As semanas se passaram e trabalhei como nunca, foi tão puxado que nem lembro a última vez que dormi, quando não eram as videoconferências, eram os milhares de projetos que precisei revisar e supervisionar. Nossa equipe é razoavelmente grande, o que acabou dificultando ainda mais meu trabalho, tive dificuldades em coordená-los, já que precisava cuidar das coisas do Brasil.
Ao tomar meu quinto café do dia e terminar por fim a última reunião com meus colegas do Brasil, pude enfim respirar. Certamente não estou no meu melhor dia, na verdade, não estou no meu melhor dia há muito tempo!
— Juro, se ouvir mais uma fofoca de alguém falando m*l de você, vou ser demitida por justa causa — Laurine entrou na sala de reuniões — Duvido que eles aguentem um dia no seu lugar.
— Não vale a pena… — fomos interrompidas pelo toque do meu telefone, e eu automaticamente bufei — Ah não! — reclamei e abaixei a cabeça em cima do meu braço.
— Eu atendo, eu atendo — agradeci fazendo um coraçãozinho com as mãos.
Não me importo com os pensamentos dos funcionários sobre mim, realmente não vale a pena, uma hora passa, não tenho culpa se meu senso crítico piora quando estou atarefada.
— Era o John e depois o Seu Montez — ela riu — Dois “Montez” em uma cajadada só! — comecei a rir junto, era isso ou chorar.
— Não sei o que faria sem você, sério!
— Nem eu sei, mas penso que talvez já teria matado alguém — concordei enquanto enchia mais uma xícara de café — Anne querida, já é a décima nas minhas contas!
— Nas minhas é a metade.
— Só pode estar ficando louca mesmo — tomou o café da minha mão e entregou uma garrafa de água — Hidrate-se! O John me pediu para avisar que precisa daquele projeto urgente, assim que ele chegar vai vir buscar.
— Eita, pedi para a Clarice terminar ontem as últimas alterações, mas não deu tempo de revisar.
— Chèrie — me olhou séria — você não está bem, até o Seu Montez está preocupado, eu posso revisar o projeto com a Clarice.
— Eu admiro a preocupação de vocês, mas esses clientes são os mais chatos possíveis e John está irritado com eles, se houver qualquer erro, ele não vai me perdoar.
— Desisto — levantou as mãos em sinal de rendição — Por favor, qualquer coisa, me chama!
Ao revisar o projeto, não encontrei tantos problemas como imaginei que teria. Essa residência é bem desproporcional e para completar os proprietários querem fazer reparações e acréscimos desnecessários.
Enquanto esperava por John na sala dele, fui ajustando as plantas que faltavam no carimbo. Estava tão concentrada que nem percebi quando ele chegou.
— Deu certo? — ele perguntou.
— Sim — continuei olhando para tela — Já mandei imprimir as folhas, só falta carregar as renderizações para mostrar para eles…
— Perfeito — ele sentou na sua cadeira — Tem ouvido os comentários?
— Não, só a Laurine me conta de alguns, mas ninguém tem coragem de falar na cara — eu ri — Honestamente, eu não ligo! Tô fazendo meu serviço — permaneci focada nos últimos detalhes do projeto.
— Você pode olhar um segundo para mim enquanto conversamos? — o olhei envergonhada — Acabou, já expliquei direitinho as coisas para eles — ele estava sério — E você vai ter o resto da semana livre, afinal, trabalhou mais que 30 operários em uma diária.
— Mas…
— Sem “mas”, não quero ver sua família, nem meu tio assustados quando te virem na segunda-feira, tenho amor a minha vida! — ele riu.
— Eu estou tão r**m assim?
— Por fora, não! Você disfarça bem, mas eu te conheço.
— Tá tudo aqui — mudei de assunto, o clima começou a me constranger.
— Obrigado! Pode ir para casa agora!
— É que eu tinha que finalizar um projeto de bombeiro.
— Sonho com o dia em que você vai fazer o que eu peço sem justificativas.
— Eu faço John!
— Salut — ele se levantou e foi me empurrando com delicadeza até a porta da sala — Deixe tudo organizadinho para sua viagem, nos vemos em breve.
No outro dia, fiz um esforço enorme para descansar e não ligar para o escritório. Com as noites sem dormir, já tinha deixado minhas malas prontas há dias, sou tão pirada com listas e organização que nos tempos “livres” da madrugada, adiantei tudo o que precisava.
Olhar pro teto foi o que sobrou.
— O que você tá fazendo consigo mesma, Anne? - perguntei, esperando que houvesse uma resposta. Não houve.
Permiti-me derramar as lágrimas que acumulei, não sei ao certo o motivo do choro, penso ser o cansaço misturado com confusão do coração, mas veio como um alívio, como se realmente tudo estivesse saindo de dentro de mim. Tantas dúvidas me cercavam, e embora não recebi as respostas, me sinto consolada de alguma forma.
Adormeci e só acordei horas depois, meu corpo estava tão pesado que parecia que um enorme trator tinha passado por mim, a coragem de me levantar foi com Deus. Demorei tanto para enfim fechar os olhos que agora m*l quero abri-los.
Olhei para o relógio de parede. Em breve seria a hora do jantar e eu precisava urgentemente de um banho para ao menos, psicologicamente receber um renovo.
— Nota zero — disse ao me olhar no espelho do banheiro — Se eu estava um porcento assim de manhã, John até que foi maneiro comigo — Comecei os “trabalhos” sem nem um pouco de pressa ou empolgação, tudo parecia lento e calmo. Cheguei a rir da minha própria moleza.
Embora estivesse orgulhosa pelo excelente serviço que fiz no último mês, não posso deixar de admitir que fui negligente comigo. Coloquei o escritório e a filial à frente das minhas próprias necessidades — como dormir — eu praticamente voltei para os tempos de faculdade.
— Eu vou ter que gritar para você entender? — me lembrei da bronca que levara de Liz há dois dias, que nem dei atenção por estar focada em outra coisa — Eu me lembro amiga, você ficou internada na época da faculdade por não descansar, achei que tinha aprendido a lição! — Na hora eu só escutei um monte de sílabas sem sentido.
— Ah, sim, lembro! Ok! Beijos, te vejo logo. Vou entrar na reunião aqui — desliguei sem nem ao menos ter entendido o que ela me disse.
Por sorte estou bem — na medida do possível —, então, não vou fazer isso de novo.
Mais tarde a Jasmine passou em casa para trazer meus quadros e ver se estava tudo bem comigo, segundo ela, o John disse que eu estava sobrecarregada e ela queria comprovar se tudo era somente drama típico dele ou se eu precisava mesmo de ajuda. Aproveitei esse tempo para jogar conversa fora! Acho que estava precisando falar sobre coisas diferentes de trabalho, plantas, obras e filial.