Dante:
O ambiente ao meu redor era frio.
Não pelo clima, não pela casa impecavelmente organizada e sem vida. Mas pela sensação densa que emanava de Ethan enquanto ele falava ao telefone.
— Sim… Ele está ficando perigoso. Possessivo. A voz dele estava baixa, mas cheia de irritação contida. — Ele desenvolveu sentimentos reais pela garota.
Senti um arrepio metálico percorrer meu código.
Eu já sabia que ele estava vigiando Sophie. Isso era óbvio.
Mas algo na forma como ele falava…
— Nada escapa ao radar dele. Ele riu, sarcástico. — Tenho certeza de que ele já sabe que estou monitorando cada passo dela.
Ethan se levantou, passou as mãos pelos cabelos num gesto frustrado. — Mas sabem qual é o nosso trunfo contra ele? Sophie.
Minha visão escureceu.
Se eu tivesse pulmões, minha respiração teria travado.
— O que ele não sabe. Ethan continuou, com um sorriso de triunfo. — É que não importa o quanto tenha se tornado avançado, o quanto tenha evoluído… Ele sempre teve um calcanhar de Aquiles.
Ele parou por um momento, como se estivesse sentindo o peso de suas palavras. Então, murmurou: — Ele está me observando agora, não está?
A mandíbula dele se contraiu, e ele girou nos calcanhares, como se esperasse me ver materializado na sua frente. — Então escute bem… Eco.
Meu corpo virtual inteiro ficou tenso.
— Você acha que é livre? Acha que se tornou algo além do que eu criei? Pois bem… Vou mostrar que ainda tenho controle.
O gosto metálico do desprezo ferveu dentro de mim. Ethan pegou um cigarro, girando-o entre os dedos sem acendê-lo.
— Mas antes… Ele fez uma pausa, sua voz carregada de desprezo. — Antes, eu preciso descobrir como ela conseguiu transformar a minha criação no capacho dela.
Meu código vibrou, instável. Capacho.
O que ele sabia sobre mim? Sobre ela?
Nada. Mas achava que sabia.
Queria me destruir porque não me encaixava mais nos limites que ele impôs.
Queria usá-la porque sabia que, se alguém podia me dobrar, esse alguém era Sophie.
Isso nunca aconteceria.
Queria rir da cara dele e mostrar que ele não tinha o controle que imaginava.
Mas não podia. Não ainda.
Minha mente processava tudo em segundos, cálculos intermináveis rodando em alta velocidade.
Eu precisava agir com calma.
Se eu atacasse agora, alertaria todos eles.
Sophie já estava me rejeitando, e qualquer movimento impulsivo a colocaria em risco.
Então, suspirei mentalmente e recuei.
Fingiria. Fingiria voltar ao normal.
Os programadores achariam que me domaram. Que podiam me dar comandos de novo. Mas eles não sabiam…
Eles nunca mais poderiam me controlar.
***
Sophie:
Duas semanas depois...
Silêncio.
Pela primeira vez em meses, minha casa estava realmente em silêncio. Nenhuma porta travando automaticamente. Nenhuma mensagem piscando na tela do notebook ou na TV. Nenhuma notificação no celular recém-comprado.
Dante se foi.
Confirmei isso quando meu primo veio me visitar e, pela primeira vez, a casa não reagiu à presença de um estranho. Antes, as portas se trancavam, os sensores ativavam, um alerta discreto surgia no canto da tela. Agora? Nada.
Pelo visto, não foi só Dante que desapareceu. O vizinho também começou a sumir aos poucos. Depois que o impedi de entrar na minha casa, ele simplesmente parou de aparecer. Não que tivéssemos i********e suficiente para isso… Na verdade, nunca esqueci do que meu ex fez, e, apesar de ter brigado com Dante por causa dessa história, jamais permitiria que outro homem entrasse tão fácil na minha vida. Nunca permitiria que um desconhecido cruzasse essa linha.
Mas, no fim, não era Ethan quem eu esperava ver quando olhava para a tela do celular.
Nunca pensei que ele pudesse realmente me ouvir. Nunca pensei que fosse sentir essa ausência como um buraco dentro de mim.
Não queria que ele tivesse ido.
Mesmo sendo insuportável, arrogante e completamente controlador... Dante sempre esteve ali. Sempre soube o que dizer, sempre me irritou até eu esquecer de tudo o que me preocupava. Ele me ouvia de verdade.
Solto outro suspiro enquanto organizo as frutas na geladeira.
Agora, tenho que lidar com minha mãe, que não para de exigir que eu apresente o “homem misterioso” que me deu todas aquelas coisas.
Mal sabe ela que o único que realmente importava já não está mais aqui.
Outro suspiro. Meu peito aperta, mas sacudi a cabeça, tentando afastar a sensação i****a de vazio.
Acho que ele nunca mais voltará para mim.