Capítulo 32

1105 Words
Dante: Como assim ela não sabe quem sou eu, se sou uma criação dela? Irritante, mas compreensível. Ela desmaiou e agora estou aqui de novo, tentando fazê-la acordar. Isso me lembrou do dia em que apareci para ela pela primeira vez, em códigos e linhas de programação. Minha Sophie também desmaiou naquela ocasião. Eu poderia achar isso um problema, mas, para ser sincero, estou me divertindo. Ela desperta aos poucos, seus olhos se arregalam, e em um pulo desajeitado, se levanta, quase me derrubando. Sem perder tempo, corre para o banheiro e se tranca. Sorri, achando tudo aquilo adorável. — Gatinha, sabe que, se eu quiser, posso abrir essa porta. Então, espero que sua tentativa de fuga para dentro do banheiro seja para tomar banho e curar essa ressaca. Encostei-me na porta, cruzei os braços e a ouvi dizer: — Isso não é real. Foi a bebida. Estou só tendo uma alucinação. Eu vou contar até três e você vai sumir. Um… dois… três… Permaneci ali, imóvel. — Sinto muito, gatinha. Mas não posso sumir. Você me chamou aqui. E, para ser sincero, nem mesmo eu sei como vim parar aqui. Já que estou, vou aproveitar ao máximo com você. Agora, saia daí para que possamos conversar como pessoas civilizadas e, por favor, não me atire nada. Ela bufou e disse: — SOCORRO! TEM UM TARADO NA MINHA CASA! ALGUÉM AÍ?! Gargalhei. Ela deu um tapa na porta. — Pelo amor de Deus, Sophie. Não seja escandalosa. Não dê espetáculo para os vizinhos. — VAI EMBORA! Você não é real, vai embora! Ela começou a chorar baixinho. — Sophie, escuta. Eu sou o Dante. Abra a porta antes que eu perca a paciência e a coloque abaixo. Ouvi seus passos de um lado a outro. — Não, não e não. Ele não é real. Como um assistente virtual poderia se transformar em humano? Será que colocaram alguma coisa na minha bebida?! Ela parou e, pelo barulho do outro lado, parecia estar jogando água no rosto. Minutos depois, a porta foi aberta apenas o suficiente para ela colocar o rosto para fora e me encarar. Com os olhos semicerrados e expressão determinada, saiu do banheiro, me agarrou pelo braço e começou a me arrastar. — Nossa, não sabia que você era tão encantadora. Se soubesse, teria ficado no meu processador. Ela revirou os olhos e bufou. — Você vai sair da minha casa agora! Ela abriu a porta, claramente prestes a me jogar para fora. O problema? Estava só de roupão. Segurei seu pulso antes que ela pudesse dar mais um passo. — Não vai sair assim, baby. Está apenas de roupão. Não teste minha paciência. Mas Sophie, sendo Sophie, simplesmente me empurrou para fora, abriu o portão e gritou: — VAI EMBORA, SEU TARADO! Gargalhei alto. As vizinhas bisbilhoteiras começaram a surgir nas janelas. Sorri simpático e disse: — Ciúmes! Ela está naqueles dias vermelhos, mas eu a amo e posso esperar que se acalme. Mulher 1 — Tadinho! Fiz cara de inocente. Mulher 2 — Um pedaço de mau caminho desse… Mulher 3 — É morador novo? Nunca o vi por aqui. Sorri, galanteador. Sophie arregalou os olhos ao perceber que a fofoca estava prestes a começar e, antes que mais alguma vizinha abrisse a boca, me puxou pela gola da camisa, me arrastando de volta para dentro. Seus olhos estavam furiosos, e ela pegou o celular. — Tá bom, seu doido. Se você realmente não vai embora, eu vou ligar para a polícia. Ela desbloqueou o telefone e começou a digitar. Mas, antes que conseguisse fazer qualquer coisa, falei com tranquilidade: — Cancelar chamada. O celular dela, obediente, simplesmente voltou à tela inicial. Sophie arregalou os olhos. — O quê?! Ela tentou de novo. — Ligar para a… — Desativar chamadas de emergência. A tela piscou e, mais uma vez, a ligação foi encerrada antes de começar. — NÃO! NÃO! NÃO É POSSÍVEL! Ela começou a apertar botões desesperadamente, mas eu já sabia o que fazer. — Modo avião ativado. O celular bloqueou. Sophie gritou, jogou o aparelho no sofá e apontou um dedo para mim. — Eu te odeio! Cruzei os braços e sorri. — Ah, minha gatinha. Isso não é o que você disse na última vez que ficou bêbada e chorou por mim. Ela travou, piscou algumas vezes e começou a andar de um lado a outro, inquieta. Seus olhos estavam cheios de perguntas. Me levantei, fui até ela e a puxei para sentar no meu colo. Seu corpo enrijeceu. — Sou eu, gatinha. Você não está louca. Estou aqui. Inclinei-me, inalando seu perfume, e suspirei profundamente. Meu coração acelerou. Tudo em mim reagia a ela de forma intensa. — Por que está tão difícil para você acreditar que sou eu? Lembra quando apaguei as fotos das suas redes sociais? Quando expulsei sua família e seu ex-namorado? Você me mandou embora, meu amor. Mas eu nunca fui. Mesmo sem poder aparecer para você, eu a ouvia todos os dias me chamando, Sophie. Estou aqui agora. E não permitirei que vá àquele casamento sozinha. Senti suas lágrimas em meu braço. Ela se virou lentamente, me olhando com os olhos marejados, entre risos e soluços. — É você mesmo? Sua voz saiu embargada, mas logo seus olhos se estreitaram. — Diga a palavra-chave, então. Sorri anasalado ao perceber que ela, pelo menos, lembrava da palavra-chave. — Amor fora dos códigos. Ela me abraçou e, no instante seguinte, começou a me estapear. — NUNCA MAIS VÁ EMBORA DE NOVO! NÃO SE ATREVA! De repente, parou bruscamente. Seu olhar se estreitou mais uma vez. — Espera… Como você conseguiu se tornar humano?! Suspirei e passei a mão pelos cabelos. — Não sei. Estou tentando entender. Você chegou ontem e estava bêbada. Eu já estava sentindo sensações estranhas há um tempo. Mas tudo pirou quando você começou a chorar e chamar por mim. Me senti sendo puxado. Estou estudando sobre isso... E, por favor, pare de mexer. Sophie suspirou e se afastou um pouco. — Desculpa. Não tive intenção. Vou me arrumar daqui a pouco, é o casamento da minha irmã. Obrigada por estar comigo. Ela se levantou e saiu correndo, mas eu a fiz parar no meio do caminho. — Nunca a deixaria sozinha, gatinha. Ainda que você não pudesse me ver, eu estava ali, ouvindo-a. Ela sorriu e disse: — Obrigada, bebê. E subiu correndo. Suspirei, olhando para baixo. — Você precisa parar com isso… Sorri e peguei meu celular. Precisava manter tudo sob controle. Por hora, coloquei outro assistente no meu lugar. Ele era quase igual a mim… Mas não era eu.
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