Capítulo 12

1909 Words
— Só não te busco no aeroporto... — Liz explicava algo em um último áudio enviado, nunca pensei que voltar ao Brasil, mesmo que rápido, fosse me deixar mais atarefada que em dias normais, não me orgulho da maneira que tratei estes dias, mas prometo pegar mais leve agora. O resto da semana que recebi “férias” se passou e me fez querer m***r Laurine e John, ambos não me atendiam e nem me davam satisfações a respeito de absolutamente nada que eu pedia. Por isso, como vingança farei o mesmo enquanto estiver resolvendo as coisas no Brasil. Por conta da perda de sinal, causada por eu estar entre as nuvens, me fez acabar não respondendo Liz, o que ela prontamente entenderia, ou esqueceria, tadinha, nunca a vi tão corrida! Espero que em meio a tantas coisas eu possa ajudá-la de alguma forma, o que eu poderia considerar uma utopia, levando em consideração tudo que preciso fazer. Ao desembarcar no aeroporto de São Paulo, meu coração disparou, no começo não entendi exatamente o porquê, mas quando abracei meus pais tive certeza. Mesmo estando poucos meses na França — quase quatro— eu nunca passara pela experiência de estar longe de casa, estava tão acomodada a minha rotina que senti muita falta dela, o mais louco disso é que, voltei para meu país, mas, na verdade, enfrentarei coisas bem diferentes. — Bem-vinda de volta — minha mãe disse depois do abraço — Volta para lá mais não, vai?! — Nem pensar! Preciso dela lá — Seu Montez respondeu por mim — Querida, e o John? — Bom, como te expliquei ao telefone, ele não me atende, então eu meio que larguei de mão — respondi sinceramente. — Sim, claro, minha filha — ele riu, como se o que eu tivesse dito não fizesse sentido. — Vamos para casa? Temos muito o que conversar e muito caldo verde para comer — o meu preferido! — Como é bom estar em casa — suspirei. Gosto de como construímos nossas conversas à mesa, me traz pertencimento, como se pudesse enxergar além da minha vida, minha mãe sempre fez questão destes momentos, ela costuma dizer que nos tornamos mais vulneráveis e empáticos quando compartilhamos o que se passa na nossa vida de maneira sincera e escutamos o outro. Vida em comunidade é simplesmente isso. — Ela sempre fala para mim que a princesa mais bonita da Disney é a Tiana, porque lutou sempre pelos seus sonhos — minha mãe contava sobre uma menina da sua sala quando ouvimos a porta se abrir. — Cheguei família! — Liz escancarou a porta de entrada — Senti o cheiro do caldo de LONGE — me levantei para cumprimentá-la — Finalmente estou te vendo — apertou minhas bochechas. — E eu estou indo, família — Seu Montez disse após olhar uma mensagem no celular — o dever me chama! — Se não soubesse o quanto o senhor é ocupado, até acharia que está indo embora porque cheguei — Liz brincou o fazendo sorrir e ele depositou um beijo em sua testa — Te adoro, preciosa! Estava com saudades suas — e assim ele foi após nossas despedidas. — Corra Liz, pegue mais um pouco do caldo, pois vou começar a tirar a mesa — minha mãe nos interrompeu enquanto Liz analisava meu presente. — Estou satisfeita, mãe — minha mãe amava quando ela a chamava assim — Vou tentar arrancar algo dessa menina agora — sorriu entregando o pote sujo de caldo. — É bom te ver aqui de novo — ela respondeu antes de sair. — Vamos prometer nunca mais ficar tanto tempo sem isso aqui? — Não precisamos prometer nada, Liz! O que precisamos entender são os tempos e sempre analisar nossas prioridades — expliquei — meu maior problema foi usar meu trabalho ou o seu namoro como desculpa para não termos tempo de qualidade. — Eu também fui egoísta… — Fomos, mas o que importa é que estamos juntas novamente! — Cuidado! — Com o quê? — questionei. — Para não cair do pé, você tá muito madura! — HAHAHAHAHA que piada, que piada — ri alto. Acordar no outro dia foi difícil, primeiro porque fiquei um bom tempo conversando sobre cada detalhe do casamento com a Liz, segundo, porque 5 horas a menos me fez demorar para pegar no sono! Minha querida amiga, me deu carona até o escritório, já que eu estava extremamente atrasada, acho que nunca nesta indústria vital isso me aconteceu. — Acho que vou morrer — disse assim que fechei a porta do carro. — Espera até meu casamento para enterrar o corpo! — sorri para ela e joguei um beijo no ar. Acenei para Carol, a secretária, logo após pisar no andar do escritório. — Tem café prontinho para vocês! — Como sempre a mais gentil de todas — Senti sua falta — completou. — Eu também — disse — prometo passar aqui mais tarde para entregar uma lembrancinha e contar como foi. Cumprimentei rapidamente toda nossa equipe e deixei minhas coisas na minha antiga mesa vazia. Reencontrar meus colegas, me deixou empolgada para tudo que vem pela frente. — Estávamos te esperando — meu coração saiu pela boca por um momento. — O que eu perdi? — Foi o máximo que consegui falar para esconder a minha surpresa ao ver John, Jasmine e Seu Montez na mesma sala me encarando. — Fora a hora, nada mais… — Bom dia, Anne! Como deve ter percebido, meu querido irmão não deixou sua imaturidade e a grosseria em casa! O que achou da surpresa? — Eu não sei o que dizer, como que… — Como que você caiu feito patinha, achando que eu não viria te ajudar com a nova filial? — ele sorriu — Me ajudar? Você nem atendeu meus telefonemas — aumentei o tom de voz — Não sou a pata da história, sou a palhaça mesmo — seu sorriso se desfez e Jasmine arregalou os olhos. — Queridos, vocês terão muito tempo para esclarecer as coisas, no momento preciso que se sente — Seu Montez se pronunciou firme e eu, mesmo hesitante obedeci. — FAÇO QUESTÃO DE CONVIDÁ-LO — Liz gritou no telefone, após eu insistir pela terceira vez para não chamar o John para o casamento dela. — Ah amiga, eu sinceramente desisto! — Sábia! Ontem falei bastante, só porque não queria te deixar desconfortável, mas Anne, é melhor admitir logo que quer ele por perto! Você não me ligaria tão brava se… Ela começou a falar dezenas de coisas que confesso não ter prestado atenção, meus pensamentos se perderam em “será que não quero mesmo ele por perto?”. Pareço o que, uma criança imatura? Mas, tenho esse direito, fui ignorada por dias suficientes. — Anne?! — Ouvi duas pessoas me chamando ao mesmo tempo. — Anne! — a voz de Liz ficou um pouco mais alta — Se for ele passa o telefone agora! — ordenou. A verdade é que quando ele aparecia eu não pensava muito e isso parecia estar mais forte agora. Minha única atitude foi entregar o celular para ele. A conversa não demorou muito, ele soltou algumas risadas e concordou com a cabeça algumas vezes, o que me fez pensar que a resposta era sim para todas as perguntas. — Anne, — quero trocar de nome — quer vir almoçar comigo e com a Jasmine? — É que como amanhã vou para Pernambuco, tenho muitas coisas para resolver — desculpa rápida, desculpa rápida! — Sei dos seus itinerários, estou incluso neles — se aproximou — Para de tentar me afastar. — Ah, eu que estou tentando te afastar? — bufei — John, porque você está aqui? — Eu não vou ficar te explicando o óbvio, mas se te tranquiliza, meus pais queriam vir visitar o Brasil, fazia muito tempo que eles não vinham, então como um bom filho que sou, uni o útil ao agradável. — E aquele showzinho sobre o meu atraso? Ou melhor, e as ligações não atendidas? — Foi só uma brincadeira, chérie — ele riu — Não te atendi porque você precisava pegar leve, sério! — suspirou — Agora vamos logo, antes que minha irmã ache que fomos sem ela — eu tinha muitas coisas a dizer, mas acabei guardando tudo, não chegaria a lugar algum. * Durante toda a cerimônia fiquei extasiada, um sentimento inexplicável, Liz estava deslumbrante e eu deixei um rio naquele altar, não achei que pudesse chorar tanto. Vivi um misto de sentimentos desde a primeira entrada até quando eles saíram para as fotos que antecedem a festa. — Chega Anne — Pedro, meu par e amigo de longa data disse — Não tenho mais lenços! Já gastei todos, me espanta toda essa emoção repentina… — Nem tão repentina assim, pensei. — Me deixa, maluco — reclamei — farei o mesmo na sua vez — enxuguei meu rosto. — Então nem vou te convidar — me abraçou. — Achei vocês! — Liz se juntou no abraço — Que alegria nós três juntos de novo. — Seja na alegria ou no luto, eu sempre apareço! — Que horror! — Liz deu um t**a no ombro dele. — QUE SAUDADE — gritei enquanto ria. — Não aguento mais fotos, podemos fugir? — Liz implorou — Sinto muito, agora você é uma mulher casada, peça ajuda ao seu querido esposo — olhamos juntos na direção dele que a chamava com a mão. — Vai lá! Ficaremos te esperando para comer — falei meio incerta se realmente conseguiria esperar. Eu já tinha esquecido como era maravilhoso conversar com Pedro, eu o conheci antes de Liz, porque além de termos crescido na mesma rua, sempre estudamos juntos. Só depois que ela se mudou para São Paulo que viramos os três mosqueteiros, tudo o que fazíamos só tinha sentido se todos estivessem. No fim do ensino médio — sendo Pedro o mais inteligente de nós três, logo foi estudar medicina no exterior — acabamos nos separando. Desde que ele voltou, não tínhamos nem trocado mensagens. Então colocar o papo em dia foi a minha principal tarefa no segundo que encontrei com ele, até agora. — Não, eu tenho certeza do desafio que é — eu disse. — Às vezes fico desesperado ao perceber a quantidade de pessoas que estão em situação vulnerável, é uma honra poder atendê-las, não troco por nada neste mundo. — Parece algo tão longe, né? Ele me contou como tem sido puxado cuidar de maneira voluntária, por um projeto que ele criou aqui no Brasil para médicos que se prontificam a trabalhar sem fins lucrativos no atendimento à pessoas em situações afastadas e muito vulneráveis. — Sim, principalmente quando vivemos nas metrópoles, claro que vemos pessoas em situação de rua, mas ainda, sim, existem projetos que acolhem. Agora nas regiões que passo, é bem mais complicado, eles não têm nada, a não ser a si próprios. — Obrigada mesmo por estar conduzindo algo a respeito! Tenho orgulho de você — sorri — Ah fofinha — me abraçou, a linguagem de amor dele é toque físico — Mas que fique claro, eu não faço nada de mais, às vezes não consigo atender a todos. — Nada de mais? E eu que não faço nada! Tô me sentindo a pior pessoa do mundo. Ele riu de mim e paramos para olhar para Liz vindo em nossa direção. — Ela te contou? — ela disse.
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