A Fortaleza Park fora construída para servir de abrigo ao que em breve se tornaria uma família poderosa, tanto Minhyuk quanto Myungjun investiram tudo naquele lugar, o erguendo da base até a mais alta torre. Minhyuk queria que Jay desse valor àquele lugar, que entendesse que além de suor e dinheiro, muito amor havia sido posto ali. O beta Park falecera antes que pudesse vê-la construída, mas agora, depois de pronta, seu marido sentia como se ele ainda estivesse com eles, observando tudo parado ao seu lado.
— Ame esse lugar, Jay, seu appa deu seu sangue para que fosse erguido, estar aqui é como estar com ele de novo. — Minhyuk insistia nas mesmas palavras já ditas milhares de vezes — Respeite o que será a sede da Casa Park, o símbolo de algo que quase se perdeu, porém foi reerguido.
— Eu irei respeitar, omma.
Se acostumara ao omma, sentia-a mais próximo de Jay do que até mesmo de seus outros filhos.
— E tem mais uma coisa. — os passos do mais velho se cessaram já debaixo da sombra — A família de seu noivo nos fará uma visita para oficializarmos o compromisso, marcar uma boa data e acertas os pormenores, além de que será bom para que o conheça, Kwon Dean é um ômega excelente, tenho certeza que se agradará muito dele.
O ruivo sempre aperreava-se quando o assunto era este. O sol começava a se pôr, o céu estava bonito e a luz se refletia nas pedras polidas e claras das paredes do lugar. Era bonito de se ver, mas aquilo não o acalmava de maneira nenhuma.
— Pelo menos, pode me dizer como ele é?
— Inteligente e corajoso.
Jay detestava aquele mistério, não lhe custava nada que seu omma lhe revelasse de vez a aparência de seu noivo. Seria bem melhor se fosse assim, evitaria um provável olhar de decepção ou apavoro quando o visse, e já estaria previamente preparado para o que iria enfrentar pelo resto de sua vida. Imaginava alguém com a estrutura de um búfalo, ou que fosse tão magro que os ossos lhe sobressaltassem na carne. Olhos muito separados, ou juntos demais. Cabelo sedo ou cheio de sebo. Alguém que cheirasse a pão velho.
Em sua mente, seu noivo se abarrotava de defeitos.
— Chegarão em cinco dias, até lá não se deite com nenhum ômega, ter o cheiro de alguém impregnado na sua pele irá ofender os Kwon. — o mais velho, já conhecendo o filho, advertiu — Tenha respeito por eles, tenha respeito especialmente por quem dividirá sua vida.
— Tá, tá, eu sei.
Ele era desrespeitoso, longe de ser o que Minhyuk esperava. Criara Jay para se tornar um perfeito Lorde um dia, para que estivesse pronto para dar continuidade ao nome de sua família. Mas ele ainda imprudente, impulsivo e cheio de vícios aos quais precisaria abandonar. Alfas jovens eram inconsequentes, mas o ruivo estava a um passo de se tornar um alfa casado.
E isso atormentava a ambos.
— Jay... — o mais velho suspirou — Só não machuque os sentimentos de Dean, pode parecer que ele não se importe, mas ele se importará com e se magoará com suas atitudes impensadas.
E o que mais poderia dizer? O Park não era má pessoa, tinha seus defeitos, mas não procuraria machucar seu noivo de propósito. Ainda não o entendia, a forma como seu omma descrevia Kwon Dean era um tanto quanto diferente, e dizer “poderia parecer que ele não se importasse” era algo incompreensível no momento. Ômegas eram ômegas no fim das contas, e Jay sabia muito bem como agradá-los.
Mas ao mesmo tempo, já partira muitos corações.
Os soldados, ou a maioria das patentes, tinha como uma de suas funções estarem sempre em patrulha pela cidade. Os tempos variavam entre eles, e os nobres não eram obrigados a gastar muito de seu tempo naquilo, mas Jay gostava de ver o movimento das ruas, as pessoas correndo sempre de um lado para o outro. Também gostava de se meter em brigas.
Já era quase noite, o movimento diminuía por aquelas horas, mas o mercado ainda funcionava, com dezenas de bancas a vender as mais variadas coisas, o comércio era algo que não podia parar.
— O que aconteceu com você? — o ruivo questionou assim que pôs os olhos sobre seu melhor amigo, Ravi, que de sobre o cavalo mantinha um dos braços dentro de ataduras — Some por algumas horas e volta aos farrapos, tão velho e machucando-se como criança.
O loiro murmurou uma maldição, algo que fez o outro rir.
— A porcaria de uma flecha quase arrancou meu braço fora. — ralhou, sentia a dor sempre que se recordava disso — Mas os deuses foram bondosos em enviar alguém para acalmar minhas dores a noite inteira.
Foi só então que os olhos de Jay acompanharam o ponto onde Ravi olhava. Hakyeon perambulava pelas bancas mesmo já passando da hora em que os ditos “ômegas de família nobres” se recolhiam, tendo ao seu lado seu fiel Jaehwan, que tagarelava sobre algo indistinguível no meio da multidão. Seu cão de guarda, Hyuk, não o acompanhava naquele fim de tarde, algo que o loiro via como um golpe de sorte.
Contara nos dedos as vezes que viu Hakyeon sem seu guarda.
— Estou curioso para saber como isto aconteceu. — o Park confessou com um meio sorriso — São duas pessoas que dificilmente frequentam os mesmos eventos.
Ravi era diferente de Hakyeon não só por serem alfa e o outro ômega, mas também por viverem em dois mundos completamente opostos, em classes sociais muito distantes uma da outra. O loiro poderia ser um espadachim famoso na cidade, mas isso nunca mudou o fato de ser ele alguém sem nenhum sobrenome, e pertencer a uma Casa importante era sempre o primeiro requisito para estar em posições importantes.
Sangue de percevejos, para sempre seria sangue de percevejos.
— Me ajude a deixá-lo sozinho e conto os detalhes.
Talvez Jay fosse mesmo alguém muito chegado a ouvir as histórias alheias, ou simplesmente quisesse ajudar seu amigo. O que acontece é que prontamente o ruivo desceu do cavalo, e logo após trocar umas poucas palavras com Jaehwan, já o arrastava para qualquer lugar afastado de Hakyeon.
Era seu dia de sorte.
Sorrateiramente fora até o ômega, que se distraía olhando para uma banca de flores. O alfa havia chego por trás, esticando o braço bom e ponto na frente de seus olhos uma linda pulseira de pedras azuis. O Zhang se assustou pela aparição repentina, mas logo acalmou-se em sentir o cheiro que se fixara em sua memória desde o ocorrido da última noite.
— Eu queria te dar um presente, para agradecer o que fez por mim. — começou a falar antes mesmo que o mais novo lhe pedisse uma explicação — Gostaria que ela tivesse um belo significado, como uma joia de família, mas é saber de todos que nasci sem uma.
Hakyeon segurou a delicada pulseira em suas mãos, era uma joia bonita, de traço fino e brilhava como só o ouro puro brilharia. Ravi poderia ser alguém sem Casa, mas isso não o impediu de adquirir suas próprias riquezas entre os despojos de guerra.
— É muito bonita. — e no fundo, sabia que não deveria aceitar presentes de alfas estando comprometido, mas aquela pulseira o ligava a alguém por quem seu coração batia rápido demais para conseguir recusar — É como o mar.
Os Zhang adoravam o mar.
— Ela combina com você.
O alfa não perdeu tempo em prendê-la ao pulso do mais baixo, que não parava de admirar. Zhang Hakyeon poderia ter a joia que quisesse, mas aquela lhe pareceu ser a mais bela do mundo, seus olhos brilhavam de um jeito especial, transparecendo a paixão já não mais contida.
— Obrigado. — Hakyeon recolheu as mãos junto ao corpo, sorriu já com pouca discrição, o loiro podia ver quase todos os dentes de sua boca — Mas não precisava me dar nada, já disse que o ajudei porque o certo a se fazer, não por recompensas.
— Eu sei disso. — o velho sorriso pela metade estampava seu rosto, os olhos diminuíam de tamanho de um modo que deixava seu rosto, já muito bonito, ainda mais atraente — Mas eu precisava de uma boa desculpa para me aproximar de você novamente.
Aquela frase pegara o menor de surpresa, a boca se abriu sem perceber e qualquer coisa que procurava para falar parecia fugir de sua garganta.
— Ah, bem... — sorriu sem graça, quase dissera o quanto ficara feliz.
— Nós nos veremos em outros momentos. — queria ter falado mais coisas, porém avistava de longe Jaehwan praticamente arrastando Jay de volta — Até mais, Zhang Hakyeon.
— Até mais.
Enquanto o observava se afastar, Hakyeon apertava com força a pulseira em seu braço com a enorme certeza de que não a tiraria por nada nesse mundo. Obviamente que precisaria de uma boa desculpa quando lhe perguntassem sobre ela, porém deixaria para pensar naquilo depois, pois naquele momento tudo o que se passava em sua mente eram as imagens repetidas do que acabara de acontecer.
[... Herança dos Alfas ...]
Jooheon parecera acuado depois de sua comitiva ter ido embora, em partes ainda não se acostumara com a ideia de ter se casado, mesmo amanhecendo dia após dia ao lado de Hyunwoo. O Wu era um bom marido, o tratava bem e isso o deixava feliz, estava de longe de a brutalidade que seus primos lhe cochichavam quanto ainda estava em sua casa em Templos.
Hyunwoo tinha um sorriso doce, palavras bonitas e uma forma um tanto agressiva de lhe mostrar noite após noite o quanto o desejava.
— Você parece ansioso. — não se assustava mais quando Kihyun aparecia de mansinho, aos poucos se adaptava com as aparições silenciosas de seus cunhados — Meu irmão vai voltar pra casa, pode ficar calmo, as coisas dele ainda estão aqui.
Jooheon olhou de canto de olho para o outro, que ria.
— Meu marido disse que me traria um presente hoje, estou curioso.
Durante os longos anos de noivado, aos quais não viam um ao outro, frequentemente recebia presentes advindos da família Wu, e todos eles lhe eram especiais e acendiam a pequena chama em seu peito que o fazia gostar da ideia de casar-se com Hyunwoo um dia. Aquele seria o primeiro presente que receberia após terem finalmente contraído matrimônio.
— Ele te disse o que era?
— Não, é uma surpresa.
E, de fato, fora uma grande surpresa.
Hyunwoo chegou pouco tempo depois, a noite havia acabado de cair. Trazia consigo uma égua de pelo branco, sem mancha nenhuma. Os olhos de Jooheon brilharam ao ver seu presente, já com uma sela posta para que pudesse passear com a mesma. Kihyun, sentindo-se deslocado da cena, saiu sem que os dois percebessem.
— Para mim?
— Sim, meu querido. — e lá estava novamente o sorriso pelo qual suas mãos ficavam geladas — Será bom para darmos passeios pelo fim do dia, podemos conversar e sentir o vento no rosto.
De fato, algo aventureiro ao qual sua criação não conheceu.
— Mas eu... nunca guiei um cavalo sozinho. — precisava confessar — E tenho um pouco de medo.
— Eu vou te ensinar, não precisa ter medo, ela será sua amiga.
Jooheon confiava em Hyunwoo, algo que ficava bastante claro na forma com que apenas deixou que o alfa o erguesse para cima da sela, e se sentiu calmo com uma das mãos do mesmo ainda em sua cintura. A égua deu alguns passos enquanto o Wu segurava com a outra mão em suas rédeas, e o ômega então se sentiu como um garoto com um frio na barriga prestes a viver algo novo.
Para alguém que pouco conhecia da vida, tudo parecia novo e muito bom de se experimentar.
Em sua primeira aula Hyunwoo apenas caminhou ao lado da égua enquanto a guiava pelos campos ao redor da Fortaleza, devagar para que o ômega se acostumasse com o balançar do animal. Jooheon estava adorando, mesmo parecendo ser algo tão simples.
— Você parece muito feliz. — o alfa comentou em algum momento, olhou para o mais novo e depois para a lua cheia, não sabia qual dos dois estava mais bonito naquela noite — Deveria ter te presenteado antes.
— E estou, estou muito feliz. — o disse, era impossível controlar o que sentia — Desculpe se pareço bobo aos seus olhos, mas isso é algo novo pra mim.
O Wu riu baixo.
— Você é uma criatura adorável. — ele parou de andar, virou-se para que pudesse olhá-lo melhor — Tive medo de que não fosse assim, mas muito me agrada em ver o quanto possui um coração gentil e atitudes tão simples, era isso que eu sonhava para mim, alguém que fosse como você.
— Verdade?
— Por que eu mentiria? — o respondeu com outra pergunta — Gosto de você, especialmente quando age de forma não planejada, quando é sincero com você mesmo.
O ômega sorriu sem jeito, parecia sentir-se culpado diante de todos os esforços para ser “perfeito” aos olhos de Hyunwoo, pois aquilo que o alfa enxergava como bom estava fora do manual que crescera sendo obrigado a seguir. Ele não precisou falar sobre os livros favoritos do lúpus, nem tocar na flauta sua música favorita. Não precisou tricotar algo bonito para pendurar em suas roupas e nem lhe mostrar o quanto seria um omma carinhoso.
Hyunwoo gostava de seu sorriso e suas palavras soltas, ditas sem querer.
— Você é diferente do que eu achei que seria. — o ômega confessou — Me diziam que era muito fechado, quase nunca falava e que gritaria comigo caso eu demonstrasse não saber de algo, ou agisse fora do tradicional aos ômegas. Tive medo de que o fato de eu não saber andar à cavalo fosse o chatear, que disse que eu desperdicei seu presente. Mas você não agiu assim uma só vez.
— Sabe, Jooheon, eu fico feliz em ser o exato oposto do que Lady Young colocou na sua cabeça. — o alfa mudou para uma expressão desgostosa por cinco segundos — Sinto repúdio por aquela mulher, não a quero em nossa casa, não a quero perto de você e nem dos filhos que teremos.
E Jooheon nada disse. Amava sua appa, mas não negaria mais o m*l que a mesma havia lhe feito, e ele não queria que seus filhos passassem pela mesma criação tão privada que teve.
— Hyunwoo.
— Hum?
— Gosto do jeito que você pensa.
[... Herança dos Alfas ...]
— O que está olhando?
Kihyun escorou-se na parede de pedra do muro alto ao lado do irmão, buscou a mesma direção que o mesmo e conseguiu avistar, mesmo que bem pequenos e desfocados, seu irmão mais velho e o ômega do mesmo. Sorriu ao ver aquilo, eles já haviam saído há um bom tempo, porém permaneciam perdidos demais na conversa para voltarem para casa.
— Hyunwoo parece feliz, Jooheon também. — comentou, mesmo que aparentemente Taehyung não quisesse conversar — Será que comigo será assim?
O ômega estava de casamento marcado, mas ainda não havia comentado isso com o cunhado, na verdade, eram poucos os que já sabiam, mas ocorreria em breve, e para isso fariam uma viagem longe. Iria para muito longe de sua família, viveria em uma terra estranha, mas ao mesmo tempo que o deixava nervoso, também o deixava curioso. Seu noivo pertencia a uma Casa especialista em armas, uma boa família para se ter uma aliança. Kihyun entendia seu pai, pensava como ele e estava disposto a ir para longe em busca desses objetivos.
Para o outro lado do mar.
— Depois será você. — disse a frase que Taehyung detestava ouvir nos últimos dias — Appa está procurando um bom pretendente, se eu fosse você diria logo a preferência, soube que ele está procurando alguns entre os Fong, Wen, Lim...
Taehyung deveria saber que Kihyun estava apenas tentando o irritar, pois citara as exatas famílias as quais o beta já se metera em brigas, a maioria por motivos torpes e sem importância, partindo de coisas as quais o Wu julgou como ofensivo para se e tomou satisfações por isso. Não queria ter que se casar com um qualquer de família importante, via a maioria daquelas pessoas, especialmente os alfas, como sendo os mais fúteis que já conheceu.
Poderia simplesmente dizer um “eu não quero”, mas rejeitar alguém sem um motivo era quase como declarar guerra entre famílias. E ele não queria uma guerra.
— Gostava mais de você quando ainda não lia e nem escrevia, pelo menos ficava longe das maluquices do appa, e eu tenho certeza que você adora piorar as coisas. — não era como se Taehyung e Kihyun não se dessem bem, pelo contrário, sempre foram muito próximos, mas era comum entre eles que implicassem um com o outro, quase como uma ‘brincadeira’ que perdurou com o tempo e a idade — E se quiser sugerir algo ao Appa, sugira adiantar o seu casamento e não o meu, tenho muito o que viver antes disso.
Taehyung desceu as escadas logo depois, deixando Kihyun para trás. O ômega estava pensando, ele sabia que alguma coisa seu irmão estava escondendo, e logo descobriria o que tanto Taehyung andava “vivendo por aí”.