A luz suave da manhã invadia o quarto pelas frestas da cortina quando acordei. O lado da cama estava frio.
Ellie já não estava ali.
Me espreguicei devagar, sentindo no corpo o resquício daquela noite intensa, marcada não apenas pelo prazer, mas pela conexão rara que poucos homens experimentam na vida. O silêncio era quebrado apenas pelo som da brisa.
Então a vi.
Ellie estava na sacada do nosso quarto, de costas para mim. Usava apenas um sutiã rendado e um short curto demais para ser inocente. O vento brincava com seus cabelos enquanto ela observava o horizonte, como se estivesse tentando organizar pensamentos que insistiam em não se alinhar.
Me aproximei sem fazer ruído. Abracei-a por trás, firme, possessivo, e beijei seu ombro nu com calma. Não havia pressa. Ela relaxou no mesmo instante, reconhecendo meu toque.
— Bom dia, minha mulher linda…
Ela sorriu, ainda sem desviar o olhar do céu, e pousou as mãos sobre meus braços, como se aquele gesto fosse natural… como se sempre tivesse sido assim.
— Bom dia, meu amor… — respondeu baixo, quase íntimo demais para o mundo lá fora.
Aproximei os lábios de sua orelha.
— Vamos sair hoje?
Ela riu suavemente, mas havia tensão por trás do sorriso.
— Sair? — perguntou. — Você sabe que eu não posso. Pra todo mundo… eu tô morta.
Soltei uma risada contida e encostei o queixo em seu ombro.
— Eu sei. Mas pensei em algo diferente. Um restaurante fechado, reservado só pra nós. Segurança total. Boa comida, música baixa… e eu te mimando como você merece.
Ela finalmente se virou, os olhos brilhando com aquela mistura perigosa de curiosidade e ousadia.
— E se alguém nos reconhecer?
— A gente resolve. — Minha voz saiu tranquila demais. — Estamos perto de fechar todas as pontas. No máximo, dizemos que você ficou desacordada por um tempo. Que te encontrei. Que estava escondida, em tratamento.
Ela mordeu o lábio, pensativa, antes de sorrir com malícia.
— Pode dizer que eu perdi a memória. Ajuda a história.
Ri, genuíno, e a puxei para mim, colando nossos corpos.
— É por isso que eu te amo. Inteligente demais pra esse mundo.
— Inteligente e invisível — respondeu, rindo, antes de me beijar devagar.
Naquele beijo não havia só desejo. Havia um pacto silencioso. Uma promessa sem palavras. Um acordo entre duas almas que sabiam que não existia mais volta.
— Então é um encontro oficial? — ela sussurrou, com a testa encostada na minha.
— Oficial. — respondi. — Daqueles que a gente vai contar pros nossos filhos.
Ela se derreteu no meu abraço.
— Então eu vou caprichar. Vou fazer você se apaixonar por mim de novo.
Beijei sua testa.
— Amor… eu nunca deixei.
Beijei-a ali mesmo, com o sol aquecendo nossas costas e o vento nos envolvendo. Naquele momento, o passado não importava. Nem os riscos. Só existia ela, eu… e a certeza de que estava exatamente onde devia estar.
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Mais tarde, o som dos saltos ecoou pelo mármore da escada principal.
Ergui os olhos no exato momento em que ela surgiu.
Ellie descia como se a mansão inteira fosse um palco criado para ela. O vestido preto de cetim se moldava ao corpo com precisão cirúrgica. As alças — correntes douradas finíssimas — repousavam sobre os ombros com falsa delicadeza. As costas nuas eram uma provocação silenciosa. O salto prateado cintilava a cada passo. Os cabelos ruivos, soltos, pareciam uma chama viva. E o batom vermelho nos lábios… era um aviso.
Eu estava de terno azul-marinho, alinhado, postura firme, rosto impassível. Mas meus olhos a traíram.
— Nossa… — murmurei. — Que mulher.
Ela parou a dois degraus de mim.
— Você também está impecável, senhor elegante — respondeu, antes de fechar a distância e me beijar.
O beijo foi intenso, controlado. Desejo contido. Respeito misturado à fome.
Passei o braço por sua cintura e a conduzi escada abaixo como um cavalheiro antigo — não por tradição, mas por posse. Caminhamos de braços dados até o carro à frente da mansão. O motorista abriu a porta com discrição. Um segundo veículo, de vidros escuros, aguardava logo atrás.
No banco traseiro, ela se inclinou e sussurrou em meu ouvido:
— Por que um carro de segurança?
Sorri de canto, sem virar o rosto.
— Precaução.
Ela arqueou a sobrancelha.
— Sei…
O motorista nos observou pelo retrovisor. Sustentei o olhar por um segundo. Ele entendeu. Sempre entendem.
A verdade era simples… e perigosa demais para ser dita em voz alta.
Eu não era apenas um empresário poderoso.
Eu era parte de uma engrenagem antiga, internacional, feita de sangue, tráfico, acordos silenciosos e lealdades compradas. Um mundo onde não existia perdão — apenas controle.
Era esse passado que me tornava frio. Calculista. Letal.
Mas também era esse passado que me tornava capaz de protegê-la de qualquer coisa.
A única certeza que eu carregava, em meio a todas as sombras, era absoluta:
Eu poderia matar qualquer um por ela.
Mas nunca — nunca — machucaria Ellie.
Ela era minha luz. Meu ponto de equilíbrio. A única razão pela qual eu ainda queria viver… e mudar.