Dean olhava pela janela da carruagem, a Cidade Capital era ainda mais bela do que se recordava, a via apenas de longe, mas teria todo o tempo do mundo para visitá-la. Em seu aniversário de 20 anos, pedira ao seu pai para se casar com alguém que vivesse ali, para que o fim de sua vida fosse em um lugar como aquele. Seu sonho se realizaria, e bem mais do que isso, o Kwon estava prestes a receber mais honras do que qualquer outro de sua Casa havia recebido. Se casaria com alguém diretamente ligado a duas grandes linhagens, e em breve, teria o mesmo título de nobreza que ele.
Ouvira muito falar de seu, até então, futuro noivo, lhe diziam ser ele um alfa muito belo, com características tão únicas que o destacavam nas multidões. Beleza e poder não eram tudo na vida, porém muito lhe agradava a ideia de ter os dois.
Ao longe, brilhando contra a luz do sol, a Fortaleza crescia diante de seus olhos, aquela seria a sua casa, o lugar onde construiria sua vida e criaria seus filhos. Dean sempre pensou mais a frente, usava a cabeça e sempre sabia o que fazer. Então sim, ele tinha certeza absoluta de que Jay se casaria com ele, e que da próxima vez que passeasse pelas ruas da Cidade, estaria usando o brasão da Casa Park.
— É muito bom tê-los em nossa casa. — fora seu futuro sogro quem os recebera, seus olhos rápidos procuraram pela presença de Jay, que seria facilmente identificado pelos cabelos ruivos e pinturas em sua pele, porém não o encontrou — Perdoem a ausência de meu filho, não sabíamos que chegariam tão cedo, ele ainda não retornou de seu costumeiro mergulho no rio.
Em partes era verdade, Jay realmente havia descido ao rio, porém não era algo ao qual fosse muito apegado ao ponto de fazer todos os dias, ele simplesmente ainda relutava contra aquele casamento e rogava para que sua ausência na chegada dos Kwon fosse ofensiva ao ponto de não quererem mais aquela união. Pena que enganou-se com isso, pois os demais pareceram não se importar sequer um pouco com aquilo.
— Devem estar cansados, vou lhes mostrar onde podem descansar.
O sol ainda brilhava muito, a noite se demoraria para cair e Dean era inquieto demais. O ômega agora dividia o quarto com sua irmã caçula, de sua mesma casta, a garota escovava seus longos cabelos escuros enquanto observava seu irmão olhar pela janela como quem procurava por algo, o conhecia suficientemente bem para saber que Dean estava prestes a fazer algo errado.
Algo errado, era assim que Danish se referia às vezes que seu irmão saía escondido, ou quando lia livros proibidos por seus pais. Dean gostava de aventuras que não eram adequadas para ômegas, especialmente para ômegas ainda solteiros e que pertenciam a boas famílias com renome.
— Para aonde você vai? — ela indagou assim que viu seu irmão cobrindo-se com o capuz, a capa marrom e simples era seu disfarce favorito — Dean, omma disse que não deveríamos sair por aí sozinhos, nem conhecemos a Cidade direito.
— Não vou para a Cidade.
E fora no sorriso cheio de malícia que Danish se deu conta de que seu irmão realmente faria algo errado.
Tinha seus motivos, eram coisas que não poderia confiar a ninguém e precisava resolver sozinho. Pegou um dos cavalos pertencentes a comitiva de sua família, ainda estava selado, algo que adiantou sua partida. O portão permanecera aberto o dia inteiro, pessoas saíam e entravam com comidas e bebidas para o banquete que a Casa Park ofereceria para os Kwon naquela noite.
E tudo era belo lá fora, as matas, as flores e as grandes árvores se uniam em um tapete que Dean desejava ter dentro de casa. Quase se distraíra de seu principal objetivo, ele estava procurando por Jay, e para encontra-lo seguia o percurso do rio, não tirara o olho da janela um só minuto, sabia que o alfa ainda não havia retornado para a Fortaleza, e que também não havia ido na direção da Cidade. Ele ainda estava no rio.
Sorriu ao avistá-lo ainda de longe, mesmo de costas não o confundiria com outra pessoa, ninguém era como ele, ninguém se parecia com ele. Mas vê-lo de perfil o fez ter ainda mais certeza de que aquele era mesmo o Park, as pinturas espalhadas pela pele eram exatamente as descritas e ele era tão belo quanto os boatos diziam. Dean procurou de todas as maneiras saber coisas sobre ele, desde sua aparência indo até seus gostos, queria conhece-lo e ter certeza de que não estava se prendendo em um alfa que não seria bom para ele.
Porque ser um ômega não o obrigava a se casar com qualquer um.
Deixou o cavalo longe, e se favoreceu do som das águas correntes para não ser percebido. Despiu-se e escondeu suas roupas entre as pedras, e sem que Jay percebesse — ou fingisse não perceber —, entrou também no rio e nadou em sua direção.
— O que está fazendo, ômega?
Como o esperado, ele logo notou sua aproximação. Dean ainda estava a poucos metros de distância, mantinha-se no mesmo lugar enquanto encarava o Park.
— Eu vim tomar um banho, senhor.
E por mais que seu rosto belo e inofensivo aparentasse sinceridade, seu tom de voz expressava outra coisa. Mas de todas as formas alfas não pensavam como ômegas, eles sempre viam as coisas pelo lado mais obsceno delas, e não era considerado “decente” que um ômega se despisse completamente ao tomar banho sozinho em rios, para que ocasionalmente alguém visse sua nudez.
— Estas terras me pertencem, não pode simplesmente as invadir. — Jay parecia estar a repreendê-lo, mas os olhos fixos em rosto não diziam isso — Além disso, há rios mais próximos da Cidade, veio tão longe apenas para se banhar? Eu diria se tratar de algo exagerado.
Claro, ele não era burro, desconfiaria que aquele ômega queria bem mais do que apenas nadar longe dos olhos das outras pessoas, havia lugares bem mais adequados para fazer aquilo.
— Ouvi dizer que a água era mais limpa aqui. — era o melhor que conseguia pensar naquele momento — E também que eu encontraria companhias melhores do que as que tenho costumeiramente.
Sua voz, sua aproximação lenta, porém não disfarçada, tudo naquele ômega dizia o que ele queria, pois aparentemente queria que o outro visse e entendesse. Dean sabia que todos os alfas possuíam o mesmo ponto fraco, e que sempre acabariam caindo na mesma armadilha.
E o pior de tudo, eles gostavam de cair.
Agora estava bem perto, ao alcance das mãos alheias, que talvez já impaciente e sem conter a si próprio, apertava sua cintura por baixo da água. As mãos de Jay eram ásperas, calejadas pelo atrito causado pelo punho da espada, que provavelmente era segurada ainda com mais força nas tão perigosas — e excitantes — batalhas. Dean pensava em muitas coisas quando um alfa o tocava, buscava em sua mente todos os prováveis lugares onde aquelas mãos já estiveram.
E as mãos de Jay contavam histórias incríveis.
— Eu não conheço você. — o Park disse ao observar bem de perto seus detalhes — Me lembraria se já tivesse o visto.
— É de seu hábito se deitar com quem não conhece? — o questionou.
Dean precisava ter essa informação.
E Jay, descendo a boca na direção de seu ouvido, sussurrou:
— Nem sempre é preciso estar deitado para fazer isto.
E o que pensar a partir dali? Dean tinha o direito de detestar seu noivo por ser promiscuo a esse ponto, porém não foi isso que aconteceu. O ômega usou da praticidade da água para impulsionar o corpo para cima, e rodeando os braços ao redor do pescoço do outro poder beijá-lo. Não da forma casta em que — aos que se diziam puritanos — ômegas beijavam, Dean sabia o que estava fazendo e sabia muito bem como se ateava fogo em água.
Depois tudo aconteceria como mandava a natureza, um corpo se liga ao outro e não há mais como parar. Jay não pensava mais em parar, e parar nunca passou pela cabeça de Dean. O alfa o segurava ainda com mais força pela cintura, roçando seus corpos e os deixando excitados.
— Com que família terei problemas? — o Park o questionou, mas não o soltara.
— Não terá problemas.
Jay o levou na direção das pedras para ter um apoio maior e o virou de costas. Dean gostou da forma bruta como ele fazia isso. Gostava de suas mãos ásperas e de sua respiração quente batendo contra sua nuca e lhe causando arrepios pela espinha. E também gostava de senti-lo esfregar contra suas nádegas, o deixando cada vez mais ansioso para tê-lo inteiro por dentro.
E Dean tinha um gemido que faria qualquer alfa perder a cabeça.
Sentiu a ponta das presas quase perfurarem sua língua, não só seu corpo o desejou naquele momento, como também seu lobo, o desejou tanto que seus instintos imploraram para que ficasse com aquele ômega para sempre, que o marcasse bem ali. O interior do Kwon era quente e o apertava de uma maneira desumanamente prazerosa, era quase surreal se sentir assim.
O ômega se empurrava em sua direção de um modo que o fazia ir ainda mais fundo, Jay o apertava pela cintura com uma força que certamente deixaria as marcas de seus dedos por muitos dias ali, todavia, o menor parecia não importar-se com isso, pelo contrário, gemia alto sempre que era segurado com mais força.
— As pedras estão me machucando. — o mais novo reclamou ao escorregar o braço e arranhá-lo.
Mas Jay não se deu ao trabalho de responder, apenas trocou sua posição com a dele e deixou as próprias costas para se arranharem, ele não se importava com aquilo. O ômega apoiou as pernas ao redor da cintura do outro e segurou-o pelos ombros, gostava daquela posição. Usava a força dos braços para subir e descer enquanto o alfa apertava suas nádegas. Ele era possessivo.
Alfas eram possessivos, era a natureza deles.
Todavia, ômegas também tinham seus caprichos, seus desejos e gostos. E Dean gostava de olhar diretamente para seus olhos, de manter o rosto perto e admirar todos os seus detalhes enquanto fodiam, pois naquele momento, aquela expressão era só sua, Jay era só seu.
— Vamos sair da água. — o alfa o avisou poucos segundos antes de leva-lo junto, sem perder tempo de se separarem.
E fora da água as coisas ganharam um novo ritmo.
As costas do Park agora arranhavam contra a grama, mesmo lugar onde os joelhos do ômega eram maltratados, mas nenhum deles se importou com aquilo naquele momento. Desejo sempre fora o melhor veneno para se fazer perder o juízo, e o melhor remédio para ignorar qualquer dor. A pequenas pedras se prendendo contra sua pele não se comparavam com a visão que tinha do mais novo subindo e descendo sobre seu p*u, apoiando as duas mãos sobre seu peito.
Eram mãos pequenas e delicadas como era comum aos ômegas, mas as unhas afiadas perfuravam sua pele de uma maneira prazerosa, o fazendo querer estar ainda mais fundo. Dean sabia o que estava fazendo, controlava sua velocidade o deixando cada vez mais louco junto a sua ansiedade e vontade de ter mais. Gemia arrastado e hora ou outra descia até sua boca para o morder os lábios.
— Onde aprendeu a fazer isso?
O ômega riu da perguntou e apoiou os cotovelos e braços sobre o peito do ruivo de um modo que seu rosto ficasse bem perto.
— Você vai preferir não saber.
O Park ergueu o corpo e o abraçou com um dos braços, o peito do menor se colava ao seu. Dean o abraçou de volta e aproximou a posição para morder sua clavícula sem pena nenhuma, algo que fez o ruivo grunhir alto. E tudo acabou ali, logo após Dean ter gemido alto enquanto gozava. Jay não conseguiu se conter diante dos gemidos altos do outro, e quando gozou, atou dentro do mesmo.
— Merda. — ralhou ao notar o que havia feito — Me desculpe.
— Não há problema, estou muito longe do meu cio, as chances são muito baixas. — o que era um fato conhecido por todos, mas tudo era como mandava a vontade dos deuses — E eu gostei disso, te fiz perder a cabeça, isso é bom.
O alfa riu.
— Quando posso vê-lo de novo?
Era bem ali que Dean queria chegar, ele havia o fisgado e agora tinha as palavras certas para usar contra ele quando chegasse a hora.
— Ouvi dizer que irá se casar. — comentou querendo parecer desinteressado, dando a impressão de que nada tinha com aquele assunto.
— Mas ainda não me casei.
— Um noivado já é um compromisso, Park, você deveria ser fiel ao seu ômega.
O ruivo sorriu de lado, mordeu o ombro do mais novo e chegou ainda mais perto de seu rosto. Lindo, ele era lindo, e o alfa poderia olhá-lo por longas horas e a beleza só parecia aumentar mais. Se perguntava onde aquele ômega havia se escondido esse tempo todo, conhecia quase todos os ômegas belos da Cidade, e alguém como ele certamente continuaria em sua mente.
— Mas de todas as formas, eu preciso ir. — o ômega se mexeu e ao notar o nó já desfeito, desvinculou-se do ruivo.
Precisou voltar ao rio para tirar a presa pelo corpo, não poderia retornar daquela forma, pois levantaria muitas suspeitas.
— E por que a pressa? — o alfa lhe questionou, Dean pareceu afobar-se quando o sol começou a baixar, logo anoiteceria.
— Tenho um compromisso importante, preciso me arrumar. — vestia-se rapidamente, escolhera um vestido complicado de se colocar sozinho, e estava apressado demais para pedir que o outro o ajudasse. Jay continuava o encarando, arqueou uma das sobrancelhas em uma pergunta muda — Meu sogro oferecerá um banquete, hoje é o meu noivado.
O outro riu surpreso.
— Vai ficar noivo e está aqui se deitando comigo?
— E você não faz o mesmo? — o ômega desdenhou — Ao menos sei o seu nome, e você sequer se deu ao trabalho de perguntar o meu.
O ruivo era obrigado a dar o braço a torcer, o ômega estava certo, havia se esquecido de perguntar seu nome, algo que soava muito ofensivo, e dera conta disso apenas agora.
— E como você se chama?
Mas o ômega de longos cabelos negros ignorou momentaneamente a pergunta, terminou de se vestir e seguiu caminho até onde deixara seu cavalo. O ruivo o acompanhava com os olhos, ainda parado no mesmo lugar. Dean montou o animal e deu meia volta até ali, passando bem próximo dele.
— Você já sabe, alfa, apenas não ligou o nome à pessoa.
[... Herança dos Alfas ...]
— Por que tem estado tanto aqui?
Hoseok encontrara Hyungwon em sua casa novamente, desta vez nos estábulos, ele estava sozinho e parecia pensativo sobre assuntos que o ômega não poderia adivinhar. O Chae virou-se para ele, mexeu a boca de um lado para o outro como quem cortava as próprias palavras. E talvez ele fizesse isso, medisse bem o que diria para o Kim, para ter certeza de que no fim suas palavras deixariam o ômega encurralado de novo.
— Eu vou remodelar os estábulos. — era obviamente uma desculpa esfarrapada — Estão de tamanhos desproporcionais, um diria que um serviço feito às pressas ou de má vontade.
— Está mentindo!
— Estou. — confessou com um sorriso nos lábios, o mesmo sorriso que Hoseok descobrira detestar — Mas como não sou seu escravo ou até mesmo seu empregado, eu não lhe devo satisfação nenhuma sobre o que faço da minha vida ou deixo de fazer. — deu um passo para mais perto, tocou o rosto do Kim e o encarou nos olhos — A não ser que se case comigo, sendo seu marido eu vou lhe dever satisfações.
O ômega empurrou a mão do outro para longe.
— Você não é o centro do mundo, Hoseok, o que estou fazendo aqui não lhe afeta em nada. — e isso era verdade em partes, mas conhecendo bem o ômega, ele arranjaria uma forma de afetá-lo — Mas você vai saber logo, não é nenhum segredo, na verdade, eu acho que todos até já sabem, menos você.
— E por que esconderiam algo de mim?
— Porque você faz um escândalo por qualquer coisa.
Hoseok muito se ofendeu com aquela frase, para ele, não passava de uma acusação descabida. E se encheu de raiva naquele momento, assim como normalmente se enchia. Hyungwon o conhecia o suficiente para saber o que viria a seguir, já pronto para ignorar o turbilhão de palavras sem freio.
— Eu não faço escândalo! — gritou — Tudo o que faço da minha vida é lutar pela liberdade dos ômegas, e você tenta me reprimir!
Ele havia dito as palavras erradas.
— Lutar? Francamente, Hoseok, tudo o que você faz é berrar e berrar. — aparentemente, o Chae chegara ao seu limite naquele segundo — Diz que ômegas devem ser livres para se expressarem e fazer suas escolhas, mas para isso você anda por aí montado em um cavalo, pintado de alfa e com palavras arrogantes na boca. — o alfa o olhou bem nos olhos, respirou fundo — Sabe o que você se tornou? Um ômega rico e mimado, que se acha no direito de pisar em quem quiser.
— Isso é men-
— Mentira? — debochou — Você sempre diz as mesmas coisas, tudo porque não consegue aceitar que um “ômega nobre e rico” se apaixonou por um “alfa que não tem nada”.
— O que está dizendo?
— Pare de agir como se me odiasse. — seu tom se acalmou, os olhos ainda fixos mudavam a expressão para uma serena, quase como se o Chae falasse com um animal selvagem — Você não me odeia, nem odeia seus sentimentos, tem medo deles.
— Eu... não estou entendendo.
Talvez palavras não pudessem ser suficientes. Hyungwon se aproximou calmo, e delicadamente juntou seus lábios aos dele, em um toque leve, apenas sentindo a maciez um do outro. Hoseok demorara até entender, mas seus olhos se fecharam sem que percebesse. E quando se deu conta, se afastou abruptamente.
— Hoseok.
Mas o ômega não quis escutar e nem entender. Correu de volta para dentro de casa com o coração martelando dentro do peito, batia tão alto que tinha medo de que o outro escutasse. E quando se se viu longe o suficiente, oculto dos olhos do Chae, tocou seus lábios e sorriu.
Sentiu-se feliz e confuso.