Capítulo 1
Dandara
31 de outubro de 2016
Há uma coisa engraçada sobre adolescentes, nós transformamos verdades explicitas em verdadeiros enigmas impossíveis de decifrar, não pela dificuldade em si, mas apenas por ignorância sobre o que são e o que sentimos, por exemplo, quando me perguntavam qual o meu tipo ideal de garoto, eu sempre dizia: Moreno café com leite, alto e com covinhas e não percebia que estava citando as características básicas da aparência do meu melhor amigo, isso não é ridículo? Mas quando pensava mais profundamente, havia outro critério imprescindível, meu tipo era alguém que não fosse parecido com meu pai, o que também classificava Giancarlo já que ele era o completo oposto, não somente em aparência física, mas em personalidade.
Eu não iria me casar com um brutamontes alcoólatra, egocêntrico e desrespeitoso e também não permitiria que minha irmã se casasse com alguém parecido com ele. Dizem que o primeiro amor de uma garotinha é o seu pai, aos 16 anos, me pergunto se alguma vez em minha vida cheguei a sentir amor pelo meu pai. Não me vem à mente nenhuma ocasião.
Ele não era de todo r**m, acredito que não existam pessoas completamente ruins ou pessoas completamente boas, mas o que havia de r**m nele ofuscava completamente as coisas boas que já não eram muitas.
A grosseria com a qual ele tratava minha mãe, a negligência com a qual ele tratava as filhas e ao mesmo tempo a total falta de bom senso em exigir respeito e amor quando ele nos dava tão pouco. Ele não se lembrava de nossos aniversários, mas ficava chateado se esquecêssemos o dele, ou o Dia dos Pais, ou qualquer coisa do tipo, isso me irritava.
Entendo que ele tem seis filhos, mas não acho que seja um esforço hercúleo lembrar de seis datas, e caramba, eu e minha irmã éramos frutos de seu único casamento e as mais novas, como ele esquecia isso? Minha mãe já havia esquecido o próprio aniversário, mas jamais esquecia os nossos. É errado comparar, mas quando imaginava a morte de um de meus pais não me sentia muito abalada quando se tratava de meu pai, doeria, porém sobreviveria tinha certeza. Mas quando o fugaz pensamento da morte de minha mãe me assombrava, eu o afastava, aquilo era impensável, sabia que a perda dela seria o que me destruiria.
É uma coisa horrível de se admitir, não é uma aversão e talvez apenas o tolerasse, mas me importava mesmo era com minha mãe, era a ela que queria agradar, era ela a quem respeitava incondicionalmente e era a ela a quem queria dar orgulho, eu era um troféu de conquistas para meu pai exibir, ou uma filha a qual castigar e exigir respeito quando necessário demonstrar sua autoridade paterna.
Hoje é meu aniversário e haviam preparado uma festa surpresa na casa de uma vizinha, ela morava em frente à minha casa e nos conhecíamos desde os dez anos, sabia o tempo todo o que estavam fazendo, tinha uma intuição muito boa, mas me deixei ser conduzida a casa, quando chegamos estava tudo escuro e começou a tocar uma música de Rick e Renner, uma que ele escreveu para a filha.
Quando relembro a cena de mais cedo fico envergonhada, comecei a chorar, odiava surpresas, mas chorei porque meu pai jamais faria nada daquilo por mim, ele não sabia o quanto o aniversário de uma menina era importante, ele nem me parabenizou nos meus 15 anos, se brincar ele não sabia nem minha data de aniversário, mas minha mãe... mesmo sendo pobres ela e Gian haviam organizado uma pequena festa, chamaram minhas amigas e tudo foi simples e lindo e perfeito e hoje não odiei surpresas.
Agora estava sentada embaixo do pé de figueira em frente à minha casa num banquinho de cimento que ficava na extremidade da área externa da minha casa, excelente para sentar e conversar já que dava um pouco de privacidade pois é protegida por uma parede que separa a extremidade da calçada da varanda coberta da minha casa, imersa na escuridão tranquila da minha rua observava a distante torre de celuar em cima do morro em frente, observando a luz piscando no alto e refletindo, m*l percebi quando Giancarlo apareceu no meio da ladeira, sorri, ele havia trabalhado muito e não pôde vir à festa, mas isso não o impediu de ajudar, assim que nossos olhos se encontraram ele sorriu daquele jeito que denunciava que sabia que algo estava errado.
— Deixe-me adivinhar, você descobriu a surpresa na hora errada? — Tentou me provocar para quebrar o gelo.
—Sim, mas isso não é difícil de adivinhar.
— Não, não é. — Ele estreitou os olhos enquanto recuperava o fôlego, era uma subida c***l até chegar na minha casa. — Você chorou.
Não era uma pergunta e não precisava pensar muito sobre como ele havia descoberto, poucas vezes chorei em sua frente, mas se tem uma coisa que deixava rastros em mim, era o choro. Meu rosto ficava ridiculamente ruborizado, os olhos que já eram um pouco repuxados e pequenos ficavam menores e o nariz ficava malditamente inchado e vermelho, então eu não deveria estar com a melhor aparência.
—Odeio surpresas.
—Não foi isso que a fez chorar. Quem esqueceu?
—O quê?
—Quem esqueceu do seu aniversário?
—Como sabe disso?
— Você odeia que saibam seu aniversário, sempre fica irritada quando a data cai durante a semana e tem que ir à escola, fica com medo de alguém contar a professora, mas sempre fica triste quando alguém próximo esquece. Quem foi?
—Me conhece bem demais, não sei se isso é bom para a nossa amizade. — Refleti comigo mesma que aquilo era algo exclusivo de Gian.
Airton ficaria muito irritado se chegasse aqui nesse exato momento, por que essa proximidade iria aumentar ainda mais suas suspeitas a respeito de Gian e eu, no entanto, estava intrigada com a palpitação estranha em meu peito, quando foi que ele começou a fazer meu coração disparar? Como a simples visão dele pode me fazer sentir coisas tão estranhas e simultaneamente tão bem e empolgada? Suspirei, não estava com cabeça para lidar com aquilo.
— Meu pai.
— Isso não é novidade.
— Eu sei, mas ao menos hoje ele devia lembrar, não é? Ele já esqueceu meus 15 no ano passado poxa!
—Dara, quando foi que ele lembrou? Ele não se dá ao trabalho de ligar quando está caçando, sua mãe sempre tem que ligar para o interior para saber se ele está vivo, se quer a atenção dele reprove em uma matéria ou mude o curso que irá fazer na faculdade, garanto que ele irá se importar. Mas isso não a deixará satisfeita, sabe por quê?
Ele me olhou ao sentar-se ao meu lado.
—Você não se importa com a aprovação dele há muito tempo e sabe disso. Não é r**m admitir que não se importa com a aprovação de seu pai, afinal nunca recebeu muito em troca.
— Isso é r**m, não importa a forma que diga. Ele deveria fazer mais do que ir a reuniões na escola e assentir para uma nota 10. Qual o problema dele?
— Ele simplesmente é assim, não sei se há algo profundo por trás do comportamento dele. E não é um crime sentir-se melhor com a ausência dele do que com a presença.
O encarei com lágrimas nos olhos e ele sorriu, aquele sorriso de lado que era o meu preferido.
—Também não é o fim do mundo desejar que ele lembre do aniversário da filha ao menos uma vez. — Bufei dividida entre uma risada e o princípio de um choro.
— Se contar a alguém que me emocionei com isso direi que é mentira. — Declarei secando os olhos.
— Certo, sei que quer manter sua fachada de adolescente insensível e rebelde.
— i****a. —Sorri a contragosto, mas me empertiguei ao ver que ele estava sério, mexendo as mãos nervosamente, até que ele coçou a orelha e soube que tinha algo errado, ele estava nervoso. Giancarlo sempre mexia na orelha esquerda quando algo o incomodava.
— Comprei algo... — Ele tirou uma caixinha preta aveludada do bolso da bermuda, fiquei inquieta ao ver, aquilo não foi barato. — Antes que comece com o discurso piegas de "não precisava." ou "não posso aceitar", saiba que isso é muito desagradável de se ouvir. Nem sempre as pessoas presenteiam por acharem que a outra precisa de algo que não poderia comprar, às vezes só querem dar algo que as tornem especiais aos olhos do presenteado, ou querem arrancar um sorriso ou até mesmo para se exibir.
— E qual é a função do seu presente?
—É uma junção de tudo. —Ele sorriu aliviado por eu estar levando aquilo numa boa, não gostava de receber presentes, seu sorriso hesitou ao abrir a caixinha e minha careta era explícita ao ver o pingente de ouro com o símbolo de PI, ele começou a gargalhar e o encarei irritada.
— Está zombando de mim por ter tirado uma nota r**m em matemática?
—Claro que não, se zombar de você estarei zombando de mim já que sou seu professor do reforço.
— Ok, então explique o motivo do colar matemático e metido a b***a.
— Bem, lembra que uma vez me perguntou se eu te abandonaria quando arrumasse uma namorada?
—Isso foi há uns três anos, por que importa? — Rebati na defensiva, agradecida por estar escuro demais para ele ver a vermelhidão que tinha certeza de que estava colorindo minhas bochechas.
— Bem, você disse que teria que precisar em números o quanto realmente gostava de você, e disse que deveria ser uma quantidade muito maior do que sentisse por quaisquer garotas que surgissem já que você sempre me dava a sua cereja quando tomávamos floresta n***a na sorveteria...
— Você quer me matar de vergonha, Gian? Eu tinha apenas 13 anos!
— Não importa, foi fofo porque na época você estava obcecada com porcentagem, mas eu prometi que faria o que me pediu se resolvesse uma equação, escolhi uma bem filha da p**a e você me odiou porque não conseguiu resolver.
— Qual é o ponto, Gian?
—Não seja impaciente. — Ele puxou um papel rasurado do bolso e estreitei os olhos ao ver a folha decorada com linhas e flores rosas, a letra bonita dele e a maldita equação que agora conhecia muito bem. — Quer decifrar?
— Não seja esnobe, sei muito bem que o resultado da divisão do perímetro e do diâmetro de um círculo é PI!
— Aqui está... — Disse ao tirar o colar da caixinha e sinalizar para que eu me virasse para que ele o colocasse, obedeci atordoada e ainda sem entender. — Esse é o tamanho do meu afeto, em números. Lembra-se do significado de PI?
— Infinito. — Sussurrei com meu coração galopando no peito.
— Boa garota.
— Poderia apenas me dar o símbolo do infinito, seria mais fácil.
— Não teria graça, o símbolo do infinito não representa nada para nós, foi a matemática que nos aproximou.
Me virei para ele sentindo a palma da mão escorregadia, sorri ao encarar o pingente descansando em meu peito, era lindo.
— Feliz aniversário, Dara.
— Obrigada. — Sussurrei ao abraçá-lo, como meu estado de espírito pode mudar em tão pouco tempo? Estava tão feliz que poderia beijá-lo, o pensamento me inquietou, Ayrton iria perguntar sobre isso e não queria imaginar o escarcéu que faria ao saber quem havia me presenteado com o colar e se eu explicasse o significado... por Deus.
— Não precisa usá-lo sempre, mas fique com ele. — Estremeci em seus braços.
Ele beijou a lateral da minha cabeça e fiquei envergonhada ao perceber que ele havia notado minha preocupação, pior, que estava realmente ponderando não usar o presente para não irritar meu namorado quando havia exigido total posse do afeto de Gian anos atrás, e para lascar com tudo, ele estava entregando esse afeto a mim quando eu claramente não faria o mesmo se fosse colocada nas mesmas circunstâncias... isso era tão mesquinho.
— Sempre irei gostar de você, mesmo quando estiver irritada e triste, quando me odiar... sempre irei gostar de você. — Disse no meu ouvido ainda me abraçando. — Se esquecer meu aniversário irei lembrar do seu, portanto, guarde-o bem e lembre-se disso, PI é uma proporção infinita, um número irracional, literalmente. Assim como... nossa amizade.
Amizade... a palavra nunca pareceu tão fora de contexto.
Sempre pensara em mim como Sherlock e Giancarlo como meu Watson, eu era o Frodo e Gian era meu Sam, eu era Harry e ele era meu Rony Weasley, um companheiro que estaria ao meu lado para todo e qualquer fim, mas e se na verdade ele fosse o Sherlock e eu a Irene Adller? Ou quem sabe, ele fosse Aragorn e eu Arwen ou talvez eu fosse Gina e ele era meu Harry Potter, o soltei e me levantei, usei o pretexto de pegar algo para ele comer, precisava respirar um pouco mas quando eu voltei a calçada com bolo e salgadinhos ele sorriu para mim como se nada tivesse acontecido, como se eu fosse o natal repleto de presentes e boas novas... ele é o amor da minha vida.
Não importa onde esteja, ou com quem, Gian sempre terá o meu amor por que ele é como PI, de proporção infinita e irracional, ele é o amor da minha vida e estou namorando o cara errado, o pensamento me deu calafrios.
...
Era engraçado como pessoas manipuladoras fazem sempre você se sentir a errada da situação, Airton ainda estava brigando, reclamando do tamanho do vestido, de como era justo e como ficava vulgar combinado com o salto que escolhi. Eu planejei a roupa há meses, economizei dinheiro pra comprar o tecido, demorei dias escolhendo o modelo com a costureira, Gian também me ajudou a escolher o que ficaria mais bonito, ele foi comigo comprar os sapatos, eu estava passando por uma intensa paixão por sapatos e me apaixonei à primeira vista por um Peep toe vermelho envernizado, era alto é verdade e comprei pensando que viria a calhar já que Airton era bem mais alto que eu.
Mas ele detestou, já estava irritado por causa da festa, já que nosso namoro era apenas tolerado por meus pais ele não estava presente em todos os eventos que eu ia e nem vinha todos os dias na minha casa, minha mãe estipulou dias e limitou horários para as visitas, ela acredita que um pouco de distância será mais que saudável, e ela ultimamente estava muito mais festeira e sempre me levava com ela, isso passara a ser um problema para Airton também e esse era o motivo da discussão dessa vez.
— Se eu fosse para uma festa sozinho você também não iria gostar!
— Não é um bloquinho de carnaval em Salvador, Airton. — Enfatizei agradecendo mentalmente por meu pai estar viajando e por Gian já ter levado minha mãe e minha irmã, odiaria que elas presenciassem outro chilique de Airton, isso já estava ficando insuportável e minha mãe não parava de me dar sermões a respeito de ciúmes e possessividade excessiva.
Terminei de passar rímel em frente ao espelho da estante da sala, o colar que Gian me deu estava brilhando no meu pescoço, em destaque contro o tecido azul royal, Airton estava sentado furioso na cadeira de macarrão na parede oposta, ele estava me fuzilando com os olhos, percebi que olhava para o meu peito, para o colar, o deixei á mostra por que esconder só daria ainda mais motivos para ele desconfiar.
— É uma festa de confraternização do mercadinho, só vai ter gente da idade da minha mãe, a única pessoa próxima da minha idade é o Gian.
— Que grande consolo. — Resmungou e comecei a passar o batom vermelho que ele também odiava que usasse quando não estava com ele, isso parece ter irritado ele ainda mais. — Não confio nesse cara.
— Esse cara é meu amigo e seu também! — Coloquei o batom em cima da TV e me virei irritada com aquela ceninha. — Basta que confie em mim, o que parece que é muito difícil. Qual exatamente é o problema aqui?
— Você sabe muito bem, não se faça de doida. — Ele se levantou e me encarou, os olhos castanhos fulminando com desprezo o colar, depois se viraram para mim com ainda mais raiva. — Aquele cara quer te comer, não sou i****a. Essa amizade de vocês nunca me convenceu.
Fiquei b***a, dei um passo para trás atordoada.
Não acredito que ele falou isso, tudo bem que tinha começado a sentir que muita coisa que eu sentia sobre Gian estava mudando, mas isso começou há pouco tempo e só depois que nosso namoro começou a ir pro ralo depois que ele me traiu.
Gian não agiria assim comigo, ele me respeita e é o único que conversa sobre tudo, que ouve tudo que tenho a dizer e nunca tentou nada e nem tentaria, não enquanto eu fosse comprometida e mesmo assim algo me diz que ele demoraria bastante para chegar em mim por que ainda sou muito nova, esse era um dos motivos de ele não aprovar meu namoro e ele não está errado, mas agora era tarde demais para voltar atrás, tenho que sustentar minha escolha... percebi que Airton ainda estava me olhando, o rosto fechado de quem ainda não tinha terminado de cuspir merda.
— Se você for desse jeito... não... — Ele se aproximou e se inclinou um pouco para me olhar de perto e fiquei tensa, mesmo de salto ainda era muito mais baixa que ele. — Se você for para a merda dessa festa, pode me esquecer.
Uma risada doentia brotou em meu peito e não a segurei, ele me olhou enfurecido e já ficando vermelho, estava feliz porque ele me poupou o trabalho.
— Ótimo. — Disse sorrindo enquanto chegava até a porta, a escancarei e ele me olhou boquiaberto. — A porta da rua é serventia da casa!
— Estou falando sério, Dandara.
— Parece que estou brincando? — Parei de sorrir. — Pegue o beco.
— Então tá bom. — Ele se esquivou de mim e foi embora com passos rápidos, um segundo depois Gian apareceu em frente à casa, estava de costas para mim e olhando para baixo, deve ter trombado com Airton na ladeira.
Peguei a chave e tranquei a porta furiosa, quando terminei me virei e Gian estava me encarando, me encarando de verdade, tão intensamente que prendi a respiração surpresa e não ousei me mover, seus olhos percorreram meu corpo inteiro e se fixaram em meus olhos.
— Encontrei Airton... ele parecia bem irritado. — Comentou com a voz tensa e sem desgrudar os olhos de mim.
— Nós terminamos. — Anunciei e aquilo me deu um frio na barriga, os olhos dele oscilaram e esperei que ele perguntasse algo, qualquer coisa, mas ele não disse mais nada, ele não diria. — Ele não gostou da minha roupa.
— Imaginei. — Seus olhos haviam mudado, um discreto brilho permaneceu neles, estávamos sozinhos e a percepção daquilo me deixou nervosa, estava só esperando Gian voltar para me buscar e agora não queria ir a lugar algum, queria ficar aqui em pé na varanda olhando pra ele.
O silêncio entre nós estava carregado, ele estava lindo, tênis branco, uma camisa verde que destacava os olhos cristalinos dele, uma calça jeans de lavagem clara e justa o suficiente para perceber que a academia estava dando resultados, ele é alto e muito magro, ele era muito magro, agora está mais para atlético, como não notei isso antes? Estava cega?
Pensamentos obscenos invadiram minha cabeça, imagens dele sem camisa e de sunga... pelado, eu nunca tinha pensado em ninguém daquela forma, nem no cara com quem traí Airton nas férias passadas, foram só uns beijos e pronto, mas Gian... ele estava olhando para mim como se estivesse pensando a mesma coisa. Quando finalmente falou sua voz estava ainda mais tensa e rouca.
— Pronta?
— Sim. — Fiquei surpresa ao perceber que minha voz estava mais aguda do que o normal. — Vamos?
Ele assentiu, mas parecia incerto, quando cheguei na ponta da calçada percebi que seria um desafio descer a ladeira sem torcer o pé, escorregar ou enganchar o salto nas pedras.
— Desculpa, não quis subir com o carro porque ia ser difícil manobrar aqui. — Ele sorriu envergonhado, Gian tinha tirado habilitação há pouco tempo e estava buscando todos que não tinham transporte, uma forma que o pai dele encontrou dele treinar. — Melhor pegar uma havaiana ou vai destruir seus sapatos nos paralelepípedos.
— Verdade, espera aí.
Voltei, abri a porta e peguei o chinelo, calcei-os e Gian pegou meu sapato para que eu conseguisse fechar a porta, ela estava emperrando ultimamente e precisava das duas mãos para fechar, quando consegui trancar tudo estendi a mão para os sapatos, mas ele não os devolveu.
— Eu levo. — Sorriu e descemos a ladeira lado a lado.
Os vizinhos nos cumprimentaram sorridentes, a maioria morava ali a vida toda e nos conhecia desde pequenos, alguns sempre comentavam brincando que nossa amizade daria em namoro, Gian caminhava ao meu lado, nossos corpos próximos de uma forma íntima, não nos tocávamos, mas estávamos tão perto que o toque não faria diferença. Estávamos muito cientes um do outro, quando chegamos no carro um amigo de Airton passou de moto e quase quebrou o pescoço me olhando enquanto Gian abria a porta para mim entrar, isso daria o que falar, era melhor até desligar o celular por uma semana.
O trajeto até o clube foi tenso, a tensão no carro era sufocante, vez por outra Gian se remexia desconfortavelmente no banco, os braços inquietos no volante, meus m*****s estavam duros contra o tecido que fiquei feliz por ser grosso demais e não deixava transparecer nada já que eu estava sem sutiã, olhei de esguelha pra ele notando um volume em sua calça que antes não estava ali, virei rapidamente o rosto pra janela, ao perceber que minha calcinha estava ainda mais molhada, talvez Airton não estivesse tão errado assim.
Aquela situação estava me desestabilizando, percebi que haviam situações que eram muito mais excitantes que o sexo em si, uma situação em que se deseja algo que não pode ter é um exemplo, fiquei aliviada quando ele estacionou em frente ao clube, havia alguns carros no lugar e já conseguia escutar a música lá dentro, Gian estacionou com pouca dificuldade, desligou o carro, mas não desceu, ele segurou o volante com firmeza, encostou a cabeça no dorso das mãos e olhou para mim como se fosse dizer alguma coisa e em pânico o interrompi.
— Pode guardar minha p*****a? — Perguntei esbaforida, ele franziu o cenho. — Não tenho bolsos. — Justifiquei com um sorriso sem graça.
— Tudo bem. — Dei a p*****a e ele fez uma careta quando se esticou para colocar no bolso e me apressei em calçar os saltos para que meus olhos traidores não corressem o risco de conferir se ele ainda estava duro. — Dara... — Ele hesitou e o encarei, depois ele virou o rosto e olhou para janela do lado dele xingando baixinho. — Deixa quieto.