Capítulo 6

1180 Words
“Enviei as imagens da mesa para a Dona Odete, segue a mensagem encaminhada. Atenciosamente, John Montez Engenheiro Civil – Montez Arquitetura e Engenharia.”   Recebi esse e-mail de John enquanto estava em uma medição de obra com Laurine.   — O chefe pediu algo? —analisou sua prancheta.   — Não, foi só um detalhe da reforma da dona Odete — abri a trena para começar a medição de outra parede.   — Ainda bem, pensei que tinha esquecido de te avisar de algo — suspirou aliviada.   — Ficou traumatizada da última vez? — brinquei com ela.   — Muito Chérie! Sorte que ficou tudo bem. Quanto deu aí?   — Três metros e cinquenta e cinco.   — Certo — anotou — Essa é a última?   — Sim — acredito que já podemos ir.   Nos despedimos da cliente e voltamos para o escritório. Eu tenho percebido que mesmo fazendo mais reformas que construção, os moradores de Paris, tem procurado preservar muito seu patrimônio, a meu ver, eles simpatizam com a história de cada construção e isso me fez refletir muito sobre cuidar do que eu possuo, arrumando o que estiver precisando de ajuste, mas sem tirar a essência.   — Você chegou a passar aquela planta para mim no formato digital? Preciso começar a projetar o que será demolido e construído — perguntei a Laurine, assim que ligamos o computador.   — Passei sim, já está no seu e-mail, vou começar a desenhar nossa medição de hoje agora — ela se levantou — Mas antes, aceita um café? — assenti.   Corri o máximo que pude para tentar implantar minhas ideias nos layouts que a Laurine me passou, essa parte sempre me faz quebrar a cabeça, o que eu adoro, pois me leva a visualizar a casa do jeito que está e como ela vai ficar após as mudanças que planejo. A hora passa que eu nem vejo quando eu estou trabalhando com Laurine, ela sempre tem apontamentos incríveis e agregam muito valor ao que estou imaginando. Mesmo que ela não veja, só pelas minhas palavras ela já consegue trazer uma solução ou uma incrementação — o talento acompanhado da experiência do mercado!   — Lau, mas estou achando que vai precisar de um pilar aqui.   — Será?   — Tenho quase certeza — afirmei.   — Acho que você deveria falar com o John, ele poderá falar com mais propriedade.   — Vou fazer isso — comecei a me levantar.   — Calma, Janice já foi embora, preciso checar se ele ainda está aqui.   — Claro que ele está mesmo que a secretária dele tenha ido embora, ele sempre é o último a sair!   — Vou ligar... — discou o ramal da sala dele — Só chama — disse após alguns segundos — Pelo visto ele não está.   — Tudo bem, podemos ver isso amanhã.   Dediquei o restante da tarde a cumprir a maioria dos itens do meu cronograma, não queria ter que deixar nada para amanhã, assim, posso focar nas visitas de obras, e aprovação dos clientes, para que começar o quanto antes toda a reforma.   — Quer jantar lá em casa hoje? Minha mãe vai embora amanhã e vai fazer um jantar especial — convidou-me com o mesmo entusiasmo de sempre.   — Mas já? — questionei.   — Penso o mesmo, mas a vida dela é em Lille, meu pai e meu irmão não aguentam ficar sem ela — explicou — E ficar sozinha não é bom, querendo ou não fiquei mais tempo no trabalho do que com ela.   — Realmente — considerei.   — Mas, então, você vem?   — Não.   — Não?   — Não! É seu tempo com ela “Chérie” — imitei-a — Aproveite sua mamãe!   — Certeza? — ela quis garantir.   — Absoluta — afirmei.                                                                                               * Além de entender que a Laurine precisa desse tempo com a mãe dela, eu também queria aproveitar para tirar a minha dúvida com o John — vantagem de sermos vizinhos — preciso ser intencional em não misturar vida pessoal — vizinhos — com trabalho, porém eu posso começar com isso amanhã, né?   “Boa noite, John... Pode me tirar uma dúvida sobre um projeto? S.O.S”   Enviei uma mensagem. Esperei por longos minutos e nada. Olhei no relógio. 19h04. Ninguém costuma dormir esse horário.   Então, me levantei do sofá e agarrei meu laptop — e lá vamos nós, tocar a campainha do chefe. Será que dá para ficar pior?   Toquei a campainha, uma vez, duas vezes, três vezes. Pronto o cara morreu e nem avisou ninguém.   Olhei para o molho de chaves e ele olhou para mim — “invasão domicíliar também deve ser crime na França” pensei. Queria eu ter ouvido esse pensamento.   Destranquei a porta com a chave reserva que tenho da casa dele. Olho por todos os lados totalmente deslumbrada.   — Uau! Que casa enorme! — caminhei enquanto olhava tudo — John? — chamei em um tom médio e nada.   — John? — repeti, enquanto subia as escadas — Só pode ser s***o e ainda não deve pagar conta de luz... Deixou todas as lâmpadas acesas! — parei no meio da escada — Anne! O que você está fazendo? E se ele estiver tomando banho, ai, ai, melhor eu voltar — comecei a descer a escada quando ouvi um xingamento vindo de uma das portas.   — John? — segui meu caminho até o topo da escada.   — Mas é um mané! — ouço outra vez, entretanto consigo saber de qual porta o som estava vindo.   Segui até a mesma e bati, só que sem delicadeza.   — Anne? — disse desacreditado — Só um segundo — ele se senta na sua mesa e coloca novamente o headphone — C’est mort! Ensuite on parlera, je dois sortir (Isso é morte! Depois conversamos, eu preciso sair)   Fiquei um pouco paralisada, de fato, era um quarto escuro com leds, mas era possível ver outras mesas e uma estante comprida recheadas de livros. Só depois de analisar o quarto inteiro que finalmente reparei nele. John estava vestido com uma calça de moletom e uma camiseta de malha — estava confortável.   — Anne? — chamou pela segunda vez.   — Estou te dando o troco — sorri.   — Não entendi — era de se esperar — Pode me dizer como e porque entrou aqui?   — Com as chaves — balancei o molho — E se tivesse visto seu celular saberia.   Ele procurou freneticamente pelo aparelho, mas não encontrou.   — Como pode ver... Aqui não está.   — Então, o que você faz aqui?   — Muitas coisas — coçou a nuca — Pode me dizer o que está acontecendo?   — Ah, claro, me desculpe — eu ri — Você deve estar me achando uma maluca.   — Achar eu já achava, agora eu tenho certeza! — debochou.   — Eu estou com uma dúvida sobre um projeto.   — E não podia esperar até amanhã?   — Tem razão — percebi a besteira que tinha feito — Amanhã te procuro, desculpe o incomodo — me virei para ir embora.   — Espere! Já que está aqui, me diga logo do que precisa — disse firme — Já perdi meu jogo mesmo.
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