Capítulo 4 - A verdade que arde

696 Words
ISADORA O cheiro dele ainda está entre minhas pernas. Seu gosto, na minha pele. Seu olhar... cravado em mim como uma promessa. Ele está de pé, me observando como se eu fosse arte. Uma peça única. Uma obra feita só para ele. Está com a camisa aberta, o peito largo arfando, os olhos queimando com algo mais fundo que desejo. Mas então ele fala. E quebra o feitiço. — Eu te vi pela primeira vez há dois anos. Dois anos? Meu corpo congela. — Como assim? — pergunto, sentando-me lentamente. A tontura do orgasmo ainda me envolve, mas o tom da voz dele me puxa de volta à realidade. — Você estava na exposição de fotos da galeria Vértice. Aquela com retratos em preto e branco. Estava usando um vestido cinza. O cabelo preso em um nó desleixado. Sorrindo para uma amiga... mas seus olhos estavam tristes. Profundamente tristes. Pisco. Tento lembrar. Eu estive lá. Mas... — Por que isso importa? Ele se agacha na minha frente. Não me toca. Apenas me encara. Sério. Escuro. Profundo. — Porque eu conheço esse olhar. Porque já tive esse olhar. Quando se perde alguém. Quando se carrega culpa. Quando se sente sozinho mesmo cercado de gente. — Eu estava perdido, Isadora. Você me fez parar. Respirar. Sentir algo de novo. Meu peito aperta. — Então você começou a me seguir? Ele não desvia o olhar. — Sim. Mas não como um louco qualquer. Nunca toquei em você sem permissão. Nunca invadi seu espaço. Eu só... precisava saber se aquele olhar ainda existia. — E quando ele começou a sumir... quando você voltou a sorrir sozinha, eu soube que estava forte o suficiente pra me ver. Pra me suportar. Pra me entender. Minha respiração acelera. — Você vigiou minha vida por dois anos. Isso é errado. É doentio. Eu devia... — hesito. Fugir? Expulsá-lo? Chamar a polícia? Mas ele se aproxima. A mão toca meu joelho. Um toque leve. Caloroso. Quase reverente. — Eu nunca quis te assustar. Só... me aproximar. Entender. Cuidar. — Ninguém nunca cuidou de mim — acrescenta, num sussurro que corta fundo. — Fui criado por um pai violento, numa casa onde o silêncio era sobrevivência. Aprendi a me esconder desde cedo. A observar. A antecipar. — E então você apareceu. Com sua dor bonita. Com sua força quebrada. E eu soube: ela é minha ruína. Mas é a ruína que escolho. O silêncio pesa entre nós. Ele está de joelhos agora, a cabeça baixa. Vulnerável. Nu de uma forma que nenhum toque ousou mostrar. E eu deveria odiá-lo. Deveria. Mas não consigo. Porque, pela primeira vez, me sinto... vista. Não como uma distração. Nem como uma mulher para ser salva ou consertada. Mas como sou. — Você ainda me quer? — ele pergunta, a voz rouca, ferida. Me aproximo. Me ajoelho à frente dele. Levo as mãos até seu rosto. Ele fecha os olhos ao sentir meu toque. Beijo sua testa. Depois o canto de sua boca. Depois, enfim, seus lábios por inteiro. Um beijo lento. Profundo. Cheio de tudo que ainda não sei dizer. — Quero — sussurro. — Mas quero que me deixe ver você. Não só o observador. O homem inteiro. Com seus defeitos. Com seus monstros. — Porque... eu também tenho os meus. Ele sorri, mas é um sorriso quebrado. Com marcas. Com cicatrizes. Então ele me beija. Dessa vez não é domínio. É confissão. Me deita no sofá de novo, com mais ternura. Seu corpo cobre o meu com a mesma fome de antes, mas com um toque diferente: reverência. Ele me penetra com lentidão, os olhos nos meus. Nada de pressa. Nada de pressões. Só um encaixe perfeito entre duas almas rachadas tentando se reconhecer. Seus quadris se movem num ritmo que me faz gemer. Mas os olhos não se desviam. Ele está me lendo. E eu estou permitindo. Meus braços o envolvem. Minhas pernas o prendem. Meus gemidos se tornam dele. Cada estocada é um pedido. Cada gemido, uma resposta. E quando ambos gozam, colados um ao outro, não é só prazer. É alívio. É entrega. É um pacto silencioso entre duas solidões que finalmente se encontraram.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD