Capítulo 5

1217 Words
— Aconteceu alguma coisa? Você está com uma cara um pouco estranha — John disse em francês assim que abri a porta.   Não consegui responder logo de cara, ainda não tinha processado a novidade.   — Anne? — ele chamou, só que dessa vez balançou a palma da mão para cima e para baixo na frente do meu rosto.   — Desculpe, eu recebi uma notícia e ainda estou tentando assimilar.   — Mas foi algo grave? Ainda quer sair? — dessa vez ele me respondeu em português. Ainda estou me acostumando, posso falar com ele em qualquer uma das línguas, mas me sinto mais confortável quando ele fala a minha língua, o jeito como ele escolhe as palavras parece menos seco do que quando estamos conversando em francês.   — Claro que quero — sorri — Não foi uma notícia grave nem r**m, eu só não estava esperando.   — Bom, se é assim, vamos?   — Sim.   No carro, me dei conta do quanto estou empolgada para conhecer tudo. Acho que nem em um milhão de anos eu esperaria estar aqui na França, eu até acreditava que um dia aconteceria, mas não nessas circunstâncias, minha vida no Brasil era boa, mas eu m*l tirava férias e não tinha pretensão nenhuma de viajar, ainda mais para cá. Minha vidinha confortável me acomodou, mesmo trabalhando muito, eu conhecia todas as pessoas, todos os lugares, não tinha dúvidas de como agir ou como pensar. Então estar morando e trabalhando aqui, é muito desafiador e a maior experiência que eu poderia ter para sair totalmente da zona de conforto.   No caminho, John, como um bom guia, ao que parece, narrou coisas que ele achava relevante conforme passávamos em frente a alguma praça, restaurante ou padaria. Percebi o quanto ele ama cada detalhe de Paris.   — Você já foi para outra cidade ou região da França?   — Sim! Conheço cada canto desse país, desde muito jovem viajava com meus pais. E criei essa paixão.   — Uau, certeza de que foram dias inesquecíveis!   — Foram mesmo, além de ser inspirador.   De repente meu celular começou a vibrar várias vezes, suponho que sejam as fotos do pedido de casamento de Liz. Por isso, não perco tempo e desbloqueio a tela para começar a ver.   — Que coisa linda Liz, como você sempre sonhou — acabei dizendo em voz alta.   — Oi?   — Pensei alto — ri — Estava comentando sobre essa foto aqui — aproveitei a parada no sinal e mostrei — essa é a minha melhor amiga e esse de joelhos é o namorado dela, agora noivo.   — Que lindo lugar, onde é? No Brasil? — o sinal abriu e ele voltou a prestar a atenção na estrada.   — Sim, é uma praia de Fernando de Noronha, onde eles se conheceram.   — Já ouvi falar, parece ser um lugar maravilhoso.   — E é! — confirmei.   — Já peço desculpa se estiver sendo inconveniente, mas essa era a notícia que você não estava esperando receber?   — É... Bem, sim   — Se não quiser falar sobre, tudo bem — não respondi, não foi proposital, eu só não sei como falar, não sei como expressar o que estou sentido, é uma mistura de felicidade com insegurança, não é fácil expor — Chegamos!   Observei pela janela, buscando entender onde que tínhamos chegado.   — Bem-vinda ao Parque Belleville — ele abriu a porta para eu poder sair — Aqui tem um mirante — John explicava enquanto caminhávamos — Prepare-se para uma vista linda.   Logo de cara eu amei todo o paisagismo desse parque, tudo muito bem pensado, é demais como as árvores podem trazer leveza para os lugares, elas conseguem trazer vida, frescor e uma sensação de paz.   — Tchãram — ele disse ao chegarmos no mirante — O que achou? Sei que pode parecer simples, mas eu particularmente amo ver a cidade daqui.   — Simples? Muito pelo contrário é lindo! Consigo ver a Torre Eiffel, as ruas e as construções daqui de cima! Não poderia ter me trazido em um lugar melhor...   — Que bom que gostou! Eu tive que pensar em um lugar mais perto, por conta do nosso horário, mas vir aqui sempre me acalma.   — Traz muita tranquilidade mesmo — peguei meu celular — Farei um bom papel de turista e vou tirar algumas fotos.   — Não! — Olhei para ele sem entender — Quero dizer, sim — riu — Eu trouxe a câmera, pode deixar que tiro as fotos e te passo o cartão de memória depois. — Nossa! Curti! Não sabia que gostava de fotos.   — Não tinha como saber né? E eu amo guardar esses momentos em formato de foto — dizer isso fez ele abrir um sorriso largo — Então, por favor, se posicione ali — ele apontou.   Foi um pouco estranho posar para uma foto, mas depois que ele me mostrou eu fiquei deslumbrada com a habilidade que ele tem, eu amei cada foto e já não vejo a hora de enviar para minha mãe, pai, Liz e todos que quiserem ver.   — Pronta para o próximo destino?   — Se for igual a esse, já estou lá!   * — Não é possível, John! — quase gritei.   — Sabia que você ia gostar daqui.   — Como não gostar? Fala sério meu mano! — ele riu da minha expressão, eu não pude me segurar, acabei falando minhas gírias paulistas.   O lugar era perfeito, na verdade, era uma rua residencial, mas o que me fez surtar foi a arquitetura das casas. “Rue Crémieux” ele me explicou, além das casinhas serem geminadas, a pintura utilizada no acabamento é um charme, com certeza me conquistou — sem dúvidas um sentimento que só um arquiteto ou artista sentiriam.   — Foto?   — Por favor! — exclamei   Depois que saímos da Rue Crémieux, seguimos para um lugar ainda melhor, o Marché aux Puces (Mercado das pulgas). Cercado por diversas lojas e galerias com móveis vintage, moedas e objetos de decoração.   — Ele é reconhecido com o maior do mundo! Ocupa quase o bairro inteiro.   — Uau! É gigante... já pensou se colocamos essa mesa na casa da dona Odete? — lembrei na hora de uma reforma que estamos fazendo na casa de uma senhora.   — Boa ideia, vou tirar uma foto para enviarmos para ela na segunda.   Alguns móveis são únicos e relíquias o que justificava o preço, mas não deixei de comprar várias lembrancinhas para minha família e decorações para minha casinha. Saímos cheios de sacolas e caixas — a maioria me pertencia.   — Já são quase 19h.   — Como o tempo passou rápido, nem notei que estava com fome.   — Se quiser podemos comer num restaurante magnífico que fica per...   — John, eu prefiro ir para casa, esqueci que aos sábados a noite converso com meus pais — menti, na verdade, eu converso com eles aos domingos horas antes, afinal já são quase meia-noite no Brasil.   Ele não disse nada, tenho quase certeza que percebeu que eu estava mentindo, contudo, sinto muita relutância quando o assunto é John, não esqueci a forma de como nos conhecemos, a forma como ele me tratou, não foi legal. Até que esclareçamos tudo isso não posso me dar ao luxo de jantar com ele. Não sou ingrata, amei conhecer todos esses lugares, entretanto não posso deixar de ser racional nesse momento.    
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