Convidar Sheyla para o aniversário fora uma decisão complicada, Kalu constatou assim que as luzes foram acessas e todo mundo gritou.
Havia planejado uma entrada mais discreta, uma apresentação meia boca aqui e ali, mas o que aconteceu foi praticamente um holofote em toda a situação. Claro, a maioria das pessoas presentes conheciam a sua acompanhante, afinal, ela também era professora e, vez ou outra, tinha dado aula a eles — pelo menos os que faziam cursos voltados para a área de humanas. Mas estava preocupado com a reação de uma pessoa em especial, por isso pretendia fazer uma abordagem um tanto cuidadosa.
Sheyla apertou a sua mão carinhosamente, Kalu podia sentir o seu corpo vibrando de empolgação — o que fez com que uma onda de culpa o dominasse. Não compartilhava da animação, a tinha chamado para sair por motivos egoístas que nada tinham a ver com atração, ou interesse.
Depois que beijou Tahira entrou em uma espiral de arrependimento e ansiedade, compreendeu o erro no momento que o desafio partiu de Iara, mas foi dominado por uma vontade tão grande de ter aquela experiência — transformar em fato tudo aquilo que a sua mente usava para atormentá-lo — que simplesmente ignorou todos os avisos de perigo.
E a realidade foi muito melhor do que qualquer coisa que a sua imaginação pudesse invocar.
A convivência diária só fez a coisa aumentar até o ponto de ruptura, a cada dia que passava se pegava não só pensando nela — relembrando o seu gosto, cheiro, a sensação do seu toque, a sua reivindicação em forma de beijo — como arrumava desculpas bobas para se aproximar da loira — e em algumas circunstâncias constrangedoras, até mesmo tocá-la.
Por outro lado — não menos preocupante — algo nela também havia mudado. Tahira ainda era irritantemente teimosa e briguenta, mas agora existia uma gentileza em certos gestos que não estavam lá antes. Passavam cada vez mais tempo juntos e aquilo não tinha como terminar bem, pois de três uma:
Kalu continuava agindo da mesma forma até que as coisas entre os dois evoluíssem para um possível romance — parte dele não era tão contrário à ideia quanto deveria. O que seria desastroso, já que como tinham personalidades muito diferentes, uma vez que a paixão passasse, o relacionamento não teria muito mais para se sustentar. Morando na mesma casa e dividindo o mesmo círculo de amigos, a situação alcançaria o ápice do desconforto.
Opção um, fora de cogitação.
A segunda alternativa era igualmente desagradável, visto que começava com ele cedendo a seus impulsos, para depois relevar cada vez mais o que não gostava na tentativa de fazer com que aquilo funcionasse. Tahira era naturalmente dominante, e dificilmente iria abrir mão do controle para ele. No fim, Kaluanã terminaria como o pai, sem voz ativa e submisso a uma mulher mandona.
Não, muito obrigado!
Foi então que resolveu colocar os seus neurônios para funcionar e criou um plano de contingência chamado “Professora Sheyla” — conhecida como a sua terceira e última saída.
Cortaria o m*l pela raiz.
Por mais complicado que fosse, manteria tudo na mais absoluta amizade com Tahira. Centrando a sua carência e libido em Sheyla, já que a mulher deixara claro várias vezes que nutria algum tipo de interesse nele. A personalidade dela era outro ponto positivo, pois diferente da sua colega de quarto, a professora era dócil, com um espírito suave — facilmente impressionável. Uma vez que as coisas não dessem certo, ele só seguiria em frente sem maiores consequências, ou se o oposto ocorresse, bem, uma mulher tranquila se enquadrava perfeitamente nas suas expectativas de uma vida descomplicada.
— Não fiquem parados na porta como dois idiotas! — um Kaleb irritado ordenou. — Vão acabar estragando tudo, Daniel já está chegando. — Impaciente, acabou por se aproximar do casal, os empurrando para o canto da sala de uma forma nada sutil.
Kalu não se ofendeu com as palavras, havia acompanhado cada detalhe do planejamento da festa e entendia a pilha de nervos que o outro havia se transformado ao decorrer dos preparativos. O pensamento fez com que os seus olhos viajassem pela sala, procurando pela pessoa que mais se empenhou para realizar tudo aquilo.
Tahira não estava só bonita, mas espetacular. A postura de braços cruzados, e cara de poucos amigos, não fizeram nada para diminuir a beleza da face bem maquiada — havia colocado um batom vermelho, feito algo com os olhos para deixá-los maiores e expressivos. A roupa também era um show à parte, o que provocou em Kaluanã um estremecimento em resposta.
Ele desviou o olhar.
As luzes voltaram a se apagar e Sheyla sussurrou no seu ouvido:
— Nunca estive numa festa surpresa, então obrigada pelo convite. — Sorriu. — Adorei a decoração.
Kalu abriu a boca para informar o nome de quem tinha sido a responsável pelo trabalho, mas foi silenciado por Nathaniel que apontou para a porta.
Instantes depois a maçaneta girou e um Daniel completamente inocente entrou. Ele parou e olhou em volta, desconfiado com a incomum escuridão — uma casa com tantas pessoas dificilmente ficava tão silenciosa — entretanto, antes que pudesse fazer qualquer outra coisa a luz foi acesa e um empolgado “Parabéns para você” tomou conta do ambiente.
Kalu sorriu — feliz por participar daquela empreitada — ao ver as emoções passando pelo rosto do outro: surpresa, descrença, compreensão e por fim, completo deleite.
Kaleb e Nicholas foram pulando na sua direção, cantando com cada vez mais animação, Iara foi logo atrás, tirando fotos de tudo. O repertório não acabava nunca, entoaram todas as músicas de parabéns que conheciam, emendando em outras que não tinham absolutamente nada a ver, com palmas e gritos.
Em determinado momento, Iara puxou um “discurso, discurso, discurso” que foi compartilhado pelo resto dos convidados. Para a alegria dos presentes, Daniel — com a voz embargada — agradeceu a todos os envolvidos por sua primeira festa de aniversário.
Kaluanã partiu para a cozinha a procura de uma bebida, quando Kaleb agarrou o namorado para trocar um beijo lascivo demais para ser dado em público.
— Aceita uma cerveja? — perguntou para Sheyla, andando até a geladeira.
— Oh, não! — a professora ruborizou. — Não consumo bebida alcoólica, mas aceito um refrigerante.
— Certo. — Pegou uma cerveja para si, e uma Coca-Cola para ela.
Ambos sentaram nas cadeiras altas da bancada, logo Helena entrou pela porta.
— Olá, professora! — cumprimentou, amigável.
— Fora do ambiente acadêmico, pode me chamar só de Sheyla.
— Sim. — Encorajada pela amabilidade, Helena sentou-se próximo ao casal. — Participei da sua palestra sobre a herança de sangue que algumas profissões como açougueiros e coveiros, passaram para suas futuras linhagens. — recordou. — Como a perpetuação da tradição de marginalizar essas pessoas contribuíram para a criação de grupos criminosos ao decorrer da história. — como uma boa aluna de literatura, aproveitou a oportunidade de ter a atenção da professora só para si. — Pretendo usar um derivado desse tema para o meu projeto final, tendo como objeto a Gokudō.
— Que interessante! — Sheyla ajeitou os óculos em um gesto que Kalu passou a associar a um ritual de preparação, antes de se envolver com um novo livro, manuscrito ou pesquisa. — Qual período?
— Da Segunda Grande Guerra, até a modernidade.
— Fantástico! — a professora respondeu com fascínio.
Desviando a sua atenção da conversa entusiasmada das duas, Kaluanã voltou a prender o olhar na pessoa que deveria estar ignorando. Tahira conversava com Daniel no extremo oposto da sala.
— Já volto. — disse para as meninas, mas ambas se encontravam tão enredadas no papo que nem prestaram atenção nele.
Conformado, Kalu levantou-se, indo em direção ao aniversariante e a Tahira.
— E aí! — cumprimentou.
— Obrigado, por ajudar com a festa. — Daniel agradeceu, ainda visivelmente abalado pela surpresa. — Não consigo acreditar que deixei passar tudo isso. — Olhou em volta com uma expressão encantada. — Kaleb não é exatamente bom em guardar segredos.
— Foi complicado. — Deu de ombros. — Mas o maior esforço foi da Tahira.
No lugar de fitá-lo com superioridade, ou alguma resposta convencida, a loira apenas enrijeceu o corpo com a menção do seu nome.
— Sim, adorei a decoração. — Daniel deu um dos seus raros sorrisos.
— Preciso de outra bebida. — Tahira disse abruptamente.
— Mas seu copo está cheio. — O aniversariante estranhou.
— Está quente. — Com essas palavras, afastou-se da dupla.
Esse foi um padrão que se repetiu por metade da noite, toda vez que chegava perto de Tahira, ou de um grupo ao qual ela fizesse parte, a mulher dava uma desculpa para ir a outro lugar, pior, simplesmente se distanciava sem mais explicações. Nem mesmo haviam trocado uma palavra — ou olhar.
Era óbvio o seu desconforto em ficar na companhia dele.
O Kalu sensato — e inteligente — respeitaria a mensagem que claramente ela estava enviando, aceitando de bom grado ser evitado. Entretanto, algo naquela postura o incomodava, não sabia explicar exatamente o quê, mas odiou.
Na sua última tentativa, viu Tahira entrando no quarto de Nathaniel — provavelmente, em busca de tomar um ar fresco na varanda do mesmo — e se preparou para segui-la, porém, antes que pudesse alcançar o seu destino, Iara o segurou pela mão, arrastando-o até o quarto dele.
— O que pensa que está fazendo? — perguntou assim que fechou a porta atrás de si.
Diferente do encontro que tiveram mais cedo, ela não parecia furiosa, só irritada — o que já era um avança, a Iara furiosa era um verdadeiro pé no saco.
— Nada! — respondeu de pronto.
— Não banque o sonso comigo, Kalu.
— Por que faria isso?
— Você fez questão de queimar todas as pontes quando escolheu a Sheyla. — Apontou o dedo acusadoramente na sua direção. — Então deixe a Tahira em paz.
— Do que está falando?
— Do que está falando? — ela imitou, usando o tom mais abobalhado que conseguiu. — Pare de agir como um cachorrinho, cercando a menina onde quer que ela vá.
— Não estou fazendo isso.
Ela não respondeu, apenas cruzou os braços e o encarou.
— É complicado.
— Negativo, é muito fácil. — Se aproximou dele perigosamente, como uma cobra peçonhenta pronta para dar o bote. — Ela te beijou, você gostou e entrou em pânico logo depois.
Em certas ocasiões era f**a conhecer alguém a tanto tempo como Iara o conhecia.
— Não vou me envolver com alguém tão problemática.
— Okay, é uma decisão burra, porque ela é uma mulher incrível. — Sibilou. — Mas você é um cara grandinho, não vou mais me intrometer nesse role.
— Obrigada.
— Mas também não vou permitir que continue agindo como um babaca. — Continuou ignorando o sarcasmo dele. — Tenha responsabilidade afetiva. Se não vai ficar com a garota, pare de ficar dando a entender que tem algum tipo de interesse, quando a sua namorada está bem ali no outro cômodo.
— Sheyla não é minha namorada.
— Ela sabe disso? — Iara destilou o veneno. — Porque se não for o caso, é outra menina que está enganando por ser um p**a covarde.
Kalu abriu a boca para rebater, no entanto, nada disse.
Iara tinha razão. Não estava levando as coisas a sério com a professora, mas suspeitava de que ela estivesse. No fim, um encontro com os amigos — mesmo que sendo o terceiro — poderia ter significados diferentes para algumas pessoas, e a forma como Sheyla agiu no decorrer da noite só reforçou isso.
— Se tomou uma decisão, sustente! — com essas palavras, Iara deixou o quarto.