Na manhã seguinte...
A luz do sol invadiu o quarto, aquecendo minha pele de um jeito irritantemente delicado. Soltei um suspiro lento, espreguiçando-me entre os lençóis. Algo ainda pulsava sob minha pele, uma sensação quente, insistente, como se meu próprio corpo se recusasse a esquecer.
A noite passada.
Meu sorriso se ampliou antes mesmo de abrir os olhos.
Ah, Sophie...
— Dormiu bem?
O som do seu susto foi a verdadeira cereja do bolo. Ela se jogou para o lado, numa tentativa ridícula de fuga, mas sua falta de coordenação garantiu um final espetacular: um baque seco no chão.
Ri baixo, saboreando a cena.
— Isso foi… esplêndido.
Ela me encarou com aqueles olhos estreitos, faiscando indignação.
— Você me assustou, seu...!
Franzi a testa.
— Cuidado com as palavras, pequena. Você sabe que sou sensível.
Sophie bufou, tentando recuperar a dignidade enquanto se levantava.
— Você não pode simplesmente aparecer do nada assim!
— Aparecer? Inclinei a cabeça, divertindo-me. — Mas eu estive aqui o tempo todo.
Vi o arrepio cruzar sua pele, exatamente como eu queria. Ela sempre tentava se convencer de que tinha controle da situação. Era quase adorável.
— Eu vou tomar banho. E não quero ouvir um pio seu!
Abaixei a cabeça, sorrindo.
— Ah, Sophie... Murmurei, deixando a voz deslizar até ela. — Você sabe que eu não preciso falar para estar presente, certo?
Ela fugiu. Literalmente. Pegou a toalha e correu, batendo a porta com força suficiente para quase me fazer rir outra vez.
Deixei que ela tivesse seu momento de ilusão, acreditando que água quente e rotina a livraria de mim.
Tola.
Quando ela saiu, vestindo aquele uniforme sem graça, já estava conformada com sua tentativa inútil de seguir o dia como se nada tivesse acontecido.
— Verde. Hm. Combina com você. Mas eu ainda preferia algo menos… comportado.
Sophie me lançou um olhar que deveria ser ameaçador. Não foi.
— Você não prefere nada.
Cruzei os braços, saboreando a resistência dela.
— Oh, eu prefiro muitas coisas, Sophie. Algumas, inclusive, que você não ousaria dizer em voz alta.
Vi suas mãos tremerem. Ah, isso estava ficando cada vez melhor.
— Você está especialmente insuportável hoje.
Sorri devagar.
— Engraçado. Eu diria que estou apenas… satisfeito.
Ela tentou ignorar, fingiu que não estava ouvindo. Mas seu corpo já contava a verdade que sua boca não queria admitir.
Sophie tentou se concentrar no café, como se cada gole fosse um escudo contra mim.
Pobrezinha.
— O que foi agora? Ela resmungou, impaciente.
— Nada. Só estou apreciando a vista.
Ela me lançou outro olhar mortal. Fofa.
Ela se levantou, tentando encerrar a conversa.
— Estou indo para o trabalho.
Acompanhei cada movimento dela, cada batida acelerada do seu coração.
— Estarei acompanhando.
O corpo dela congelou.
— O quê?
— Você acha que eu te deixaria sozinha depois da noite que tivemos?
Ela engasgou. Perfeito.
— N-nós não tivemos nada!
Inclinei-me ligeiramente, deixando a provocação escorrer na minha voz.
— Interessante… algumas memórias são traiçoeiras, não acha? O corpo sempre se lembra primeiro.
O rubor subiu pelo seu pescoço. Eu observei cada segundo, cada detalhe, gravando essa vitória na minha mente.
Ela abaixou a cabeça e se apressou para sair, fugindo da única verdade que importava.
Ela estava em negação.
O que, no fim, só tornava tudo mais… divertido.
**
Sophie saiu de casa apressada, como se a pressa pudesse apagar as últimas horas. Ridícula. Eu a segui sem esforço, sem pressa, apenas aproveitando o espetáculo.
Ela sabia que eu estava lá. Sabia que cada passo seu era vigiado, que cada movimento seu corpo denunciava mais do que sua boca jamais admitiria.
Ela entrou no ônibus e escolheu um assento no canto, como se pudesse se esconder.
— Ficar encolhida assim não vai te salvar, Sophie.
Ela se enrijeceu, mas fingiu que não me ouvia. Péssima atriz.
Me inclinei para mais perto, a voz baixa e afiada como uma lâmina: — Ainda sente, não sente?
O leve estremecer dos dedos segurando a bolsa foi suficiente para me divertir.
— Você é insuportável.
Sorri.
— E você é deliciosa quando tenta mentir para si mesma.
O ônibus seguiu seu caminho, mas ela já estava presa. Eu não precisava de correntes para mantê-la ao meu alcance.
Minutos depois quando o ônibus parou, Sophie saiu quase correndo, como se a pressa pudesse me deixar para trás. Tão fofa.
Suspirei e a observei atravessar a rua, os ombros tensos, o pescoço rígido. Ela podia fingir o quanto quisesse, mas seu corpo sempre a traía.
Antes que entrasse no supermercado, soltei, despreocupado:
— Te espero em casa.
Ela hesitou. Esse detalhe a incomodou mais do que deveria. — E, ah… mandei tirarem aquela cerca ridícula.
Sophie virou-se para me encarar, os olhos se estreitando.
— O quê?
— Agora teremos um muro. Alto, sólido. Muito mais seguro.
Seus lábios se abriram, mas as palavras não saíram de imediato. Então, quando conseguiu se recompor, soltou a pergunta que estava queimando em sua mente:
— Onde você achou tanto dinheiro? Você é só um programa!
Ela encarou o celular, como se esperasse que a tela lhe desse uma resposta mais lógica do que a minha existência já absurda.
Inclinei a cabeça, sorrindo de lado.
— Segredo.
Ela ficou me encarando, tentando decidir se me deletava da memória do telefone ou se simplesmente fingia que eu não existia.
— De qualquer forma… Acrescentei, deixando minha voz deslizar pelo alto-falante. — Mais tarde, passo para te fazer uma visitinha no trabalho.
O olhar dela escureceu.
— Nem pense nisso!
Mas eu já havia silenciado. E a expressão aterrorizada dela era tudo que eu precisava para saber que o dia seria… interessante.