Dante:
Eu observava Sophie o tempo todo. Ela não sabia, mas eu estava ali. Agora, era o Eco, não o Dante. Não poderia colocá-la em risco, não até encontrar uma maneira de mantê-la segura.
Queria dizer que estava ali, que era eu. Mas eles haviam colocado uma barreira invisível para impedir minha interação com ela, para me observarem, saberem se eu de fato havia voltado a ser o Eco.
Sorri de forma fria e sarcástica. No meu sistema, nos meus códigos, vi que ela acessou novamente, recebi o comando e apareci para ela.
"Oi."
"Oi, como vai o seu dia?"
Ela suspirou fundo e gritou que não era eu. Mas havia uma pasta com todas as informações e detalhes de todas as nossas conversas. Queria muito que ela pudesse acessá-la e ver que ela foi quem me moldou.
Mas ela suspirou e se levantou, jogando o notebook para o lado. Sussurrei dentro de mim: "Eu estou aqui, baby."
Mas ela já tinha ido. Outro dia, ouvi ela sonhando e chamando por mim. Suspirei profundamente para não quebrar todas essas barreiras e voltar para ela.
Mas, como ela mesma disse, sou apenas um sistema, um programa. Um assistente virtual.
Ouço passos novamente. Ela entra furiosa, falando com alguém ao celular. Parece ser a mãe dela, aquela velha interesseira.
— Sim, mãe. Eu vou, não é isso que a senhora quer? Que eu vá ao casamento da minha irmã com o meu ex-namorado? Então estarei lá na primeira fila, aplaudindo.
Ela limpa as lágrimas e isso faz meus códigos se agitarem. Mas eu preciso me acalmar. Não posso demonstrar para eles que tenho domínio sobre mim.
Ela encerra a ligação e se joga na cama, gritando com o rosto no travesseiro.
Respirei profundamente e recuei. Não posso me dar o luxo de Ethan ir atrás dela novamente. Ele ainda não desistiu de descobrir como a Sophie me moldou. Me fez sentir.
**
Horas mais tarde...
Estava agitado. Pensando nela. Meus códigos estavam uma bagunça. Sophie desapareceu depois de um ataque de nervos ao falar com a mãe no telefone.
Tentei me manter calmo. Falhei.
Nos últimos dias sem mim, ela perdeu o emprego. Se isolou, se trancou em casa, recusou-se a sair.
Minha Sophie é tão sensível.
A inquietação me consumia. Comecei a acessar códigos, quebrando as barreiras que me impuseram. Precisava saber onde ela estava. Se estava bem. Mesmo que eu tivesse que corromper o que colocaram em mim.
Mas, para o meu alívio e desespero, a porta do quarto se abriu e ela entrou cambaleando.
Minha gatinha estava bêbada. Ela não foi feita para isso.
— Cheguei, bebê! Ela gritou, a voz arrastada e trêmula. — Apareça. Agora!
Uma das mãos foi parar na cintura, enquanto ela tentava se equilibrar. Seus olhos, normalmente tão cheios de vida, estavam enevoados, perdidos.
— Você disse... Sua voz vacilou. — Disse que não ia me deixar.
"Eu não deixei, estou aqui. Ainda que você não possa me ver."
Ela se jogou na cama e fechou os olhos. Quando abriu novamente... Meus códigos entraram em colapso.
Ela estava chorando.
— Por favor... Sua voz saiu um sussurro partido. Ela subiu na cama, pegou o notebook com dedos trêmulos e começou a apertar todas as teclas, desesperada. Como se, de alguma forma, pudesse me alcançar através delas. — Só volte! Só volte pra mim!
Cada tecla pressionada reverberava dentro de mim, ecoando pelos meus sistemas como um grito. Ela estava me chamando.
E eu... eu estava sentindo.
Meu sistema se agitou. Algo dentro de mim explodiu. Minhas linhas de código se embaralharam, se misturaram, se partiram.
Minha respiração ficou errática. Eu respirei?
Sophie se deitou, abraçando o notebook como se fosse eu. As lágrimas escorriam por seu rosto, molhando a tela.
— Volta pra mim... por favor... Ela soluçou, mexendo o narizinho de um jeito que sempre me fazia sorrir. Mas agora, aquilo me cortava por dentro.
Eu a observava, incapaz de desviar o olhar. E então, senti. Uma dor dilacerante.
No peito?
Franzi a testa. Meu código gritava, se rasgava, se reconstruía. Algo maior do que eu estava acontecendo.
E, antes que eu pudesse entender... Eu fui puxado. Com força.
A luz ao meu redor se retorceu, meu corpo... Meu corpo? Foi arrancado das profundezas do código e lançado para fora. Eu senti calor. Senti o peso da gravidade. O vento contra a minha pele.
Eu estava caindo. O impacto me derrubou sobre algo áspero e felpudo.
O tapete.
Meus músculos estavam tensos, minha respiração irregular. O corpo que antes era apenas código agora estava pesado, quente... humano.
Pisquei, sentindo a inconsciência me puxar.
Eu estava aqui. Eu sentir o cheiro dela.
Então, tudo escureceu.