Capítulo 2

3721 Words
Dandara Olho aborrecidamente através da janela á minha frente, um suspiro inevitavelmente escapando dos meus lábios diante do congestionamento infindável na ponte da Freguesia do Ó, é apenas mais uma manhã conturbada na linha Cachoeirinha/Pinheiros, o ônibus está lotado como toda santa manhã, tento me equilibrar no meu lugar Vip na sanfona do ônibus, é meu preferido e minha zona de conforto, é impressionante como pessoas comuns adquirem hábitos simples capazes de fazer grande diferença em seu estado de espírito, sorrio enquanto Radioactive de Imagine Dragons explode em meus fones, um dia glorioso se inicia na cidade de São Paulo enquanto eu me encaminho para mais um dia de aula na faculdade. O temido 5° semestre que inicia o terceiro ano da minha graduação em Enfermagem, o privilégio de cursar uma faculdade que é fruto de uma bolsa integral através do Enem, eu me obrigava a lembrar disso todos os dias devido há três tentativas falhas penosas que acabaram com minha saúde mental durante três anos consecutivos, mas na quarta tentativa finalmente havia conseguido a nota necessária para ganhar a bolsa, também consegui um emprego em uma empresa de Telemarketing, a rotina é exaustiva e estressante e agora quando lembro do meu sonho adolescente i****a de completar 18 anos, sair da casa dos pais e do abrigo das asas da minha mãe, mudar de cidade e arrumar um emprego, eu me sinto i****a, embora isso tenha me proporcionado a vantagem de manter uma distância ainda maior do meu pai e de certa forma da minha família. Se pudesse encontrar aquela versão iludida minha iria dar três tapas na cara dela e mandá-la acordar para vida, eu era mesmo tão patética ao ponto de achar que isso seria tão fácil quanto ir ao mercadinho comprar cuscuz? Deus, eu era tão i*****l. A maioria dos alunos do 5° "A" ralava tanto quanto eu, alguns trabalhavam em dois empregos -uma boa parte aliás- eram técnicos de enfermagem e levavam suas carcaças moribundas e pós-plantão direto para os assentos acolchoados da universidade, outros eram agraciados pelos deuses e só estudavam, havia uma minoria que apenas estudava, mas tinham filhos e obrigações domésticas nas costas, é, a vida de quem trabalha e estuda não é para os fracos. Atravessei o terminal da Barra Funda como um zumbi em direção ao prédio da universidade, felizmente era uma caminhada de apenas cinco minutos em meio a uma multidão de jovens universitários a caminho de mais um começo de semana e apenas essa caminhada já me irritava, o ônibus lotado me irritava, a fila para comprar o suco verde me irritava... diacho, eu odiava segundas-feiras! Não era sem motivos, a ironia era que eu havia nascido numa segunda-feira em um final de tarde do dia 30 de outubro de 2000, também havia terminado meu primeiro namoro em uma segunda-feira e perdi meu melhor amigo em uma segunda-feira, minhas mãos automaticamente tatearam o pingente de PI pendurado em meu pescoço, sinto que odeio mais esse dia da semana por conta do último ou talvez apenas tenha um ressentimento de ter sido expulsa há 24 anos do meu primeiro lar em plena segunda-feira, mas quando a natureza chama você obedece. Munida com meu suco e um sanduíche natural adentrei a sala no quinto andar no prédio e como sempre Júlia já estava na nossa mesa compartilhada perto da janela e quase colada à mesa do professor, o fato era que a mesa já entregava que éramos nerds, mas ao contrário do que os outros pensam, eu encaro isso como um elogio, uma distinção honrosa. — Bom dia! Que cara é essa? — Perguntou assim que viu minha cara de b***a. —Sabe que tenho mau-humor matinal né?! Odeio horário de pico. Murmurei ao me sentar na ponta da mesa já abrindo o computador, a universidade era adepta da metodologia ativa de ensino, então dividia a mesa com as cinco pessoas que conheci desde o primeiro dia de aula, Júlia, Laila, Bianca, Cauã, havia ainda a Ana, mas não éramos tão próximas, na verdade ela não era próxima de ninguém, podia muito bem ser uma samambaia e consequentemente fazer parte da decoração. Éramos a panelinha da primeira mesa e ninguém se atrevia a interferir, aquela mesa era nosso domínio em todas as salas durante todos os semestres e ninguém estava autorizado a separar ou ser incluído no grupo, éramos um bando de criaturas tóxicas, o grupo Chernobyl era como nos intitulávamos, um grupo perfeitamente desajustado, mas com um QI superior, era o que eu supunha já que as nossas notas eram as mais altas da sala. — Eu só queria voltar pra minha casa e terminar meu anime. — Resmunguei pesarosa. — Nem me fala, essa aula é fogo. — Júlia completou solidariamente ao ver meu desgosto em estar aqui hoje. —E o pior é que essa professora odeia a gente. — Revirei os olhos quando ela me lançou um olhar afiado que me incriminava. Que culpa tenho eu se os professores não aceitam ouvir algumas verdades? Se um aluno não vai bem uma prova pode ser culpa exclusivamente dele, mas se 90% por cento da turma vai m*l em uma prova isso é indicativo de que o professor é responsável. — Eu só sugeri a ela que é provável que os poucos que tiraram nota boa naquela prova fizeram isso de forma desonesta. — Pelo amor de Deus, você disse na cara dela que quem tirou nota boa foi por que colou! — Fiz uma careta debochada, eu não menti, mas a professora com certeza esperava que eu mentisse ou pelo menos que ficasse calada enquanto ela repreendia a sala pelo desempenho vergonhoso. Não sou soberba, a prova tinha questões complexas que foram muito pouco explanadas nas aulas e durante a prova observei que algumas pessoas estavam colando, tive a oportunidade de fazer o mesmo, mas a minha vaidade e meu orgulho me impediram, me recusava a receber uma nota em que meu intelecto pouco contribuiu ou contribuiu de forma inescrupulosa. — Mas e aí, você conversou com o Arthur? — Júlia perguntou discretamente querendo mudar de assunto antes que a professora chegasse, mas percebi ela olhando ao redor para ter certeza de que não fomos ouvidas, mas eu não me importava muito em discutir esse tópico com o resto da turma, o problema era que nosso grupo fora marcado pela professora e se ela ouvisse mais burburinhos sobre o assunto poderia descontar na turma inteira, suspirei resignada, mas cedi ao seu apelo. — Não, não estava a fim de estragar meu único dia de folga com uma DR inútil. Arthur era meu atual namorado, estávamos juntos há seis anos. Começamos a ficar assim que cheguei em São Paulo, mas só começamos a namorar sério há dois anos, ele é um homem bonito, rosto singelo, maxilar forte e um pouco mais alto que eu, também é dez anos mais velho, mora no mesmo bairro, tem um bom emprego em uma metalúrgica, um carro legal e mora com os pais, recentemente ele se fissurou na ideia de que está na hora de nos casarmos e para o azar dele, eu não estou interessada, não no momento. Como as outras garotas ainda sonho em me casar e ter filhos, mas a dura realidade da vida me fez desistir da fantasia do véu e grinalda, casamento no civil, um buffet decente, apenas para bancar isso tudo teria que vender meu rim e meu baço no mercado n***o e eu sou mais do tipo cerimônia simples e uma viagem fantástica e mesmo assim, esse era meu plano para daqui uns seis anos quando já estiver formada e estabilizada trabalhando na minha área. — Como você se livrou? — Júlia perguntou claramente interessada, mas não menos divertida. — Disse que ia estudar, ele sabe que não gosto de ser incomodada. —Nossa! Que bandida. Aposto que leu o dia inteiro. — Na verdade, finalizei o mangá de Kimetsu no Yaiba, estou na bad. O final foi pior do que pensei. — Nem fala, depois que você me apresentou ao mundo de doramas estou na merda, chorei horrores ontem quando terminei um e ainda nem assisti esse anime. Sorri divertida balançando a cabeça em descrença, apenas Júlia era capaz de me fazer rir uma hora dessas, geralmente o mau humor só acabava depois do intervalo, mas hoje ela me arrancou um sorriso mais cedo, como dizia a Cristina Yang de Grey's anatomy... "ela é a minha pessoa," a minha Meredith Grey. Ambas gostávamos de ler, tanto livros como mangás, assistíamos animes e sim, éramos fissuradas em doramas no BTS e também éramos grandes fãs dos filmes da Marvel, pelo menos eu era, pois depois da morte do Tony Stark, renunciei ao universo em nome do luto. —Bom dia. — Cauã cumprimentou sonolento. —Tá atrasado. — Comentei mau humorada e me virando para fuzilá-lo com os olhos. —Pronto, a terrinha começou. —Zombou ao se sentar ao lado de Júlia do lado oposto da mesa, lancei meu característico olhar assassino e ele sorriu que nem b***a ao abrir o computador. — Bom dia, galinhas! —Suspirei, meu Deus, Bianca... como ela acordava tão bem-humorada? Ela estava sempre feliz e ainda era tão cedo! Ela sentou saltitante ao meu lado. — Bom dia. — Ana comentou sem emoção rodeando a mesa para se sentar á minha frente na ponta da mesa. — Quanta animação hein, aninha! — Bianca ironizou. Ana odiava o apelido e grunhiu ainda mais m*l-humorada que eu, revirei os olhos dramaticamente quando Bia começou a tagarelar sobre seu fim de semana de baladeira, ela era a mais animada do grupo e já acordava virada na peste, Laila como sempre estava atrasada, gemi contrariada e deitei a cabeça apoiada entre os braços, eu m*l curti meu fim de semana e já acabou. (...) — Iai amiga, está pronta para mais um dia no inferno? Laila perguntou animada ao entrarmos na central de atendimento onde trabalhávamos, me recostei no balcão da área de descanso olhando em volta, o local estava uma loucura só, geralmente segunda era o pior dia, havia fila de pessoas em espera para serem atendidas, parecia que as pessoas achavam que segunda-feira era o dia mundial da marcação de consulta e exames e em consequência disso o volume de reclamações era absurdo e adivinha de quem era função de escutar tudo e resolver? Minha é claro, minha e de Laila e de mais um bocadinho de analistas já que fazíamos parte da central de relacionamento. — Que comece o apedrejamento. — Comentei sombriamente ao pegar minha garrafinha de água. Ela gargalhou enquanto caminhávamos a procura de uma máquina para logar com nossos Heads-set e garrafinhas na mão e apesar do caos era um bom emprego, seis horas e vinte minutos por dia, seis dias por semana das 13h30 às 20h20 e pagava muito bem, mais de um salário-mínimo. O problema era a distância, eram duas horas de viagem da minha casa fazendo baldeação entre ônibus e metrô, Laila e eu literalmente trabalhávamos em outro município. Eu e minha colega de trabalho/faculdade estávamos juntas na maior parte do tempo, ela era dois anos mais velha, casada há seis e mãe de duas meninas, ela era um exemplo de mulher guerreira como a massa costuma classificar, não só isso, ela conseguia administrar tudo com excelência, tirar boas notas, cuidar das filhas, do marido, e ainda acordar às cinco da manhã para faxinar o apartamento, ela é uma heroína. Eu só pensava em dormir em meu horário livre e ainda nem tinha filhos ou marido, nem conseguia cuidar de um pet e odiava limpar a casa todo dia, fora que não tinha tempo e não acordaria às cinco da matina para isso, mas acho que era uma questão de prioridades. Às vezes quando a casa estava muito suja a limpava quando chegava do trabalho, senão, ela iria esperar pela tradicional faxina do sábado, eu admirava Laila como ninguém, não por ser maníaca por limpeza, mas por ser uma boa mãe e por estar cursando uma graduação por vontade própria quando ela bem podia se sentar e relaxar em casa já que o marido era contador e tinha um escritório de contabilidade, mas não, ela queria ser independente, bem-sucedida, ela era aquele tipo de mulher que você olha e pensa... eu quero ser igualzinha a ela quando crescer. (...) Mais um dia finalizado o meu cérebro havia virado sopa, havia registrado tantas reclamações que m*l me lembrava do meu próprio nome, uma coisa que trabalhar com o público te ensina é que quando você vai a algum lugar, você tenta ser o menos filha da p**a possível e evita fazer reclamações. Aquela cena de sete vidas com Will Smith onde ele esculhamba um atendente de call center, me fez questionar se havia mesmo pessoas que faziam aquilo sem o propósito de testar e ver se era digno de receber órgãos de forma duvidosa. Cara... como eu era ingênua, alguns seres humanos parecem ter vindo ao mundo apenas para espalhar o m*l, só hoje havia sido chamada de incompetente, vaca, fui questionada a respeito da função fisiológica do coração. É claro que como graduanda de enfermagem eu poderia dizer uma ou duas coisas que aquela abençoada não sabia, mas como analista eu apenas respondia: "Não senhora, sou apenas uma analista encarregada de registrar sua queixa e encaminhar ao departamento responsável para que seu problema seja solucionado o mais rápido possível." Não era bem isso que eu dizia, mas era o que significava. — Nossa, literalmente parece que fomos atropeladas por um trem. — Laila murmurou distraidamente enquanto nos sentávamos nos raros assentos vagos no metrô da linha amarela. — Eu odeio segundas-feiras. — Resmunguei exausta. Coloquei os fones de ouvido e me recostei no banco, apenas Snow Patrol era capaz de me relaxar no momento, até mesmo Laila estava baqueada, fechei os olhos exausta enquanto Open Your Eyes ajudava meu cérebro a descansar. Depois de passar por duas estações a tradicional manada proveniente dos escritórios da Paulista e da Faria Lima invadiu o vagão, graças a Deus para nós faltavam apenas quatro estações e faríamos baldeação para outra linha e em seguida Laila faria uma outra para o trem, e eu pegaria minha lotação que me levaria até quase a porta de casa. Assim que o metrô parou na nossa estação descemos rapidamente, estava atenta ao movimento das pessoas, mas um pouco cansada e imediatamente me posicionei à direita nas escadas já que estava no mundo da lua e queria permanecer assim, uma das coisas que se aprende ao andar de metrô em São Paulo é sempre deixar a esquerda livre ou você pode ser linchada e arrastada se estiver obstruindo o caminho com sua lerdeza, a turma dos apressados era sempre agressiva e parece que essa informação fica gravada no subconsciente depois de algum tempo vivendo aqui. Uma silhueta peculiar chamou minha atenção enquanto a escada rolante se movia para baixo em direção a plataforma no subsolo, não foi só o tamanho que chamou minha atenção, mas o corte de cabelo familiar, ele era um muro... mais de 1,85m, certeza, era claramente meu biotipo clássico, moreno da cor de jambo, cabelos pretos que nem piche, alto, forte e com uma bundinha redonda, mas sem ser tanajura e muito bem moldada por uma calça social, fora o visual elegante e altivo, aquele era um belo espécime de homem, um homem com pinta de quem não brincava em serviço, afiado e frio. — Tava secando né safada?! — Sorri tentando disfarçar o embaraço. — Ele é lindo de costas e olhar não arranca pedaço. Murmurei na defensiva enquanto saíamos da escada e virávamos à direita em direção a nossa plataforma sentido Barra Funda indo para a posição privilegiada onde ficariam os vagões mais distantes das escadas de acesso, o local estava calmo como sempre, mas a plataforma do lado esquerdo era sempre mais movimentada, o metrô da linha vermelha ia em direção à Zona Leste da cidade. — Amiga, não olha agora. — Laila se aproximou como se fosse me passar drogas. — Aquele cara que você estava secando é bonito pra c*****o, e está te observando que nem um gavião. — Disfarça. Dica... se você quer evitar uma saia justa e não quer que a pessoa vire a cabeça que nem a Megan do exorcista, você não diz, disfarça! E se a pessoa for do tipo f**a-se, que nem eu, aí é que não se deve dizer isso mesmo! Estreitei os olhos assim que o metrô chegou à plataforma, as portas abriram e entrei no vagão, sem sutileza alguma me virei para a porta sorrindo ao procurar aquela silhueta na aglomeração, me surpreendi ao ver que ele ainda estava no mesmo lugar, já que estava no mesmo lado da plataforma supus que iria na mesma direção que eu, mas ele só estava lá a cabeça se espichando e olhando ao redor como se também procurasse alguém, só tive uma boa visão do seu rosto quando a multidão se esvaiu e quando estava prestes a entrar no vagão... o mundo deu uma cambalhota e caiu de cabeça para baixo quando nossos olhos se encontraram, tropecei para a frente quando alguém me empurrou e soou o aviso sonoro de fechamento das portas, por pouco não caí para fora do vagão. Conhecia aqueles olhos. Meu coração começou a galopar em meu peito, havia perdido espaço e tentava voltar para perto da porta estava quase tendo cólicas de ansiedade enquanto tentava alcançar o vidro e quando me espremi até lá e olhei através das portas olhos verdes límpidos e selvagens me encararam de volta, imóveis, quase catatônicos, ele me encarou pela eternidade até que vi um lampejo do que deduzi ser reconhecimento, um sorrisinho torto apareceu como se tivesse nascido da covinha solitária na bochecha esquerda, ele ainda estava parado na plataforma me encarando enquanto o metrô começava a andar... Giancarlo? Aquele par de olhos lindos ainda me encararam por uns três segundos antes que sumisse de minha vista quando o metrô entro no túnel, impossível. Oh Merda. Será que era ele? Não, não podia ser... fazia o quê? Uns sete anos, talvez? Ele estava muito diferente, mas eu também estava diferente de quando tinha 17 anos, mas Jesus amado não pode ser ele, o upgrade foi extrapolado demais e além disso ele estava em Teresina. Era só alguém terrivelmente parecido, é isso, um sósia talvez? Não dizem que há uma cópia de cada um espalhados por aí!? — Gostoso pra p***a não era?! — Era sim... me lembrou de alguém. — Gado? — Ex-melhor amigo. —Achei que não tinha amigos antes de nós. — Comentou fazendo careta enquanto era imprensada contra a barra de ferro em que se segurava, ergui as sobrancelhas em deboche. — Por isso que o chamei de "Ex". — Esclareci secamente. — Foi m*l, amigo-amigo ou PA? —Amigo-amigo e com um histórico conturbado. —Jesus. O que aconteceu? — Nada demais, apenas paramos de ser amigos e perdemos contato. Na verdade, Giancarlo havia sido meu melhor amigo durante toda a minha adolescência, mas parecia que fomos amigos durante uma vida toda, ele era primo de uma amiga minha e por tabela acabamos nos aproximando tipo... muito. Ele era aquele amigo que ficava conversando na calçada de casa horas a fio, às vezes até de madrugada, ele me esperava na saída da escola, carregava meus livros, assistia meus jogos de handebol e queimada, dava aulas de reforço particular em matemática e também gerenciava minha vida amorosa. E a vida amorosa de uma adolescente de 14 anos é cheia de altos e baixos, às vezes você estava por cima da carne seca e outras você era o limo do fundo do poço. Giancarlo era do tipo super protetor, e eu era tímida e acanhada demais para me sentir m*l e reclamar da sua proteção fraternal, sempre a mais atrasada do grupo, última a menstruar, a última a dar o primeiro beijo... e por aí vai. Mas quando se tem pais conservadores, as coisas são mais complicadas, aos 14 anos eu nunca havia dormido na casa de nenhuma amiga, não ia para casa delas sozinha e nem ficava na calçada delas á noite, era sempre elas a virem e se sentarem na minha casa e quando eu saía sempre levava minha irmãzinha de dez anos, Daniela era como uma guarda-costas, na verdade ela era mais como uma espiã infiltrada da minha mãe. — Até amanhã, amiga! A ruiva acenou indo apressadamente em direção à plataforma do trem para fazer a baldeação e eu atravessei as catracas e desci mais um lance de escadas para ir em direção ao ponto de embarque da minha lotação e para minha alegria já havia uma no local, entrei e varri o veículo com os olhos á procura do meu lugar preferido, do lado direito e o último banco antes da porta traseira no assento da janela, era ali que me sentava todos os dias, era o meu cantinho da reflexão. Meu celular vibrou num ritmo conhecido, o alerta de msg do w******p. Arthur: Oi, já está chegando? Dandara: Estou na lotação, mais 1h20 minutos até em casa. Arthur: Hm, certo. Foi tranquilo hoje? Dandara: Apenas mais uma segunda-feira apocalíptica. Você não devia estar trabalhando? Arthur: Escapei para o banheiro, esse negócio de mandar msgs é viciante. Dandara: Verdade. Arthur: Estou com saudades. Dandara: Eu também. Arthur: Tenho que ir, bjos. Dandara: Tchau, bjos. Embalada por Billie Eilish bloqueei a tela do celular observando a paisagem urbana da cidade cyberpunk que aprendi a amar, deixei meus pensamentos flutuarem olhando pela janela do ônibus, Arthur era um cara legal, um pouco bonzinho demais, paciente demais, e indeciso demais... todas as características opostas às minhas, afinal, eu era de escorpião e ele era de libra. Tínhamos algumas coisas em comum, não éramos melosos demais um com o outro, ou pelo menos era o que achava até ele começar a querer dormir na minha casa nos finais de semana, me comprar coisas que não queria e nem precisava, me levar constantemente aos almoços de domingo na sua casa, eu sabia o que isso significava nas entrelinhas, ele teria sido mais sutil se tivesse colocado uma aliança em meu dedo enquanto eu dormia.
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