O portão rangeu antes de se abrir por completo.
Dante Villar subiu os três degraus da varanda com o mesmo ar de quem entra em uma reunião de negócios — postura ereta, expressão fria e um terno caro que destoava da casa dos Moreti. O sol da tarde refletia no relógio prateado em seu pulso, ofuscando por um instante a mulher que abriu a porta.
Elisa segurava uma vassoura numa das mãos, o lenço amarrado no cabelo escondia parte do rosto e a camiseta desbotada denunciava que ela havia estado limpando a casa até poucos minutos antes.
Dante ergueu uma sobrancelha.
— Boa tarde. — Sua voz soou seca, carregada de autoridade. — Preciso falar com o senhor Moreti.
Elisa o reconheceu no mesmo instante. O rosto dele era o mesmo das fotos que vira na internet — o futuro marido que ela não conhecia. O coração disparou, o ar pareceu sumir dos pulmões.
Mas ele não a reconheceu.
O olhar de Dante percorreu a figura à sua frente com um desdém contido. — E então? Vai chamar o senhor Moreti ou vai ficar me encarando como se nunca tivesse visto um homem de terno?
Elisa abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu. O som de sua própria respiração era o único que conseguia ouvir.
— Santo Deus... — murmurou uma voz atrás dela.
Karen apareceu no corredor, e seus olhos se arregalaram assim que viram o homem parado à porta. Alto, bonito, imponente. Aquele tipo de presença que parecia ocupar todo o espaço.
Dante virou o rosto em direção à nova voz e esboçou um sorriso de canto — um sorriso calculado, de quem já sabia o efeito que causava.
— Boa tarde. — disse, o tom levemente mais ameno. — Pode me ajudar?
Karen sorriu, ajeitando uma mecha de cabelo atrás da orelha. — Depende do que o senhor procura. — respondeu, num tom doce demais. — Sou Karen Moreti.
— Villar. Dante Villar. — Ele se inclinou ligeiramente, pegando a mão dela e depositando um beijo formal. — Noivo da Elisa.
Elisa sentiu o estômago se contrair. O nome dele, dito por ele mesmo, soou quase irreal.
Karen piscou com um sorriso encantado. — Um prazer, senhor Villar.
— Por favor, não me chame de senhor. — O olhar dele pousou nos lábios dela. — Você, só você, pode me chamar de Dante. — disse em voz baixa, quase confidencial. — Mas que fique entre nós.
Karen riu, nervosa, claramente lisonjeada.
Elisa, imóvel, segurava a vassoura com força. Os olhos marejaram antes que conseguisse disfarçar. Dante notou — e voltou a se dirigir a ela com a mesma frieza inicial.
— Anda logo, minha filha, eu já disse que quero falar com o senhor Moreti. — o tom era ríspido. — Vai continuar parada aí feito uma estátua?
Ela engoliu seco, mas não conseguiu mover um músculo.
Antes que dissesse qualquer coisa, passos ecoaram na escada.
— Que barulho é esse? — perguntou Carlos Moreti, descendo com expressão curiosa. Ao ver Dante, endireitou o corpo de imediato. — Ora, senhor Villar... que surpresa.
Dante se recompôs, abrindo um sorriso protocolar. — Senhor Moreti. — apertou-lhe a mão com firmeza. — Desculpe aparecer sem aviso, houve um imprevisto.
— Imprevisto? — Carlos arqueou a sobrancelha. — Pensei que só nos veríamos na sexta, conforme o combinado.
— Pois é. — Dante passou a mão no relógio. — Meus pais estão na cidade e exigiram um jantar hoje à noite para conhecer a Elisa. Preciso levá-la comigo.
Carlos franziu o cenho. — Hoje? Não estava no acordo.
— Eu não costumo discutir acordos, senhor Moreti. — respondeu, seco, mas ainda polido. — É um pedido da minha mãe. E quando se trata dela… bem, digamos que é mais fácil ceder.
A tensão pairou por um instante. Foi então que Nanci e Karla surgiram no corredor, atraídas pelas vozes.
— Meu Deus… — murmurou Nanci, parada ao lado do marido. — Esse é o senhor Villar?
— Sim, senhora. — Dante inclinou levemente a cabeça, sempre cortês.
Karla, a mais jovem, o olhou com fascínio genuíno. — Eu pensei que fosse… mais velho.
Dante soltou uma risada breve, o olhar brincando entre as duas. — Lisonjeado com o espanto.
O silêncio seguinte foi denso, até que ele cruzou os braços e perguntou, com um toque de impaciência:
— E então? Onde está a Elisa?
Carlos apontou para a garota no canto da sala. — Aqui.
Dante seguiu o olhar, e por um segundo, o ar pareceu sair do ambiente.
Ela ainda segurava a vassoura, o lenço torto sobre o cabelo, o rosto corado de vergonha. E mesmo assim, havia algo ali — algo delicado, quase incômodo — que o fez hesitar.
— Você? — perguntou, incrédulo.
Elisa abaixou o olhar, as lágrimas contidas tremendo no canto dos olhos.
O silêncio que se formou a seguir foi pesado, quase c***l.
E pela primeira vez desde que chegou, Dante Villar — o homem que parecia dominar qualquer sala — ficou sem saber o que dizer.
O silêncio durou um segundo — longo, constrangido.
Depois, a risada de Dante Villar cortou o ar como um estalo.
— Isso só pode ser uma brincadeira de mau gosto. — Ele olhou em volta, esperando que alguém confirmasse. — Me diz que é uma piada, por favor. — Voltou o olhar para Carlos. — Essa criatura aí? É ela?
Carlos pigarreou, desconcertado. — Bom... sim. Ela é a Elisa. E, veja bem, senhor Villar... é uma moça bonita, só está... — buscou as palavras com dificuldade — ...mal vestida.
Dante riu de novo, um som amargo, debochado. — Bonita? — arqueou uma sobrancelha. — Carlos, o seu óculos é de grau ou de enfeite?
— Senhor Villar...
— Essa mulher é medonha! — interrompeu, erguendo a voz. — O combinado foi uma filha sua, não a empregada da casa!
Elisa deu um passo para trás, o rosto já corado de vergonha. Mas ele se aproximou, decidido, os olhos a percorrendo como se a analisasse.
Pegou-lhe as mãos sem pedir permissão. Suas unhas curtas e lascadas contrastavam com os dedos longos e impecáveis dele.
— Olhe isso... — murmurou, com um meio sorriso de desprezo. — Horrorosa.
Elisa puxou as mãos de volta num impulso. — O senhor não pode falar assim comigo. Eu sou gente também.
— Gente, é? — Ele a encarou, os olhos faiscando. — Pode até ser, mas... não parece.
O riso seguinte foi quase nervoso. Ele levou as mãos à cabeça, caminhando de um lado a outro.
— Isso não vai convencer ninguém. — resmungou, entre dentes. — Nunca que eu me apaixonaria por alguém que parece ter vivido debaixo de uma ponte! A minha mãe vai olhar pra ela e saber na hora que é uma farsa!
As lágrimas já escorriam pelo rosto de Elisa.
— O senhor está sendo rude demais! — interveio Karla, a voz trêmula.
— Rude? — Dante virou-se para ela. — Estou sendo realista.
— Ela é bonita, sim. — insistiu Carlos, mais firme. — Elisa, tire esse lenço da cabeça, solte o cabelo e ajeite essa roupa, vai.
Ela obedeceu, devagar. O cabelo loiro caiu em ondas desalinhadas pelos ombros. Dante observou com os braços cruzados, e um riso torto lhe escapou.
— Melhorou... um por cento. — comentou, sarcástico. — O cabelo parece palha seca, as olheiras dão medo e essa magreza... — fez um gesto vago. — Parece que nem comida tem pra comer.
Elisa, entre soluços, ergueu o olhar. — Eu como, sim.
— É mesmo? — Ele inclinou a cabeça, com falsa curiosidade. — Então está claro que come pouco. — E, sem aviso, segurou-lhe o queixo e empurrou o polegar contra os lábios dela. — Pelo menos tem todos os dentes?
O gesto foi rápido, invasivo. Elisa estalou os olhos, empurrando a mão dele com força e o mordendo.
— Ai, p***a! — Dante recuou, o dedo latejando.
— Quem o senhor pensa que é pra contar os meus dentes como se eu fosse um cavalo? — gritou, a voz embargada.
Por um instante, ninguém se mexeu. A respiração de todos parecia presa.
Dante a encarava como se tivesse acabado de ser insultado por um inseto.
— O negócio está desfeito. — disse, frio, limpando o dedo no lenço do paletó. — Eu pedi uma filha e recebi uma empregada feia e m*l-educada.
— m*l-educado é o senhor! — retrucou Elisa, num rompante. — Entrou na minha casa achando que pode humilhar quem quiser, falando como se fosse dono de tudo!
Os olhos dela brilhavam de lágrimas e raiva.
— Vai ser um favor desfazer esse acordo, porque eu odiaria ter que dizer que aceito casar com um homem tão arrogante quanto o senhor!
Dante prendeu o olhar nela, e por um momento o silêncio pareceu tremer no ar.
O que viu ali — aquele lampejo de coragem em meio à miséria — o desconcertou mais do que ele admitiria.
Mas não recuou.
— Senhor Villar, por favor... — Carlos interveio, tentando apaziguar. — Não vamos tomar decisões precipitadas.
— Precipitadas? — Dante riu, irônico. — O senhor devia ter colocado a Karen nesse acordo. Ela, sim, é linda, elegante e bem-educada.
Carlos se enrijeceu. — Karen tem dezessete anos. — respondeu firme. — A única filha com idade para casar é a Elisa.
O olhar de Dante voltou-se para a moça.
Ela ainda tremia, mas o encarava de volta — os olhos marejados, o rosto ferido, o queixo erguido com uma dignidade que ele não esperava.
Por um breve instante, Dante Villar — o homem que se achava acima de todos — ficou em silêncio, encarando a mulher que ousara morder o dedo dele e chamá-lo de arrogante.