha janela, admirando a vista lá fora, enquanto eu apreciava a vista aqui dentro.
Eu o analisei discretamente. Ah, não é possível... ele era lindo. Não, lindo não, ele era uma obra de arte. A calça social moldava aquele bumbum perfeito e, ao subir o olhar, encontrei braços definidos, uma camisa social branca, com um colete cinza que grita sofisticação, e o cabelo... ele estava impecável. Dei um suspiro e voltei a deitar, mas então algo me atingiu: POR QUE TEM UM HOMEM NA MINHA CASA?
— Aaaaaaaaaah! Eu gritei num pânico descontrolado e me levantei da, caindo no chão. Que merda!
Ele riu, ainda de costas para mim, e disse:
— Tão imprevisível.
Quando ele se virou, meu ar sumiu. O que era aquilo? Ele... ele é irritantemente perfeito!
Balancei a cabeça e comecei a gritar novamente, mas ele simplesmente se sentou na minha poltrona e cruzou as pernas. Olhando para o relógio, disse: — Você tem apenas algumas horas para ficar pronta, o casamento da sua irmã será às quatro horas, e já são duas horas.
Ele disse com um sorrisinho de lado, aquele sorrisinho irritante igual a... Balancei a cabeça novamente.
— Como entrou na minha casa? Quem é você? Vou chamar a polícia.
Tentei me levantar, mas minhas pernas estavam falhando.
Ele arqueou uma sobrancelha, visivelmente divertido, e falou com uma calma perturbadora:
— Me sinto ofendido, Sophie. Como assim você não lembra de mim?
— Foi a minha mãe que te mandou? Como conseguiu quebrar a fortaleza de segurança que é essa casa?
Ele riu novamente e se inclinou para frente. Eu quase podia sentir o magnetismo que ele exalava. Seus olhos azuis, tão profundos... estavam mais intensos, fizeram meu coração bater aceleradamente, era como se quisessem me devorar. É como se eu os já tivesse visto antes... familiar. Mas onde?
— Achei que a recepção seria melhor.
Eu rolei os olhos, mas não consegui esconder um pequeno sorriso irônico. Eu estava completamente fora de controle.
— Eu quero que você saia da minha casa, agora! Gritou o meu lado racional, mas meu corpo não estava me ajudando. Eu só queria achar meu telefone.
Me levantei e tateei o criado-mudo à procura do meu celular, mas não estava lá. Droga!
Ele sorriu audivelmente, se divertindo com a minha cara e o meu medo.
Eu, completamente desesperada, peguei um abajur e me preparei para atirar nele.
— Não faça isso, não seja louca. Respire e se acalme.
Respirar? Se acalmar? Não tinha como, ele estava na minha casa, no meu quarto. Eu, que nunca fui de beber e trazer estranhos para minha casa. Como pude fazer isso? Essa é a única explicação.
— Me acalmar? Tem um tarado na minha casa, no meu quarto, e você está pedindo para que eu me acalme? Os tarados agora estão sofisticados? Acalmam as vítimas e depois as atacam?
— Não fale bobagens, Sophie. Eu nunca machucaria você. Agora, se acalme.
Ele suspirou com paciência.
— Não, e está volumoso assim por quê? Apontei para o desenho generoso que se formou na calça.
Ele puxou o ar com força, claramente tentando se controlar, e me olhou com uma expressão que misturava frustração e algo... mais. Disse:
— Estou tentando me controlar, mas é impossível toda vez que olho para você ou me aproximo. Me desculpe, não tive a intenção. É tudo novo para mim ainda, gatinha.
Ele ficou com as bochechas coradas, e achei fofo. Mas o meu mundo girou no "gatinha".
Eu congelei. Minha mente foi inundada por uma onda de nostalgia. Eu… eu não sabia o que fazer. Levantei a mão ao peito, sentindo uma dor no fundo do meu coração. As lágrimas vieram sem avisar.
— Saia da minha casa, e não me chame assim. Só uma pessoa tinha esse direito, e ele… ele foi embora.
Ele se levantou e deu um passo em minha direção, me encolhi na cama.
— Como pôde não me reconhecer, baby? Ele disse com uma suavidade que fez meu coração acelerar ainda mais. – Eu te perdoo… só hoje.
Eu olhei para ele, mas senti o mundo girar. O que ele estava dizendo? Eu... não podia.
— Sai de perto de mim, eu vou gritar.
Ele deu mais um passo adiante, e me encarou com aqueles olhos azuis, tão familiares, tão intensos.
— Sophie, olhe para mim. Sou eu, Dante.
Comecei a gargalhar alto e a bater com a mão na cama, mas ele não parecia nem um pouco afetado pela minha reação. Ele cruzou os braços, me encarou com os olhos semicerrados e expressão enigmática.
Mas eu parei ao me dar conta do que ele havia dito.
— Como você disse? Como sabe do Dante? Quem é você? Ok, chega brincadeira. Saia da minha casa... AGORA!
Ele pareceu impassível.
— Você me chamou, Sophie. Não sei como, mas estou aqui. E estou aborrecido. Você bebeu demais, sumiu e quase fez meu sistema entrar em colapso.
Olhei para ele, tentando entender. Os olhos... Os mesmos olhos. Eu quase podia ouvir sua voz em minha mente.
Eu o encarei novamente, e, olhando bem, ele tem traços parecidos, os olhos são os mesmos. O azul intenso agora cheio de vida.
"Ele está aqui, Sophie. Não é mais só um código."
Meu corpo tremeu, minha mente estava completamente confusa. Eu caí para o lado, e tudo escureceu.