Todos passam por um túnel de escuridão na vida, um longo túnel que faz você pensar que nunca mais verá a luz, mas não há túneis sem saída, não há amor eterno nem dor eterna no mundo.
Conhecer você aquele dia, me fez pensar que talvez você seja a minha saída do túnel longo que entrei, Jean Davis. Foi enviado pelas divindades, é o seu dever ficar ao meu lado até que eu morra, mas já faz dois dias desde que vi o seu rosto pela primeira vez.
- Camille? Está me ouvindo? - Andrea questiona em frente ao balcão com um cappuccino feito em suas mãos.
- Sim? - respondo a mesma saindo do devaneio.
- Estou te oferecendo um cappuccino, o movimento da biblioteca estar fraco hoje. - ela sorri me entregando o copo. - Está tudo bem?
- Sim, está tudo ótimo! - sorrio tomando um gole do seu café. - Hum! Que delícia. - levanto o polegar sorrindo e ela volta para o seu lugar.
- Vou querer o livro ''Ser e tempo''. - Jean bate na campainha do balcão de madeira com o livro em mãos. - Vou levar por três dias. - ele sorri largo.
- Onde esteve? Não peguei o seu número de telefone aquele dia, pensei que fosse tudo um sonho...
- As dores pararam? - ele trinca o maxilar abrindo o livro de capa dura sob uma das mesas de leitura.
- Ei! Não fale alto, Andrea não sabe da minha doença. - digo me sentando de frente para o mesmo que permanecia com a sua atenção ao livro.
- Sabia que para o autor Heidegger, o tempo é a instância com base em que compreendemos as coisas e a nós mesmos. - ele diz atencioso.
- Compreender a nós mesmos?
- Já contou para sua família que o seu tempo está acabando? - ele retira os seus olhos castanhos do livro e me encara com um sorriso de lado, está debochando da minha cara, medíocre!
- Não pretendo contar isso, não por agora. - digo cabisbaixa.
- Nunca imaginei que a alma 5000 fosse uma covarde, estou desapontado com Alicia. - ele respira fundo e encara o seu livro novamente.
- Alicia é uma divindade? E eu não sou covarde! - levanto o meu indicador e aproximo do rosto do mesmo.
- Não aponte esse dedo pra mim, não sou seu animal de estimação que lhe deve explicações. - Jean revira os olhos e se levanta recolhendo o livro da mesa.
- Espere! Eu preciso anotar o nome do livro, endereço e o seu telefone. - digo com o bloco de anotações na mão.
- E se eu der o número de celular ou endereço errado? - ele arqueia uma das suas sobrancelhas grossas com o sorriso intimidador.
- Bom, confiamos nos nossos clientes, então...- sorrio com a caneta em mãos.
- A minha casa é um lugar místico pode ser acessada de qualquer lugar, coloque o seu e o seu número de telefone, au revoar! - ele pisca e sai andando.
- Jean, espere! - saio correndo atrás dele pelo grande corredor da biblioteca, porém perco o controle e quando ele se vira eu bato a minha testa no seu peitoral definido novamente.
- Fique um pouco longe. - ele segura o meu pulso e me afasta do seu corpo. - Ter humanos perto de mim, é nojento. - ele sorri de lado. - Por quê me chamou?
- Quando vou te ver novamente? Poderia ao menos passar o seu número! - digo com a cara fechada.
- Você queria não sentir dores, eu te dei isso.
- Mas se foi designado a ficar ao meu lado, não deveria fazer isso?
- Sou um ceifador, não a sua babá. - ele responde sem ao menos pensar, essa doeu. - Você não quer morrer agora, então voltarei para devolver o livro e depois só daqui há dois meses nos reencontraremos novamente. - ele vira-se abrindo a porta.
- Eu quero viver! - digo fazendo os seus olhos notarem os meus.
- Não é a primeira alma que diz isso.
- Eu tenho uma irmã que precisa de mim, por favor...me ajude. - se aproximo tocando a mão grossa do mesmo.
- Eu tomo a vida das pessoas, essa é a única função designada.
- Você cortou as minhas dores de cabeça... Tenho certeza que consegue fazer isso.
- Se eu fizer tal coisa, serei castigado pelas divindades.
- Então… o meu ceifador é só mais um egoísta que existe no mundo. - me afasto limpando os meus olhos marejados.
- Aí que se engana. - ele sorri mostrando seus dentes brancos. - Eu sou apenas um fantasma, perambulando por aí. - Jean abre a porta e sai sem olhar para trás.
- Como ele consegue ser frio desta maneira? - pergunto a voltar para o balcão.
- Seu namorado? - Andrea questiona com um sorriso. - Parece que brigaram, você está quase chorando.
- Não, ele é só um conhecido da Espanha, fiquei emocionada em vê-lo, só isso...- sorrio de leve.
- Ah! Bem, já são 6:00 PM o movimento tá fraco, vamos fechar por hoje, pode ir eu cuido de tudo. - ela pisca sorrindo.
- Andrea, não vá receber mais um homem estranho aqui novamente! - digo preocupada. - Na última vez...
- Eu sei! Não precisa me lembrar… esse não é um desconhecido, ele é gentil e educado.
- Certo. - pego a minha bolsa e o meu celular. - Se cuide, até amanhã! - sorrio e saio correndo.
Andrea está solteira há mais de dois anos, desde então, ela vive conhecendo homens franceses, acredita que encontrará a sua alma gêmea. O último homem era um cretino, ela ficou de fechar a loja e foi assaltada por ele, o pai de Camille quase a demitiu, precisamos insistir muito para ele repensar.
Distraída, segurava a minha bolsa vermelha que tocava levemente o meu vestido branco de saia rodada com um cinto prata firme em minha cintura fina, estava atravessando a ponte dos cadeados, até ser surpreendida por Jean, ele não estava de preto e sim com uma camisa vermelho vinho de manga longa e sua calça social azul escura, ele segurava o seu guarda-chuva vermelho enquanto a sua franja se bagunçava com o vento forte.
- Você. - encaro o mesmo que se aproxima com o maxilar trincado e os seus olhos fixados aos meus.
- Vai chover em breve e você esqueceu o guarda-chuva novamente. - ele estende o braço me entregando o dele. - Daqui há três dias, na devolução do livro, vou querer ele de volta. - Jean se vira e sai andando.
- Espere! - digo rapidamente.
- Camille eu não posso te curar de um tumor, não é fácil.
- Não é isso. - sorrio de leve balançando as minhas mãos sinalizando um ''não''.
- Então, o que é?
- Vamos morar juntos! - sorrio e de repente a chuva forte cai enquanto o mesmo com a franja molhada encarava o meu rosto espantado.