Isadora
A Pipa Azul sempre foi meu pulmão secreto. A pintura desbotada, o desenho da pipa no alto como assinatura de criança, o eco curto entre as paredes — tudo ali me devolve a sensação de caber em mim. Tainá segura meu cotovelo com a mesma firmeza de sempre.
— Duas músicas só — ela lembra, nossa cláusula antiga. — Entrou sem nome, sai sem cena.
Assinto. A máscara de renda volta ao rosto como uma coragem emprestada. Por dentro, conto os passos até o corredor do bar, o recuo entre as lonas, a lâmpada fria que treme. Caio diz “respira” no microfone — o código que aprendi a reconhecer. Respiro.
Ele está ali.
Não preciso que ninguém me apresente. É ele, o rapaz de olhos atentos e corpo que sabe esperar. Não vem em linha reta; vem pelo ângulo certo, o dos que pedem licença sem pedir desculpa. Fiquei dias tentando apagar o choque do corredor. Descobri que não quero apagar: quero entender.
— Boa noite — ele diz, baixo, para não ferir o eco.
— É. — Minha resposta também não quer ser heroína, só verdade pequena.
Ficamos a meio passo de distância, duas pessoas adultas tentando fazer caber num corredor tudo que a laje nos prometeu e nos negou. Tainá mede a passagem e fica de guarda, dois passos à frente, como quem protege palavra inédita.
— Sem nome — ele avisa, gentil.
— Sem nome, sim — confirmo. — Só… coisas que não pesam.
— Coisas claras. — Ele aponta com o queixo para a latinha sobre o balcão, onde o bartender encosta uma garrafa d’água. — Água primeiro. Sempre.
A frase encontra meu corpo como toalha quente. Tomo um gole e descubro que estou com sede desde a infância.
— Obrigada — sussurro.
— De nada.
Uma pausa que não é constrangimento. É gramática do lugar.
— Gosto do mar — ele diz, finalmente. — Não pela foto. Pelo trabalho que dá.
— Gosto da rua — respondo. — Não pelo perigo. Pela honestidade com que ela dá e tira.
— Eu não quero uma história para contar em mesa de bar.
— Eu não posso ser uma história em mesa de ninguém.
Nossos olhos se tocam no meio da frase, e o mundo nos entrega um degrau. Não subimos. Ficamos ali, guardando o pequeno milagre de dizer sem traduzir. Ouço n**o Célio na outra ponta, o rádio roçando o tecido: “Calma, família.” Ouço Caio ajeitar o break. Ouço Tainá inspirar do meu lado, alerta e do meu lado mesmo assim.
— Você parece alguém que aprendeu a entrar e sair — arrisco.
— Estou aprendendo — ele corrige, sem vaidade. — E, se eu tiver que perder, quero perder direito.
Sorrio de canto. É uma frase que reconheço como senha. Em mim, o riso vira coragem suficiente para uma ousadia mínima:
— Eu não estava preparada para gostar de olhar. — Digo como confissão. — E gostei.
Ele não se exalta. Não exige. Devolve do mesmo tamanho:
— Eu não estava preparado para esperar. — E estou esperando.
Tainá se aproxima meio passo.
— Duas músicas, Isa.
— Eu sei. — Minha voz me denuncia: não quero que acabe, mesmo sabendo que tem que acabar.
A primeira música cai num recorte de voz antiga; a viela vira capela. Ele encosta as costas na parede, mãos visíveis, postura de quem não negocia território com o meu corpo. Eu encosto um ombro. A distância é de respeito; a proximidade, de fome.
— Tem dias que eu acho que sou só o sobrenome do meu pai — confesso. — Noutros, eu lembro que existe gente dentro.
— Tem dias que eu acho que sou só um apelido de praia — ele admite. — Noutros, eu lembro que existe trabalho atrás.
Sorrimos sem nos tocar. O bartender finge arrumar tampas. A Pipa Azul nos guarda. Eu penso no terço de Dona Nilda e na chave escondida que abre uma noite inteira de escolhas.
Quase beijo.
Vem como vento que dobra camiseta: só o suficiente para me fazer pensar e se. Eu avanço meio centímetro. Ele não toma por assalto; oferece o rosto em ângulo gentil. A mão dele não procura cintura, permanece visível, declarando que o corpo sabe onde não deve estar antes da hora. Tainá dribla com o corpo dois curiosos e, sem me olhar, puxa meu pulso de leve — sinal. A maré está virando.
— Agora não — ela avisa, sempre duas sílabas antes do perigo.
Eu recuo um passo. Ele aceita um passo. Ninguém dramatiza. Quase beijo vira promessa respirada.
É quando a noite muda de humor.
Dois estampidos — distantes, mas claros — racham o ar como lâmina. Tiro. A laje engole o próprio som por um segundo. n**o Célio aparece no outro lado do corredor, voz baixa e absoluta:
— Abre a lateral. Pista segura. Sem correria.
O coração tenta correr; eu prendo com a rédea da razão. Tainá cola em mim.
— Respira, Isa. — O uso do meu nome sem máscara me firma o pé.
— Respira — ele repete, quase no mesmo tom de Caio.
Troca de olhares. E o mundo nos joga de novo no mesmo degrau de antes, só que agora com medo ocupando espaço. Ele faz o gesto mais simples e mais correto: mostra a palma da mão, oferece abrigo, não pressa. Eu aceito a palma com os olhos, não com o corpo. A viela se estreita com gente querendo virar fumaça.
— Por aqui — Célio aponta, abrindo corredor de um palmo que parece avenida.
A multidão obedece; família é quem está na mesma direção que você quando o som erra. Tainá me puxa mais forte, a uva de esmalte brilhando sob a lâmpada fria. Minha respiração vira pneu em asfalto quente. Ele fica um passo ao lado, ritmo igual, pronto para sumir junto se for preciso.
— Você tá tremendo — ele percebe, a voz perto e contida.
— Eu sei — respondo. — Tremor não é desistir.
— Nem avançar errado.
Mais dois passos e a viela se abre na esquina da Rua 1. O barulho lá fora diz que não é guerra, é aviso. Mesmo assim, a cidade bota a mão no coldre. Caio segura o set com coragem de quem conhece o humor da casa: baixa, espera, devolve vida ao invés de gasolina.
Então acontece. Não tem ensaio. Tainá olha para trás (erro de quem cuida), sente que a roda abriu demais, me dá o empurrão de irmã — para o lado dele. Meus ombros batem no peito que cheira a mar. O corpo inteiro entende o que a cabeça vinha negociando.
O primeiro beijo não pede trilha. Ele reconhece. É a segunda metade do choque do corredor, agora com consentimento e sossego, apesar da sirene invisível. Boca de canto, pressa nenhuma, o tempo suficiente para nosso corpo assinar um acordo: não transformar isso em manchete, não roubar do lugar o respeito que o lugar nos emprestou.
A mão dele encosta minha mandíbula, visível, leve. Eu respondo com a boca ainda em dúvida e, no exato segundo em que escolho sim, Tainá me puxa outra vez, como se arrancasse um fósforo de perto do pano.
— Agora não — ela repete, firme. — Segurança primeiro.
Ele assente comigo e com ela, ao mesmo tempo. Isso me comove. A maioria dos meninos que conheci acharia que o beijo lhes deu direito. Ele entendeu que o beijo nos deu dever.
Célio passa o rádio:
— Tudo controlado. Sem mais barulho.
A laje recomeça a respirar. Meu peito também. Volto a olhar para ele. Não há nome; há certezas pequenas. Digo uma, para que não fique perdido no corredor:
— Eu gostei da água primeiro.
Ele entende o recado inteiro escondido nessa frase. Sorri com o canto, o mesmo de sempre.
— Então água sempre primeiro — responde.
— E o resto, quando não virar prejuízo — completo, séria.
— Assim que eu perco direito, se tiver que perder.
— Assim que eu fico viva, se tiver que fugir.
Nos encaramos com a honestidade dos que não podem prometer futuros, só conduta. Tainá me chama pelo olhar, a Pipa Azul se alonga como gato antes do sol, e a noite decide que podemos ficar mais uma música — modo sussurro.
— Eu volto — digo, e sei que estou dizendo duas coisas: volto para a pista agora; volto para esta conversa quando der.
— Eu espero — ele devolve, e sei que está dizendo duas coisas também: espera aqui; espera quem eu sou por trás da máscara.
Entramos de volta na meia-lua de gente. Caio entrega uma sequência redonda, Rafa acena de longe, o bartender ergue a garrafa para confirmar que me viu. Eu danço pouco, com o corpo inteiro avisado das novas regras: primeiro o respeito, depois o resto. Sombra existe no meu horizonte como montanha, mas, pela primeira vez em semanas, sinto que minha trilha não é só borda — é caminho.
O silêncio engole a música, substituído pelo som de palmas, e meu olhar encontra o da Pipa Azul. O eco de dois tiros permanece no ar, cortante como uma lâmina recém-guardada. Entre o barulho e a dor, um beijo funcionou como um elo. Era uma encruzilhada para dois: eu e ele; eu e o meu próprio reflexo. Saio com Tainá, sem rótulos, sem drama, mas com sinceridade suficiente para adiar o sono por mais uma noite.