Surpresa

1674 Words
Tahira agachou na frente da mesa até que os seus olhos estivessem no mesmo nível do enfeite estranho que imitava um besouro muito colorido, moveu o objeto milimetricamente — como um general arquitetando uma guerra. Levantou a cabeça para fitar o painel, que tinha um “PARABÉNS” cheio de glitter e pequenas borboletas aqui e ali. Satisfeita com o resultado final, assentiu lentamente. Uma bufada impaciente às suas costas fez com que a loira desviasse a atenção do que estava fazendo para encarar Kaleb. — Se voltar a me apressar mais uma vez, juro por Deus que vou socar a sua cara. — Ele já me mandou mensagem dizendo que está saindo do estúdio, pode chegar a qualquer momento. — respondeu Kaleb, inquieto. — Não me interessa! — Tahira rosnou. — Eu disse que tudo estaria pronto a tempo, então tudo vai ficar pronto a tempo. — Não se preocupe, Kaleb. — Interveio Nathaniel, na tentativa de acalmar o rapaz. — Se Daniel saiu do estúdio agora, ainda temos, no mínimo, uma hora. — Ele está de moto. — Então 30 minutos. — Nathan retrucou — Por que não vai ajudar o Nicholas e o Samuel com as bebidas na cozinha? — Certo! — com a concordância a contragosto, saiu da sala. Tahira começou a encher uma bola para colar na extremidade da mesa. A coisa era estilizada com uma foto cômica de Kaleb vestindo uma fantasia de borboleta, com direito a um arco de antenas felpudas e bolinhas prateadas presas nas pontas. — Deveria pegar mais leve com ele, é a primeira festa surpresa que faz para o namorado. — Completamente impassível e perfeccionista, Nathaniel continuou espalhando glacê pelo bolo. — Só está nervoso. Todos tinham se envolvido numa verdadeira força tarefa para realizar aquele evento, quando Kaleb veio com a triste história de que o seu namorado introvertido nunca havia recebido uma festa de aniversário na vida. Com lágrimas fingidas, o moreno explicou o seu plano para realizar o sonho, então — mesmo sem querer admitir em voz alta — Tahira deixou-se afetar. No fim, acabou ficando responsável por cuidar da decoração, o que foi bem incomum, visto que Daniel era obcecado por insetos. Convenceu Nathaniel a preparar o bolo, ele era muito melhor com confeitaria que ela, e Helena se juntou a dupla para fazer os doces. Caio ficou com os salgados, Iara o entretenimento, e o resto dos rapazes, que se resumia a Nicholas, Samuel, Kalu e o próprio Kaleb, deram um jeito nas bebidas e convidados. Rapidamente o apartamento compartilhado ganhou espaço com os móveis sendo afastados para os cantos, a mesa da cozinha foi transferida para o centro da sala e enfeitada com esmero. A música era animada e tudo estava perfeito, porém, de tempos em tempos, Kaleb vinha para “conferir” o seu trabalho com aquela imperatividade tão característica dele — que tinha o poder de irritá-la. Parte de si agradecia por aquela distração, pois desviava a sua mente de pensamentos embaraçosos com um certo colega de quarto preguiçoso — que desde que trocaram um beijo muito quente, agia como se nada tivesse acontecido. Veja bem, já tinham passado por algo parecido antes, mas diferente do flagra — onde ambos só se ignoram mutuamente — dessa vez ele só parecia não se importar. Claro que não preferia uma conversa sentimental ou constrangedora, no entanto, o ar de normalidade que Kalu deu para toda essa situação beirava a indiferença, e era assustador pensar na possibilidade de que aquele beijo — que simplesmente virou o seu mundo de cabeça para baixo — não surtiu o mesmo efeito sobre ele. Isso deixava-lhe decepcionada — e triste. — Não sei o que está acontecendo entre você e Kalu. — Ao dizer isso Nathaniel não a encarou, apenas continuou dando os últimos toques na cobertura. — Também não é da minha conta, mas te considero uma amiga e acho que deveria saber. Dizer que Nathan fazia a linha reservado era um completo eufemismo. Tahira interagia mais com ele que com qualquer outra pessoa da casa e o outro nunca lhe tinha feito uma pergunta pessoal, ou sido invasivo de qualquer forma. Então, quando os olhos cinza fitaram os seus com tamanha preocupação, a loira sentiu um arrepio r**m descer por sua espinha. — Hoje de manhã peguei uma discussão entre Kalu e Iara. — Ele começou. — Aparentemente, ela discorda da decisão dele de trazer uma amiga para a festa. — Seu tom era quase gentil, o que só piorava todo o relato. — Pelo que entendi, Kalu não está levando as coisas muito a sério, mas já é o terceiro encontro e segundo Iara, apresentar uma garota aos amigos é praticamente um pedido de namoro. Tahira não sabia o que falar, ou se mesmo deveria dizer algo. Conforme a sua mente ia compreendendo as implicações do que Nathan dizia, uma mão invisível de fechou dolorosamente em volta do seu coração. Era uma dor física, que roubou a sua respiração por alguns instantes. — Não tenho certeza se ele vai de fato trazê-la, — sustentou o seu olhar por uma eternidade, ou apenas segundos. — Mas se isso acontecer, é melhor que esteja preparada. Ela abriu a boca para responder que ele não precisava se preocupar, afinal, não tinha nada com Kaluanã, mas voltou a fechá-la quando sentiu um bolo na garganta. Assim apenas assentiu levemente. Junto com a dor no peito, perguntas começaram a fervilhar no seu íntimo: será que Kalu já estava saindo com ela quando rolou o beijo? Iria contar se estivesse? Estava apaixonado pela garota, ou realmente era passageiro? O beijo tinha sido algo tão insignificante assim para ele? Ela tinha sido algo tão insignificante assim para ele? Quando sentiu a ardência das lágrimas, disse a Nathaniel — com uma voz um tanto embargada — que precisava se arrumar e partiu para o quarto. O r**m de morar numa casa com tanta gente, é que não sobrava muito espaço para privacidade em momentos como aquele. Apesar de Kaluanã não estar em casa — tinha saído fazia algumas horas para fazer sabe-se lá o quê — não podia trancar a porta do quarto sem dar a entender que havia algo de errado, por isso, pegou a toalha e enfiou-se dentro do banheiro. A água do chuveiro estava tão quente que não soube diferenciá-la das lágrimas que desciam por seu rosto. Fez o possível para não deixar as lamúrias escaparem — precisava manter tudo em silêncio — entretanto, doía tanto que um ou outro gemido acabou por escapar. Tentou se controlar, encostou as mãos na parede para impedir que tremessem. — Deixa de ser i****a, Tahira! — repreendeu-se, em meio a sussurros. Já tinha passado por coisa bem pior sem se desmanchar como uma fracote chorona, não seria um cafajeste qualquer que iria arrancar aquilo dela. Nem mesmo existia um motivo válido para aquele escândalo todo. Pelo amor de Deus, haviam compartilhado um beijo. O melhor beijo da sua vida. Uma voz sórdida murmurou na sua cabeça. Kalu poderia ter tido a decência de contar-lhe — o ressentimento salientou — eram colegas de quarto e o mínimo que aquele desgraçado lhe devia era consideração. Fez uma retrospectiva dos últimos dias, tentando lembrar de qualquer pequeno sinal que tivesse ignorado, entretanto, não encontrou absolutamente nada. Na noite que haviam se beijado, ela voltou para casa — porque já estava nos seus planos, não por querer fugir — e dormiu cedo, mas no dia seguinte, Kalu agiu dentro do usual. Inclusive, tomaram café da manhã juntos como costumavam fazer e racharam uma pizza de noite com os garotos — assistindo a filme de terror que fez Nicholas gritar como uma criancinha assustada. Era verdade que, de início, Kaluanã ficou um pouco distante — e pensativo — só que a própria Tahira teve dificuldades para lidar com as reações que o desafio havia lhe provocado, então não tinha como julgá-lo por isso. No decorrer da semana foi a mesma coisa; ele até mesmo voltou a implicar com os seus produtos de cabelo no box, e brigaram sobre a relevância de trocarem de armário por um maior — onde ela pudesse guardar as roupas que ainda estavam na mala debaixo da cama. E pelo maldito inferno, ele teve inúmeras aberturas para tocar no assunto. Tahira estranhou que tivesse chegando tarde alguns dias da semana, mas o sonso soltou apenas um “complicado” e sem ter motivos, a loira associou isso a semana de provas que estava por vir. Agora sabia a razão, e não se sentia apenas traída — omissão era o mesmo que mentira — como furiosa, pois Kalu a fez de otária. Demorou algumas respirações profundas para se acalmar, concentrando-se na ação para ignorar a confusão interior, lavou o cabelo e fez todo o seu ritual metodicamente. Usou uma maquiagem mais elaborada, e ao sair do banheiro, escolheu uma roupa especialmente bonita para vestir: um cropped escuro, uma blusa tule de manga, que terminava no cós de uma saia pregueada azul. Desistiu de usar meia arrastão no último instante, optando por completar o look com um cinto meramente decorativo. Sentou na cama para amarrar o cadarço do all star branco de cano longo, sorrindo ao reparar na forma como a barra da saia subia. Tudo que queria era se sentir bonita — e poderosa — precisava ter o mínimo de controle sobre algo. Saiu do quarto a tempo de ver Kaleb gritando para que apagassem as luzes e desligassem o som. Como pedido, o silêncio e escuridão tomaram conta do ambiente. Tahira se inclinou contra o sofá, preparando-se para o momento. A porta foi aberta e um estrondoso “Parabéns” foi ouvido, porém, assim que as luzes foram acessas, uma onda de vaias e palavrões vieram. Não era Daniel quem estava na porta, mas sim Kalu. E ao seu lado — segurando a sua mão — estava uma mulher pequena, com longos cabelos escuros, óculos de aro grossos e um sorriso gentil. Tahira sentiu todo o impacto.
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