Morar juntos?

1181 Words
Todos passam por um túnel de escuridão na vida, um longo túnel que faz você pensar que nunca mais verá a luz, mas não há túneis sem saída, não há amor eterno nem dor eterna no mundo. Conhecer você aquele dia, me fez pensar que talvez você seja a minha saída do túnel longo que entrei, Jean Davis. Foi enviado pelas divindades, é o seu dever ficar ao meu lado até que eu morra, mas já faz dois dias desde que vi o seu rosto pela primeira vez. - Camille? Está me ouvindo? - Andrea questiona em frente ao balcão com um cappuccino feito em suas mãos. - Sim? - respondo a mesma saindo do devaneio. - Estou te oferecendo um cappuccino, o movimento da biblioteca estar fraco hoje. - ela sorri me entregando o copo. - Está tudo bem? - Sim, está tudo ótimo! - sorrio tomando um gole do seu café. - Hum! Que delícia. - levanto o polegar sorrindo e ela volta para o seu lugar. - Vou querer o livro ''Ser e tempo''. - Jean bate na campainha do balcão de madeira com o livro em mãos. - Vou levar por três dias. - ele sorri largo. - Onde esteve? Não peguei o seu número de telefone aquele dia, pensei que fosse tudo um sonho... - As dores pararam? - ele trinca o maxilar abrindo o livro de capa dura sob uma das mesas de leitura. - Ei! Não fale alto, Andrea não sabe da minha doença. - digo me sentando de frente para o mesmo que permanecia com a sua atenção ao livro. - Sabia que para o autor Heidegger, o tempo é a instância com base em que compreendemos as coisas e a nós mesmos. - ele diz atencioso. - Compreender a nós mesmos? - Já contou para sua família que o seu tempo está acabando? - ele retira os seus olhos castanhos do livro e me encara com um sorriso de lado, está debochando da minha cara, medíocre! - Não pretendo contar isso, não por agora. - digo cabisbaixa. - Nunca imaginei que a alma 5000 fosse uma covarde, estou desapontado com Alicia. - ele respira fundo e encara o seu livro novamente. - Alicia é uma divindade? E eu não sou covarde! - levanto o meu indicador e aproximo do rosto do mesmo. - Não aponte esse dedo pra mim, não sou seu animal de estimação que lhe deve explicações. - Jean revira os olhos e se levanta recolhendo o livro da mesa. - Espere! Eu preciso anotar o nome do livro, endereço e o seu telefone. - digo com o bloco de anotações na mão. - E se eu der o número de celular ou endereço errado? - ele arqueia uma das suas sobrancelhas grossas com o sorriso intimidador. - Bom, confiamos nos nossos clientes, então...- sorrio com a caneta em mãos. - A minha casa é um lugar místico pode ser acessada de qualquer lugar, coloque o seu e o seu número de telefone, au revoar! - ele pisca e sai andando. - Jean, espere! - saio correndo atrás dele pelo grande corredor da biblioteca, porém perco o controle e quando ele se vira eu bato a minha testa no seu peitoral definido novamente. - Fique um pouco longe. - ele segura o meu pulso e me afasta do seu corpo. - Ter humanos perto de mim, é nojento. - ele sorri de lado. - Por quê me chamou? - Quando vou te ver novamente? Poderia ao menos passar o seu número! - digo com a cara fechada. - Você queria não sentir dores, eu te dei isso. - Mas se foi designado a ficar ao meu lado, não deveria fazer isso? - Sou um ceifador, não a sua babá. - ele responde sem ao menos pensar, essa doeu. - Você não quer morrer agora, então voltarei para devolver o livro e depois só daqui há dois meses nos reencontraremos novamente. - ele vira-se abrindo a porta. - Eu quero viver! - digo fazendo os seus olhos notarem os meus. - Não é a primeira alma que diz isso. - Eu tenho uma irmã que precisa de mim, por favor...me ajude. - se aproximo tocando a mão grossa do mesmo. - Eu tomo a vida das pessoas, essa é a única função designada. - Você cortou as minhas dores de cabeça... Tenho certeza que consegue fazer isso. - Se eu fizer tal coisa, serei castigado pelas divindades. - Então… o meu ceifador é só mais um egoísta que existe no mundo. - me afasto limpando os meus olhos marejados. - Aí que se engana. - ele sorri mostrando seus dentes brancos. - Eu sou apenas um fantasma, perambulando por aí. - Jean abre a porta e sai sem olhar para trás. - Como ele consegue ser frio desta maneira? - pergunto a voltar para o balcão. - Seu namorado? - Andrea questiona com um sorriso. - Parece que brigaram, você está quase chorando. - Não, ele é só um conhecido da Espanha, fiquei emocionada em vê-lo, só isso...- sorrio de leve. - Ah! Bem, já são 6:00 PM o movimento tá fraco, vamos fechar por hoje, pode ir eu cuido de tudo. - ela pisca sorrindo. - Andrea, não vá receber mais um homem estranho aqui novamente! - digo preocupada. - Na última vez... - Eu sei! Não precisa me lembrar… esse não é um desconhecido, ele é gentil e educado. - Certo. - pego a minha bolsa e o meu celular. - Se cuide, até amanhã! - sorrio e saio correndo. Andrea está solteira há mais de dois anos, desde então, ela vive conhecendo homens franceses, acredita que encontrará a sua alma gêmea. O último homem era um cretino, ela ficou de fechar a loja e foi assaltada por ele, o pai de Camille quase a demitiu, precisamos insistir muito para ele repensar. Distraída, segurava a minha bolsa vermelha que tocava levemente o meu vestido branco de saia rodada com um cinto prata firme em minha cintura fina, estava atravessando a ponte dos cadeados, até ser surpreendida por Jean, ele não estava de preto e sim com uma camisa vermelho vinho de manga longa e sua calça social azul escura, ele segurava o seu guarda-chuva vermelho enquanto a sua franja se bagunçava com o vento forte. - Você. - encaro o mesmo que se aproxima com o maxilar trincado e os seus olhos fixados aos meus. - Vai chover em breve e você esqueceu o guarda-chuva novamente. - ele estende o braço me entregando o dele. - Daqui há três dias, na devolução do livro, vou querer ele de volta. - Jean se vira e sai andando. - Espere! - digo rapidamente. - Camille eu não posso te curar de um tumor, não é fácil. - Não é isso. - sorrio de leve balançando as minhas mãos sinalizando um ''não''. - Então, o que é? - Vamos morar juntos! - sorrio e de repente a chuva forte cai enquanto o mesmo com a franja molhada encarava o meu rosto espantado.
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