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1013 Words
Emily narrando O hospital parecia ainda mais frio do que de costume. O cheiro forte de desinfetante me embrulhava o estômago e eu m*l conseguia parar de andar de um lado pro outro. Minha mãe estava sentada, com o olhar perdido, enquanto minha avó era preparada para a cirurgia. Um médico, de jaleco branco e expressão séria, se aproximou de nós. Médico: A senhora Maria precisa ser operada com urgência. Já estabilizamos a pressão dela, mas a cirurgia é fundamental para evitar complicações. Emily: Pensei que já tinham operado. E quando vão levar ela? Médico: Assim que resolvermos a questão da autorização. Olhei pra ele sem entender. Emily: Que autorização? Ela tem plano de saúde. Médico: Sim, mas infelizmente o plano que vocês têm não cobre esse tipo de procedimento. Na hora, senti minhas pernas tremerem. Emily: Como assim não cobre? A gente paga esse plano há anos! Médico: Eu sei, mas alguns planos mais básicos têm exclusões para cirurgias de emergência desse porte. A opção é fazer particular. Emily: E quanto custa? Médico: Cerca de treze mil reais. O mundo girou. Treze mil. Aquilo não era só um valor alto, era impossível pra gente. Olhei pra minha mãe, que já chorava em silêncio. Érica: Meu Deus, e agora, filha? Emily: A gente não pode perder tempo. Faz a cirurgia, doutor. Médico: Então vamos providenciar a autorização. Vou pedir que assinem os papéis de responsabilidade. Ele se afastou e eu me sentei ao lado da minha mãe, tentando não desmoronar. Érica: Filha, onde a gente vai arrumar tanto dinheiro? Emily: Não sei, mãe. Mas a vó precisa. O resto a gente vê depois. Érica: Eu não quero te colocar nessa situação. Emily: Mãe, agora não tem escolha. Assinei os papéis com a mão trêmula. Senti o peso daquela dívida caindo sobre meus ombros como uma pedra enorme. Treze mil reais. Meu pai nunca teria como juntar isso. Minha mãe também não. Eu sabia exatamente quem ia ter que se virar: eu. Enquanto esperávamos a preparação, fiquei olhando pela janela do corredor. Lembrei de todas as vezes que minha avó me acolheu quando eu chegava em casa chorando. Lembrei das histórias que ela contava antes de eu dormir, do cheiro do café dela de manhã cedo. Eu não ia deixar a vida dela correr risco por dinheiro. Treze mil reais, eu vou dar um jeito. Nem que eu tenha que me jogar de cabeça no Job deixar a faculdade de lado um pouco, atender todas as noites. Mas eu vou conseguir esse dinheiro e vou quitar essa dívida. Quando a equipe levou minha avó pra sala de cirurgia, segurei a mão da minha mãe e forcei um sorriso. Emily: Vai dar tudo certo, mãe. Eu prometo. Érica: Deus te ouça, filha. Eu já não conseguia tirar a cirurgia da minha avó da cabeça. Treze mil reais. O número rodava na minha mente sem parar. Passei a manhã no hospital, só consegui sair depois que ela já estava na sala de recuperação, ainda inconsciente. Minha mãe ficou lá e eu fui direto encontrar a Yasmin. Precisava dela. Encontrei minha amiga na lanchonete perto do hospital, toda arrumada como sempre, mexendo no celular e tomando um suco. Yasmin: Pelo teu rosto, já sei que não é coisa boa. Emily: Não é mesmo. Minha avó precisou de uma cirurgia de emergência - suspirei. Yasmin: Mas ela tá bem agora? Emily: Tá, graças a Deus. Mas o plano não cobriu. Yasmin: Eita... Emily: Tô com uma dívida de treze mil reais. Ela arregalou os olhos e largou o canudo do copo. Yasmin: Treze mil? Emily: Pois é, e eu não sei de onde vou tirar isso. Yasmin: Olha, amiga, se tu quiser mesmo resolver rápido, eu conheço o cara certo. Emily: Que cara? Yasmin: Ele não é cliente, é agenciador. Trabalha só com os melhores. Ele indica garotas pro alto escalão, homens de grana, políticos, empresários é grana pesada, entende? Emily: E qual é a dele? - franzi a testa. Yasmin: Ele pega porcentagem. Sempre foi assim. Tu ganha bem, mas tem que dividir com ele. Emily: Quanto de porcentagem? Yasmin: Vinte por cento. Emily: Se for pra eu levantar o dinheiro rápido, eu topo - respirei fundo. Yasmin: Sabia que tu ia aceitar. Eu vou falar com ele ainda hoje. Mas presta atenção, amiga: esses caras não são qualquer um. Tu tem que tá impecável, postura lá em cima, sem vacilo. Emily: Pode deixar. Eu não vou vacilar. Ela segurou minha mão por cima da mesa, como quem passava confiança. Yasmin: Você é linda, inteligente e sabe se portar. Confia em mim, vai dar certo. Emily: Eu só quero resolver logo. Não aguento ver minha mãe daquele jeito, perdida, sem saber o que fazer. Conversamos mais um pouco, mas minha mente já estava a mil. Eu sabia que não tinha escolha. Aquela dívida precisava sumir, custasse o que custasse. Quando cheguei em casa, deitei na cama e fiquei encarando o teto. M@l fechei os olhos, o celular vibrou. Peguei e vi o nome, Lorraine. Estranhei, porque nunca trocamos mensagem antes. Abri, curiosa. Mensagem de Lorraine. Lorraine: "Oi, Emily. Seguinte, o Lobão tá querendo uma festinha particular. Ele pediu TODAS as meninas que foram da outra vez. Eu já avisei que tu vai, tá? Ele falou que quer todas na mansão dele, sem exceção." Li de novo, tentando processar. O coração disparou na hora. Só o nome dele na tela já me fez sentir um frio na barriga. Continuei lendo. Mensagem de Lorraine: Lorraine: "Já deixo claro, dessa vez não é escolha. Ele pediu geral, então tu vai porque ele quer todas lá." Fiquei olhando pro celular, sentindo a respiração acelerar. Lembrei do toque dele, da forma como me olhou naquela noite, das palavras que sussurrou quando me beijou. Eu devia estar com medo, afinal, era o Lobão. Mas, estranhamente, eu sentia outra coisa. Uma mistura de ansiedade e desejo. Só de ler o nome dele, meu coração já pula no peito. Respirei fundo e digitei a resposta. Emily: "Pode confirmar. Eu vou.' Porque é claro que aceitei.
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