Capítulo 8

1630 Words
O portão rangeu antes de se abrir por completo. Dante Villar subiu os três degraus da varanda com o mesmo ar de quem entra em uma reunião de negócios — postura ereta, expressão fria e um terno caro que destoava da casa dos Moreti. O sol da tarde refletia no relógio prateado em seu pulso, ofuscando por um instante a mulher que abriu a porta. Elisa segurava uma vassoura numa das mãos, o lenço amarrado no cabelo escondia parte do rosto e a camiseta desbotada denunciava que ela havia estado limpando a casa até poucos minutos antes. Dante ergueu uma sobrancelha. — Boa tarde. — Sua voz soou seca, carregada de autoridade. — Preciso falar com o senhor Moreti. Elisa o reconheceu no mesmo instante. O rosto dele era o mesmo das fotos que vira na internet — o futuro marido que ela não conhecia. O coração disparou, o ar pareceu sumir dos pulmões. Mas ele não a reconheceu. O olhar de Dante percorreu a figura à sua frente com um desdém contido. — E então? Vai chamar o senhor Moreti ou vai ficar me encarando como se nunca tivesse visto um homem de terno? Elisa abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu. O som de sua própria respiração era o único que conseguia ouvir. — Santo Deus... — murmurou uma voz atrás dela. Karen apareceu no corredor, e seus olhos se arregalaram assim que viram o homem parado à porta. Alto, bonito, imponente. Aquele tipo de presença que parecia ocupar todo o espaço. Dante virou o rosto em direção à nova voz e esboçou um sorriso de canto — um sorriso calculado, de quem já sabia o efeito que causava. — Boa tarde. — disse, o tom levemente mais ameno. — Pode me ajudar? Karen sorriu, ajeitando uma mecha de cabelo atrás da orelha. — Depende do que o senhor procura. — respondeu, num tom doce demais. — Sou Karen Moreti. — Villar. Dante Villar. — Ele se inclinou ligeiramente, pegando a mão dela e depositando um beijo formal. — Noivo da Elisa. Elisa sentiu o estômago se contrair. O nome dele, dito por ele mesmo, soou quase irreal. Karen piscou com um sorriso encantado. — Um prazer, senhor Villar. — Por favor, não me chame de senhor. — O olhar dele pousou nos lábios dela. — Você, só você, pode me chamar de Dante. — disse em voz baixa, quase confidencial. — Mas que fique entre nós. Karen riu, nervosa, claramente lisonjeada. Elisa, imóvel, segurava a vassoura com força. Os olhos marejaram antes que conseguisse disfarçar. Dante notou — e voltou a se dirigir a ela com a mesma frieza inicial. — Anda logo, minha filha, eu já disse que quero falar com o senhor Moreti. — o tom era ríspido. — Vai continuar parada aí feito uma estátua? Ela engoliu seco, mas não conseguiu mover um músculo. Antes que dissesse qualquer coisa, passos ecoaram na escada. — Que barulho é esse? — perguntou Carlos Moreti, descendo com expressão curiosa. Ao ver Dante, endireitou o corpo de imediato. — Ora, senhor Villar... que surpresa. Dante se recompôs, abrindo um sorriso protocolar. — Senhor Moreti. — apertou-lhe a mão com firmeza. — Desculpe aparecer sem aviso, houve um imprevisto. — Imprevisto? — Carlos arqueou a sobrancelha. — Pensei que só nos veríamos na sexta, conforme o combinado. — Pois é. — Dante passou a mão no relógio. — Meus pais estão na cidade e exigiram um jantar hoje à noite para conhecer a Elisa. Preciso levá-la comigo. Carlos franziu o cenho. — Hoje? Não estava no acordo. — Eu não costumo discutir acordos, senhor Moreti. — respondeu, seco, mas ainda polido. — É um pedido da minha mãe. E quando se trata dela… bem, digamos que é mais fácil ceder. A tensão pairou por um instante. Foi então que Nanci e Karla surgiram no corredor, atraídas pelas vozes. — Meu Deus… — murmurou Nanci, parada ao lado do marido. — Esse é o senhor Villar? — Sim, senhora. — Dante inclinou levemente a cabeça, sempre cortês. Karla, a mais jovem, o olhou com fascínio genuíno. — Eu pensei que fosse… mais velho. Dante soltou uma risada breve, o olhar brincando entre as duas. — Lisonjeado com o espanto. O silêncio seguinte foi denso, até que ele cruzou os braços e perguntou, com um toque de impaciência: — E então? Onde está a Elisa? Carlos apontou para a garota no canto da sala. — Aqui. Dante seguiu o olhar, e por um segundo, o ar pareceu sair do ambiente. Ela ainda segurava a vassoura, o lenço torto sobre o cabelo, o rosto corado de vergonha. E mesmo assim, havia algo ali — algo delicado, quase incômodo — que o fez hesitar. — Você? — perguntou, incrédulo. Elisa abaixou o olhar, as lágrimas contidas tremendo no canto dos olhos. O silêncio que se formou a seguir foi pesado, quase c***l. E pela primeira vez desde que chegou, Dante Villar — o homem que parecia dominar qualquer sala — ficou sem saber o que dizer. O silêncio durou um segundo — longo, constrangido. Depois, a risada de Dante Villar cortou o ar como um estalo. — Isso só pode ser uma brincadeira de mau gosto. — Ele olhou em volta, esperando que alguém confirmasse. — Me diz que é uma piada, por favor. — Voltou o olhar para Carlos. — Essa criatura aí? É ela? Carlos pigarreou, desconcertado. — Bom... sim. Ela é a Elisa. E, veja bem, senhor Villar... é uma moça bonita, só está... — buscou as palavras com dificuldade — ...mal vestida. Dante riu de novo, um som amargo, debochado. — Bonita? — arqueou uma sobrancelha. — Carlos, o seu óculos é de grau ou de enfeite? — Senhor Villar... — Essa mulher é medonha! — interrompeu, erguendo a voz. — O combinado foi uma filha sua, não a empregada da casa! Elisa deu um passo para trás, o rosto já corado de vergonha. Mas ele se aproximou, decidido, os olhos a percorrendo como se a analisasse. Pegou-lhe as mãos sem pedir permissão. Suas unhas curtas e lascadas contrastavam com os dedos longos e impecáveis dele. — Olhe isso... — murmurou, com um meio sorriso de desprezo. — Horrorosa. Elisa puxou as mãos de volta num impulso. — O senhor não pode falar assim comigo. Eu sou gente também. — Gente, é? — Ele a encarou, os olhos faiscando. — Pode até ser, mas... não parece. O riso seguinte foi quase nervoso. Ele levou as mãos à cabeça, caminhando de um lado a outro. — Isso não vai convencer ninguém. — resmungou, entre dentes. — Nunca que eu me apaixonaria por alguém que parece ter vivido debaixo de uma ponte! A minha mãe vai olhar pra ela e saber na hora que é uma farsa! As lágrimas já escorriam pelo rosto de Elisa. — O senhor está sendo rude demais! — interveio Karla, a voz trêmula. — Rude? — Dante virou-se para ela. — Estou sendo realista. — Ela é bonita, sim. — insistiu Carlos, mais firme. — Elisa, tire esse lenço da cabeça, solte o cabelo e ajeite essa roupa, vai. Ela obedeceu, devagar. O cabelo loiro caiu em ondas desalinhadas pelos ombros. Dante observou com os braços cruzados, e um riso torto lhe escapou. — Melhorou... um por cento. — comentou, sarcástico. — O cabelo parece palha seca, as olheiras dão medo e essa magreza... — fez um gesto vago. — Parece que nem comida tem pra comer. Elisa, entre soluços, ergueu o olhar. — Eu como, sim. — É mesmo? — Ele inclinou a cabeça, com falsa curiosidade. — Então está claro que come pouco. — E, sem aviso, segurou-lhe o queixo e empurrou o polegar contra os lábios dela. — Pelo menos tem todos os dentes? O gesto foi rápido, invasivo. Elisa estalou os olhos, empurrando a mão dele com força e o mordendo. — Ai, p***a! — Dante recuou, o dedo latejando. — Quem o senhor pensa que é pra contar os meus dentes como se eu fosse um cavalo? — gritou, a voz embargada. Por um instante, ninguém se mexeu. A respiração de todos parecia presa. Dante a encarava como se tivesse acabado de ser insultado por um inseto. — O negócio está desfeito. — disse, frio, limpando o dedo no lenço do paletó. — Eu pedi uma filha e recebi uma empregada feia e m*l-educada. — m*l-educado é o senhor! — retrucou Elisa, num rompante. — Entrou na minha casa achando que pode humilhar quem quiser, falando como se fosse dono de tudo! Os olhos dela brilhavam de lágrimas e raiva. — Vai ser um favor desfazer esse acordo, porque eu odiaria ter que dizer que aceito casar com um homem tão arrogante quanto o senhor! Dante prendeu o olhar nela, e por um momento o silêncio pareceu tremer no ar. O que viu ali — aquele lampejo de coragem em meio à miséria — o desconcertou mais do que ele admitiria. Mas não recuou. — Senhor Villar, por favor... — Carlos interveio, tentando apaziguar. — Não vamos tomar decisões precipitadas. — Precipitadas? — Dante riu, irônico. — O senhor devia ter colocado a Karen nesse acordo. Ela, sim, é linda, elegante e bem-educada. Carlos se enrijeceu. — Karen tem dezessete anos. — respondeu firme. — A única filha com idade para casar é a Elisa. O olhar de Dante voltou-se para a moça. Ela ainda tremia, mas o encarava de volta — os olhos marejados, o rosto ferido, o queixo erguido com uma dignidade que ele não esperava. Por um breve instante, Dante Villar — o homem que se achava acima de todos — ficou em silêncio, encarando a mulher que ousara morder o dedo dele e chamá-lo de arrogante.
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