Cerimonias fúnebres carregavam o cheiro da dor, esse era o normal a se esperar delas, todavia, aquela estranhamente parecia apática. As pessoas não choravam como normalmente ao perderem um ente querido, e nem se alegravam como normalmente ao ver um inimigo morto. Tudo parecia apenas morno, morno e com o gosto do mar salgado em suas bocas.
O Rei estava envolto aos seus guardas, ele deveria ser protegido em um provável momento de fraqueza seu, afinal, seu tio estava agora sendo carregado pelas águas do mar, porém ele próprio não parecia se importar minimamente com isso. Os demais parentes, a poderosa família Real, apenas permanecia em silêncio, sem lágrimas, sem sussurros, sem soluços e um estranho espanto em seus olhos, provavelmente surpresos pela morte repentina de alguém que adoecera da noite para o dia.
— Por que as pessoas não estão chorando? — o loiro, já impaciente diante da própria curiosidade, não segurou a pergunta em sua garganta — Jay, ele era seu tio também, você sabe de alguma coisa?
Aproveitava-se de estarem próximos à multidão de curiosos — muitos guardas também estavam, precisavam evitar que se aproximassem muito, a cerimônia de despedida deveria ser respeitada, além de que multidões facilmente escondiam espiões ou prováveis inimigos vindos para um ataque surpresa —, estes sim sussurravam aos muitos, perguntando uns para os outros o motivo da falta de pranto da família do que partira.
— Tudo o que sei é o que vivi, tio Jisung não era o dono do melhor coração do mundo, ele tinha defeitos o suficiente para afastar quase todos e provocar essa apatia em sua própria partida. — o ruivo fez uma careta, não tinha tantas memórias assim com o tio, e nenhuma das que tinha eram boas — Ele era uma pessoa difícil, mas aqui não é um bom lugar para falar, os ouvidos errados podem ouvir.
Quando as ondas o engoliram, não hesitaram em logo partir, os guardas acompanharam o Rei e seus filhos de volta para o Castelo, e os demais se dissiparam com suas próprias comitivas. A família Kim era grande, a maior em todo o reino, algo que deixava bem nítido o quanto muitos haviam se negado a participar, os que ali estavam davam para serem contados rapidamente. Ravi e Jay ainda seguiram os demais guardas até os arredores do Castelo, parando apenas quando o Rei cruzou as grandes portas.
Parou. Seus olhos se prenderam nas portas douradas e ficou a imaginar como seria a vida ali dentro, todas as regalias e o conforto, além de ter o que mais era sonhado na vida de alguém que cresceu nas ruas: Respeito. Ravi era mais velho que os filhos do Rei, lembrava-se de muitas coisas da infância dos mesmos, lembrava-se de como eram tratados como vasos de vidro, sempre acompanhados por enormes comitivas e tantos guardas que a sua tenra idade ainda não sabia contar.
Ele era muito diferente.
— Parados assim tanto tempo quase me faz pensar que estão tramando alguma coisa contra a vida do Rei.
Alguém interrompeu seus pensamentos. Virou-se para logo depois baixar a guarda, não poderia ser uma acusação séria quando se vinha de alguém tão próximo. A Xiao deu um passo pequeno para trás com o cavalo, sorriu ladino e riu baixo do susto que dera no outro.
— Me disseram que estava morta. — comentou a fim de mudar o jogo — Uma lança no meio da cabeça.
— Sua b***a que deve estar morta. — a mulher responde já dando meia volta com o animal que montava, propositalmente fazendo o mesmo jogar a calda na direção do ruivo — Vamos beber um pouco, o defunto não levou a bebida toda com ele.
Os demais não se demoraram em a seguir.
Jay, mesmo sendo um parente próximo, não se importava ao ponto de optar pelo luto, aliás, luto era algo que não se via em nenhum deles. E o bar carregava emoções bem diferentes, os bêbados cantavam canções abarrotadas de palavras feias e frases que não deveriam ser ditas em dias sóbrios, todavia, não havia quem perdesse seu tempo se importando com canções de bêbados.
Somin fora a primeira a pedir para que lhes servissem algo, a mesma cerveja com gosto r**m que serviam em bares m*l frequentados como aquele.
— A cerveja daqui tem gosto de mijo de cavalo. — o ruivo fora o primeiro a reclamar, já no primeiro gole, porém não a cuspiu — Por que viemos para esta porcaria de lugar?
— Gosto daqui. — em partes era verdade — Eu diria que a cerveja daqui tem gosto de realidade, é barata, fede, mas depois da terceira caneca já estamos tão bêbados que não faz mais diferença nenhuma. — ela disse logo após cheirar o copo e caretear — Além disso, me lembra das noites frias e tediosas nos acampamentos, de quando roubávamos a bebida que restava no fundo dos cantis dos generais enquanto eles dormiam, só tinha o gosto da baba daqueles velhos imundos.
Ambos riram alto, era uma memória terrível para se ter, porém era bom rir do que já havia passado. As histórias sempre melhoravam com o passar do tempo, e o que era trágico se tornava algo engraçado a se recordar.
— Era nojento. — no fim a frase pairou — Mas o que Jay tem se trata do típico “alfa de família rica acostumado apenas com o que é bom”, alguém como eu, sangue de percevejos, engole qualquer bebida, todas ficam iguais dentro do estômago e mijo do mesmo jeito logo depois.
O ruivo fez uma careta, o gosto da segunda caneca ainda era r**m como a primeira.
— Não é como se a minha vida fosse a mais fácil do mundo, só porque sou primo do Rei não significa que tenhamos grandes proximidades e nem que eu ganhe muitos favores. — em partes ele falava a verdade, por mais que seu futuro título de Lorde já lhe estivesse garantido — No fim, todos têm problemas, independente de onde nasceu e cresceu.
— Os que chegam a crescer.
A frase de Ravi soou seca e morna, era a maior verdade já dita naquela noite.
— Mas você teve sorte. — disse a mulher, moveu as mãos muito rápido, a bebida dançou no copo — Foi treinado por um Wu, sabe lutar, tem uma vida boa agora.
— Mas ainda é a vida de um bastardo, sem nenhum direito.
Órfãos e bastardos era regidos por leis diferentes, uma lei mais dura e com poucos direitos, sendo ainda mais difícil quando se tratava de bastardos os quais todos conheciam os verdadeiros pais. Viver uma vida assim era muitas vezes degradante, era como pisar em ovos, pois a qualquer momento um erro pequeno o botaria atrás das grades, ou até mesmo no caminho da forca. O Rei era ocupado demais, muitas vezes as pessoas eram julgadas longe de seu conhecimento, e condenadas sem que sequer ele soubesse disso.
O mundo era um lugar corrupto.
— Você é um bastardo? Pensei que fosse órfão.
Só depois da frase do amigo, que Ravi se dera conta do que havia dito. Aparentemente aquela cerveja poderia ser r**m, porém era forte o suficiente para lhe fazer baixar a guarda tão rápido.
— Ah, não faz diferença. — e no de tudo, não fazia — É a mesma porcaria de vida.
— Por que nunca nos contou isso? — Somin lhe questionou, esse era o tipo de informação que as pessoas não ignoravam, e não faria tanta diferença se ele houvesse dito em algum momento. Já os conhecia há muitos anos, uma vida inteira, porém lhes negara essa informação sobre si — Quer dizer, você sabe quem são seus pais?
A verdade era que ele não sabia ao certo, todo o seu conhecimento sobre o passado vinha de sua avó e das coisas que ela lhe contava. Ouvira muitas vezes que seu appa havia lhe abandonado por pura maldade, porque o odiava e o queria morto, porém não se recordava de algum nome, sequer a que família ele pertencia. Ela dissera algumas vezes, porém sempre sobrenomes diferentes, deixando sua cabeça confusa.
E no fim, 20 anos depois de sua morte, ele não sabia mais quais memórias eram as verdadeiras. Mas de todas as formas isso não importava, seu ódio e seu objetivo principal eram os Park, seus descendentes e o único que ainda carregava esse sobrenome.
Os Park iriam desaparecer para sempre.
— Não, eu só tive uma avó, mas era morreu há muito tempo. — não havia outra história, de todas as formas a verdade já ajudava — Ela falava sobre a morte da minha mãe e do sumiço do meu pai logo depois, ele era casado, tinha outro filho, um legítimo.
Seu rosto mudou para a mais pura amargura.
[... Herança dos Alfas ...]
— Queria falar comigo, Appa?
Taehyung parou próximo à porta, logo após o jantar seu pai havia lhe dito que precisavam conversar. Quando subiu as escadas ele sabia qual era o assunto exato a ser conversado, e já vasculhava em sua mente alguma desculpa que fosse realmente ajudar em algo.
O mais velho apontou a cadeira, seria uma conversa longa aparentemente.
— Como bem sabe, Hyunwoo já se casou, Yuri está em um relacionamento e Kihyun com o casamento marcado. Você já sabe o que eu quero dizer.
O beta balançou a cabeça afirmando lentamente, ainda pensava em qualquer desculpa, alguma coisa que convencesse seu pai de que ainda não era uma boa hora. Mas ele já tinha 27 anos, betas no geral se casavam com essa idade, especialmente quando tinha pretensão de se casarem com alfas. Seguir a ordem de nascimento se tornara uma tradição dentro da família, e Taehyung era o quarto filho, o próximo nesta lista.
— Sabe que eu nunca obrigaria vocês a algo que não querem. — suas frases sempre começavam assim, Seokmin colocava seus filhos acima de qualquer coisa, algo que incluía seus desejos e ambições. Tudo o que tinha seria deles um dia, tudo era para eles, para que ficassem bem depois que o Lorde partisse para Valhala — Quero conhecer suas vontades, suas ambições, e o mais importante, se está pronto para isso.
Pronto para se casar e construir a própria família? Não, ele não estava.
Não era como se Taehyung tivesse medo de algo, ele simplesmente não queria se ver preso a alguém pelo resto da vida, não agora, ele ainda tinha muito o que viver antes disso. Mares para navegar, pessoas para conhecer, amores para amar e o que mais a vida lhe pudesse oferecer. Não, casar não, agora não. Mas dizer isso de um modo que a “sua vez” fosse simplesmente pulada e ignorada pelo tempo que quisesse.
É claro, Yuri.
— Eu... — não era o melhor mentiroso do mundo quando se tratava de falar com seu pai — Eu estou em um relacionamento, gostaria de me casar apenas quando nós dois estivéssemos prontos.
Seokmin mudou para uma expressão surpresa, porém sorriu logo em seguida.
— Isso é ótimo, é um ômega?
— Um alfa.
A surpresa no rosto de seu pai estava maior ainda.
— É um pouco inesperado, mas se você está feliz, eu também estou.
Taehyung queria testar seu appa, Lorde Seokmin era um homem bom, todavia, seu filho ainda não sabia até onde ele conseguia ir. O Wu era ambicioso, cheio de estratégias e buscava casamentos com grandes alianças, ou um que lhe fornecesse no mínimo um exército. Mas como ele ficaria ao se deparar com alguém que nada tinha a oferecer senão a si próprio?
— Appa. — o chamou — Meu alfa é simples, não pertence a uma Casa importante, tudo o que tem é fruto de trabalho duro, ele não tem nada que possa enriquecer nossa Casa.
O Lorde o olhou sério, chegou a assustá-lo por alguns segundos. Seria ali o ponto onde tudo acabava? As pessoas o elogiavam, sempre foi presente na vida dos filhos, mesmo tendo tantos. Seokmin tinha muitas qualidades e muitos defeitos também.
Mas o que realmente era o mais importante para ele?
— Você está feliz?
— Estou.
— Então não há mais o que ser dito, ele será muito bem-vindo à nossa Casa. — e então, sorriu gentilmente, algo que tranquilizou o outro — Mas eu quero conhecê-lo, traga-o para jantar conosco.
E Taehyung agora tinha um novo problema para resolver.
[... Herança dos Alfas ...]
— O que está fazendo?
O Castelo era grande o suficiente para que muitos cômodos abrigassem apenas mesas com garrafas cheias de bebidas, onde muitas vezes alguém se sentava e perdia a noção do tempo ali. Este fora o caso para Hongbin naquela noite, onde foi parar pouco depois da cerimonia fúnebre em que fora arrastado mais cedo. O príncipe herdeiro estava jogado sobre a cadeira, esquecendo-se da manter a postura que fora ensinado a ter a vida toda.
— Estou de luto, me deixe em paz. — disse ao irmão — São dias tristes nessa casa.
— Você nem gostava do tio Jisung. — Yuvin contrapôs.
— Não estou falando do tio Jisung. — o mais velho serviu mais uma taça de vinho e a esticou na direção do irmão, que a recebeu — Falo da minha vida, eu estive pensando, vou me casar e me tornar Rei, deveria estar muito feliz com isso, por que não estou?
O outro deu de ombros, ele também não entendia. Qualquer um estaria, ser Rei era tudo, era o auge do poder absoluto. E por fim, acreditou que o problema em si fosse o casamento.
— Conhecemos seu noivo há alguns anos, tem algum problema com ele? — lhe questionou, Yuvin puxou a outra cadeira — Ele não é feio, e você prefere betas, ele é um beta.
Hongbin fora prometido há alguém há muitos e muitos anos, logo após o nascimento do rapaz. No passado, Lim Yoonah ficou ao lado de Mingyu quando o mesmo se tornou Rei, e em gratidão a mesma, lhe prometeu que um dia seus filhos se casariam. Lim KookHeon iria se casar com Hongbin assim que chegasse aos 26 anos, algo que recentemente havia acontecido.
— Não quero decepcionar o Appa. — o disse — Ele não merece isso, eu já fui errado a minha vida toda, só fiz merda atrás de merda, não deveria ser Rei, você que deveria.
— Mas se você nasceu primeiro, é porque essa é a vontade dos deuses e nós devemos respeitá-la. — o outro argumentou — E não fale assim, não é como se eu nunca cometesse erros, não sou a pessoa perfeita que você e os outros andam idealizando.
Yuvin era o oposto de Hongbin em tudo, algo que fazia seu irmão acreditar que se ele era coberto de defeitos, significava que o outro era coberto de qualidades. E de todas as formas, Yuvin sempre foi o gêmeo responsável, o que fazia suas obrigações e não perdia tempo com coisas inúteis.
Então sim, Hongbin via seu irmão como alguém perfeito.