Dandara
Inquieta era como estava enquanto meu ônibus corria nas ruas da Lapa, geralmente a volta para casa era o tempo que usava para refletir, descansar lendo ou ouvindo música, mas nem mesmo Shawn Mendes ou Billie me tranquilizavam e eu sabia o motivo, aquele cara no metrô, vê-lo me deixou com uma sensação estranha, aquele frio na barriga que sempre aparece quando ficamos nervosos e acontece uma descarga de adrenalina no corpo.
Não lembro a última vez que senti isso com um cara... talvez quando terminei meu último relacionamento e depois recebi uma mensagem do meu ex dizendo que iria se matar, mas aquele não foi um frio na barriga que remetia a emoções boas, mesmo agora sempre que as lembranças daquela época apareciam eu as chutava para o fundo da mente, para o esquecimento.
Não por ter apenas lembranças traumatizantes, o relacionamento não foi de todo r**m, ele foi meu segundo amor, por assim dizer, li sobre um estudo que dizia que temos três amores na vida, o primeiro: O amor de criança. O primeiro amor, é aquele que normalmente acontece na nossa adolescência e toma a gente de maneira avassaladora. Sabe aquela paixão de filme que a gente acredita que vai durar para sempre e nada nem ninguém pode destruir? É, eu passei por esse, e foi esse o papel do Airton na minha vida.
Naquela época, o conceito do relacionamento tóxico não era tão conhecido ou melhor, as pessoas não falavam sobre ou davam classificações a isso, eu comecei a namorar com ele quando tinha 15 anos, um encontro sabotado indiretamente por Giancarlo e desaprovado pelo mesmo, o que era compreensível já que Airton era bem mais velho, com 23 anos ele era alto, esguio, de pele bronzeada, e ele não tinha cabelos ou pêlos em quaisquer partes do corpo, e quando digo quaisquer, quero dizer que ele realmente não tinha um pelo sequer no corpo, em lugar nenhum, o que sempre vi como uma vantagem, aparentemente ele tinha uma doença que até hoje não sei classificar se era alopecia universalis ou qualquer outra coisa.
Ele me conheceu através do f*******: e fazia parte do círculo de amizades de Giancarlo, jogavam futebol juntos entre outras coisas, ele me mandou um convite, eu aceitei, ele começou a comentar minhas fotos, meu ego começou a gostar e responder, daí em diante ele falou de mim para Giancarlo e depois disso nos esbarramos nas ruas de minha cidade, Giancarlo dizia que ele era um cara legal, mas ele se referia a amizade e não no sentido de "Ficar" no sentido romântico é claro, se é que podemos dizer que há algum romance na pegação, o fato era que... eu deveria ter ouvido ele.
Claro que se ele tivesse previsto o final daquilo, meu fiel companheiro me diria com mais ênfase para manter distância e me afastaria dele à força, se necessário.
Naquela época a Dandara de 15 anos ouvia quase tudo que Giancarlo falava, era bom ter um amigo, era como ter um espião no universo masculino, mas ainda assim ele era só um amigo, e ter outro cara me elogiando sem ter a amizade para justificar sua atenção mexeu com a minha cabeça e para uma adolescente com autoestima baixa e com pais conservadores demais, aquilo era um tremendo "ás" na manga.
Marcamos de nos encontrar em um show no 06 de Setembro, geralmente aconteciam eventos na data pré-feriado e consequentemente fui ao show com uma tia, pois não me era permitido sair apenas com minhas amigas, essa parte até entendo, mas na minha cidade onde os shows eram famosos e tínhamos poucas opções de entretenimento, isso era bem cafona.
Encontrei Giancarlo no clube e fiquei com ele enquanto minha tia se divertia com outros gatinhos, posteriormente nessa mesma noite acabei trombando com outro pretendente, Cassio. Ele era um n***o lindo, sustentava sempre uma expressão maliciosa no rosto que deixava claro que era do tipo pegador e eu também não estava interessada em namoro, então, dançamos em meio a olhares reprovadores de Giancarlo, simultaneamente enquanto dançava com Cassio avistei Airton nos observando com uma cara nada boa, isso era por que eu estava dançando de uma maneira nada ortodoxa para os padrões do tradicional forró.
Sempre tivera o sangue quente, tão quente como o sol do nordeste, sempre fui fogosa, mesmo quando era virgem, então, quando estava no modo sedução fatal, era difícil não olhar para mim, mesmo que não fosse linda ou absurdamente gostosa, era razoavelmente bonita e gostosa, graças a uma b***a sensacional, apesar de ter s***s pequenos, quase negativos, ínfimos... do tipo ovo estalado, mas o resto compensava. E os cabelos volumosos e cacheados castanho escuros me davam uma aparência exótica e boêmia, ao menos era o que achava de vez em quando.
Naquela noite enquanto dançava com Cassio, fiz a primeira escolha errada da minha vida amorosa, eu o dispensei por culpa e fiquei com Airton.
Claro, fora uma atitude sensata pois já havia combinado de ficar com o cara anteriormente, e se ficasse com outro na frente dele seria muita s*******m e seria taxada de v***a no nosso círculo, até porque depois soube que Airton só havia ido ao show para ficar comigo.
Todavia, se tivesse um prelúdio do que iria surgir daquela noite com certeza teria escolhido ficar com Cassio e com quaisquer outros que me dessem mole naquela festa.
Depois daquela noite começamos um relacionamento, não houve um pedido de namoro nem algo parecido, apenas se desenrolou assim, nos encontrávamos escondidos, às vezes quando ia a reunião do grupo de jovens aos sábados ou para a missa na igreja aos domingos, também mentia dizendo que ia na minha avó, até mesmo quando ia a shows com minha mãe e conseguia despistá-la, sempre saia correndo para onde Airton estava, ficamos nisso por um ano, e foi em uma dessas festas que minha mãe descobriu nosso namoro, quando me flagrou abraçada com ele em uma de minhas idas no banheiro e eu a decepcionei.
Foi um caos, e foi assim meu namoro adquiriu uma performance nordestina de Romeu e Julieta, minha família odiava Airton, todos, todos eles... desde meu pai até mesmo meus primos de terceiro grau, até o último grau de parentesco onde parentes deixavam de ser parentes, todos odiavam meu namorado e graças a uma disputa amorosa, as primas dele também odiavam minha tia.
Airton não tinha emprego fixo, tinha uma vida de fanfarrão, fazia b***s de pintor durante a semana, jogava bola e bebia aos finais de semana, bebia muito, entre outras coisas, mas naquela época era ingênua demais para perceber.
Minha mãe evitou contar tudo imediatamente ao meu pai, mas quando me neguei a terminar o namoro a conversa chegou aos ouvidos dele, e foi uma merda, na noite que meu pai me confrontou sobre o assunto foi a primeira vez que ele levantou a mão para me bater.
Minha mãe que sempre foi ameaçada, xingada e maltratada durante suas bebedeiras, e ela teve que ficar entre nós dois pela primeira vez, pois tenho o sangue quente e dei a seguinte opção ao meu pai: Permitir que nós namorássemos na porta de casa ou tolerar os comentários que seus amigos do bar iriam fazer, pois eu continuaria me encontrando com Airton.
Na época isso me pareceu heroico e muito romântico, nós namoramos por mais dois anos e aquele fervor que me fez enfrentar a ira do meu pai bruto e alcoolizado foi esmaecendo aos poucos com o ciúmes, a possessividade e o controle que Airton tentava ter sobre mim. É claro que eu amadureci fisiologicamente já que ainda era uma adolescente em formação, fiquei mais bonita, o que ficava evidente quando meu namorado era um cara de aparência negativamente incomum, ele me colocava em um pedestal, era um fato e eu gostava, ele também era carinhoso, romântico e quente e isso me cegou por algum tempo.
E o que não via naquela época era o quanto ele era manipulador, aos poucos Airton me afastou das minhas amigas, eu só saía com ele, ele vistoriava meu celular para averiguar se tinha trocado mensagens com outros caras ou mesmo se tinha algum contato masculino na agenda, mesmo as festas que frequentava com minha mãe eram um problema entre nós e em consequência disso me afastei de Giancarlo, devagar e constantemente.
Eu nem lembro direito do motivo da nossa última briga, quando penso nisso, parece que em um dia nós éramos amigos e no outro éramos completos estranhos, na verdade pior, pois estranhos ainda poderiam se cumprimentar ocasionalmente em algumas circunstâncias, e eu e Giancarlo evitávamos a presença um do outro, como os egípcios tentaram evitar as sete pragas.
Como era de se esperar meu namoro não acabou bem, houve traições de ambas as partes, e como se não fosse merda o suficiente entreguei minha virgindade a Airton, embora tenha resistido por dois anos acabou acontecendo.
A primeira vez foi horrível, acho que nenhuma perda de virgindade é boa, foi uma merda catastrófica, quando acabou lembro de me vestir em silêncio, não o silêncio culpado do jovem troiano Paris quando cedeu aos encantos da rainha Helena da Grécia, minha reação foi algo entre o horror de Elizabeth Bennet ao descobrir o real caráter de S.r Wickham e o choque de Emma Woodhouse ao se deparar com o caráter tortuoso do Sr. Elton, talvez a reação mais próxima seja o choque decepcionante da doce Anne Eliot quando o caráter duvidoso de seu primo foi elucidado.
O fato era que quando acabou me sentei no sofá da sala e fiquei assistindo lua nova, justo naquela cena que o Jacob busca a Bella na escola depois que a ela descobre que o Edward mentiu para tirar ela da cidade enquanto a família dele caçava outros vampiros que a estavam perseguindo por conta da vingativa Victória.
Edward havia traído a confiança de Bella. E por motivos muito menos nobres, eu havia traído a mim mesma, havia levado o teatro de Romeu e Julieta longe demais, havia levado a alimentação da minha vaidade longe demais e fiz mau uso da teimosia e da rebeldia e quando Airton me perguntou se estava arrependida, fui sincera, pois estava arrependida e muito.
Fiquei por muito tempo com aquela sensação de que foi o momento errado, no lugar errado, e com o cara errado, mas quando me perguntava o porquê, não me atrevia a formular a resposta.
Estava cega, depois que o pesar foi esquecido demos continuidade, o sexo era bom, muito bom. Consequentemente o ciúmes aumentou, Airton me deixava acreditar que estava no controle de tudo, ele deixava o pagamento comigo, me afastava de algumas amigas com a desculpa de que elas eram m*l faladas e isso acabaria me incluindo na mesma categoria, de boa vontade ele me deixava manter conversa com alguns amigos, mas não todos.
Alguns não eram de confiança e outros não, até hoje não seu como ele fazia a distinção, em shows dançava apenas com um, na minha mente distorcida encarava isso como um cuidado, meu namorado era super protetor, era só isso, minha mãe começou a perceber que eu não saía mais com minhas amigas e algumas delas não iam mais a minha casa, isso incluía Giancarlo.
Pisquei atordoada quando o ônibus estacionou no ponto final, subi desanimada a ladeira que me conduzia até minha rua, morava na periferia da Zona Norte, era um lugar modesto e barulhento, mas que havia se tornado meu lar, cumprimentei alguns conhecidos e cheguei rapidamente a rua sem saída onde ficava minha casa, na verdade, a casa era da minha tia-madrinha.
No início do terceiro ano de relacionamento com Airton, havia começado a exibir traços de lucidez, começamos a brigar mais, cada vez mais, mesmo que estivesse comprando secretamente tupperware para nossa futura casa pois acreditava que iríamos nos casar um dia e queria comprar as coisas com antecedência com um pequeno pagamento que recebia por meus serviços de babá.
Mas uma coisa estalou em minha mente, havia passado alguns dias de férias no interior onde a família da minha mãe morava, ela sempre arrumava essas viagens para me afastar de Airton, e acabou que durante esses dias fiquei com outro cara, nada demais, apenas beijos, minha irmã viu e quando chegamos na cidade e Airton foi me ver ela acabou contando a ele, eu não a culpo, ela era apenas uma criança e eu fora imprudente, lembro de ter inventado uma história qualquer e ele acreditou.
Fiquei surpresa e frustrada, naquele momento percebi, eu não me importava que havia sido inescrupulosa e infiel, não me importava que ele soubesse, no fundo queria que ele acreditasse e terminasse tudo, mas Airton acreditou ou fingiu acreditar e continuamos nosso teatro de Romeu e Julieta do Sertão e aquela foi apenas a primeira de muitas outras infidelidades.
Naquela época, a oportunidade da minha fuga surgiu em uma reunião familiar de natal, no sítio de uma tia, minha madrinha que morava em outro estado estava precisando de companhia durante as férias e coincidentemente apenas eu estaria livre para ir, mas ninguém me indicou pois todos sabiam que bateria o pé e recusaria já que eles sempre inventavam essas viagens para me manter longe de Airton na esperança de acabar com nosso relacionamento, mas daquela vez eu mesma me voluntariei, ainda sorrio ao lembrar do rosto espantado de cada um dos meus familiares quando disse que viria para São Paulo, naquela época eles não viam que queria apenas uma saída, acho que nem mesmo eu sabia disso.
Tudo fora arranjado, e parti no dia 09 de janeiro de 2016, Airton havia ficado transtornado e dito que era uma estratégia de minha família para nos separar, e aquela foi a última vez que encenei nosso drama shakespeariano, fora o último ato daquela peça, eu não voltei.
A visita que duraria apenas três meses perdura até hoje, oito anos depois, eu consequentemente fiquei morando na casa da minha tia depois que ela se mudou para o Piauí, arrumei um emprego, entrei na faculdade, meu relacionamento com Airton terminou um mês depois que cheguei aqui, minha tia me disse que ele estava com outra, eu acreditei ou fingi acreditar.
Na verdade, não me importava se era verdade ou não, apenas liguei para ele e terminei, eu chorei, liguei para minha mãe chorando e nem sei direito porquê, sofri um pouco... por um dia, pois no seguinte me recusei a derramar minhas lágrimas por ele, ou pela versão distorcida de casal que nós éramos.
A minha Tia Sônia, dona da minha atual casa, havia tentado me empurrar para o Arthur desde a minha chegada, ela conhecia a família dele, um bom partido, era o que ela sempre ficava me dizendo, na visão dela ele era um pé de p*u que tinha sombra... eu nunca achei que essa expressão fizesse muito sentido, pois, qual o pé de p*u que não tem sombra?
Consequentemente me aproximei de Arthur, começamos a ficar e por coincidência ou não também não houve um pedido de namoro, a coisa apenas ficou séria depois de um tempo e voltamos novamente a teoria dos três amores, lembro que no artigo falava que, o segundo amor é mais complexo, ele faz a gente questionar quais tipo de relações queremos ter e ensina sobre o que é amar.
Por ser uma relação de muito aprendizado causa feridas diferentes do primeiro amor, que é doído por natureza, pois é quando sentimos muito pela primeira vez na vida. O segundo amor poderia ser uma relação baseada em mentiras e não correspondido, na qual ficávamos presas por acreditarmos erroneamente que podíamos fazer algo para mudar o outro. Ele também pode levar muito mais tempo para ser superado.
Com certeza não era o amor que estava vivendo no momento, eu não mentia, mas não amava o Arthur, nunca disso isso a ele. Ele não queria enxergar que eu não queria nada mais sério, então era ele quem estava mentindo para si mesmo e apesar de estar apaixonada por ele, não o amava.
Pode ser que para ele fosse doloroso caso terminássemos, mas depois do que passei sei que quando terminar irei sofrer um pouco, pois ele é um cara legal, mas estamos em sintonias diferentes, em estágios diferentes e irei superar, talvez eu chore por... dois dias? Quem sabe.
O artigo também dizia que terceiro amor, "o terceiro e último amor, é aquele inesperado, que chega sem avisar e acontece naturalmente. A conexão é tão forte e recíproca, que o amor não tem roteiro e a relação apenas acontece. Quando você se dá conta, já está fazendo planos que incluem a pessoa e firmando um compromisso maduro por causa de toda a bagagem anterior adquirida."
Ao sair do chuveiro refletindo sobre essa teoria, volto a perceber que conseguiria encaixar facilmente Airton como meu segundo amor também, ele foi problemático, avassalador, doído e me ensinou muitas coisas, por mais que tenha sido uma relacionamento tóxico me amadureceu muito e moldou parte da mulher que sou hoje.
Vasculhando o celular enquanto finalizo o cabelo e o seco com secador noto uma nova solicitação de amizade no f*******:, abro a notificação apreensiva, me permito cair atônita na cama e por um instante tenho a vaga certeza de que minha alma saiu do corpo ao ver o nome... Giancarlo De Lucca Silva quer ser meu amigo no f*******:, oh c*****o! Isso só pode ser o Karma."
...
Tentando me equilibrar no ônibus tento ignorar a sensação de inquietude que me abalara desde a noite passada, me recusei a abrir a notificação e vasculhar o perfil de Giancarlo, tinha receio que mesmo esse pequeno movimento me denunciasse de alguma forma.
Mas denunciasse o quê? Havíamos rompido uma amizade de longa data, claro, havia um assunto m*l resolvido entre nós, era como um elefante branco na sala, uma elefante que preferia continuar ignorando e varrendo para baixo do tapete... o celular parecia uma ameaça silenciosa a minha paz, eu não havia respondido a solicitação.
Apenas deixei o convite lá, pairando no universo da indecisão, será que estava preparada para reaver a amizade do meu Ex-melhor amigo? Estava preparada para saber como ele havia seguido a vida e para pedir desculpas por tê-lo deixado de lado por um relacionamento abusivo de merda? Eu definitivamente não estava preparada para aquilo.
Ainda no mundo da lua entrei no prédio e fui direto para minha sala, meu corpo já seguia o caminho por si só, pois minha mente estava divagando em minhas lembranças tentando lembrar quando foi a última vez que falei com Giancarlo, a última palavra que dissemos um ao outro? Era vergonhoso, agora entendia, quando Meredith Grey em seu primeiro rompimento com Derek mencionou que não se lembrava do último beijo deles, eu não entendi na época em que assisti ao episódio pela primeira vez.
Como uma pessoa não se lembrava de um beijo, quer dizer... eles se beijavam tanto que virou uma coisa banal e eles faziam sem nem se dar conta?
Mas não, era porque tudo seguia normalmente e a gente nunca pensa que é a última vez... não houve uma despedida, houve apenas um desentendimento crucial e feio e paramos de nos falar, não houve um encerramento digno, apenas nos afastamos e eu não me lembrava da última vez que o vi, pois estava bêbada. Ao menos disso eu lembrava.
Era imperdoável não se lembrar o motivo do nosso rompimento, sei que foi por causa do meu namoro, Airton não gostava da nossa amizade, na mente de macho escroto dele, um homem não poderia ser amigo de uma mulher, não sem ter a vontade de entrar nas calças dela, se já não estivesse fazendo isso.
A verdade? Naquela situação ele tinha razão, mas o vilão não era Giancarlo, era eu.
Até mesmo eu percebi que acontecia algo muito intenso e primordial entre Giancarlo e eu, naquela época tínhamos um entendimento além do normal, ele não me excluía por que eu era diferente, ele gostava disso. Ele me ajudava a treinar para meus jogos e estudar, o ensinei a dançar forró, quando meu pai estava mergulhado em seus surtos alcoolizados ele me trazia sorvete e compartilhávamos os fones de ouvido sentados na calçada em um canto escuro área externa ouvindo Chase Atlantic e comendo sorvete direto do pote, ele era de uma família descendente de Italianos mais abastada que a minha, estudava em escola particular, mas eram pessoas simples e humildes apesar de serem donos de um comércio local.
Ambas as nossas famílias torciam por um namoro entre nós, e mesmo meu pai que era bruto e rude costumava discutir sobre futebol com ele e tinha certa simpatia por ele. Será que o velho o aprovaria? Ou será que se descobrisse sobre um eventual namoro entre mim e Giancarlo, ele surtaria como fez com Airton ao ponto de amolar seu facão e tudo? Não tinha certeza, jamais saberia.
— Está no mundo da lua, terrinha?
Pisquei atordoada ao encarar o rosto bonito de Cauã, ele era um moreno atraente, dentes alinhados, barba sempre aparada, cabelo sempre cortado e sobrancelhas bem delineadas, de certa forma ele era mais vaidoso que eu para falar a verdade. Era costume ficarmos à espera dele no saguão da faculdade enquanto ele ia escovar os dentes, passar protetor solar ou sei lá o que diabos ele fazia na hora de ir embora, o fato era que ele sempre nos atrasava.
— O que você quer, i****a?!
—Falei que ela não ouviu nada.
—Estamos discutindo a respeito do trabalho, que tal um sorteio para decidir a ordem de quem vai apresentar? — Júlia esclareceu.
— Por mim tudo bem.
— O que foi, Dara? Você está mais enfezada que o normal. — Bia perguntou sorridente, mas um pouco preocupada.
— Nada demais.
Murmurei distraidamente enquanto lia distraidamente o conteúdo da aula no monitor do notebook.
—Vish, fala logo vai. — Grunhi, Laila deu de ombros despreocupadamente, ela sabia que falaria no meu tempo, se quisesse.
— Pensei que vocês iriam fazer o sorteio? — Questionei ao olhar para todos na mesa.
— Calma. — Pediu Cauã.
(...)
Batia o pé enervada mais uma vez, fazia uns 20 minutos que Cauã estava entocado no banheiro masculino e se ele demorasse mais eu iria perder meu fretado da empresa, contive meu ímpeto de agredi-lo quando o dissimulado apareceu como se nada estivesse acontecendo.
—Meu Deus, você é tão metrossexual!
— Só estava escovando os dentes!
— Até parece, vai dizer que não passou hidratante?
— Não. — disse sem muita convicção e ergui as sobrancelhas. — Tá, passei. Mas isso não vem ao caso!
—Fala sério.
— Vamos logo.
Um a um passamos na catraca e quando chegou a vez do moreno ele fez uma cara de desgosto.
— O que foi?
— Meu celular descarregou.
— Vai se lascar, Cauã! Por que você não imprimi esse RA?! Você é tão lerdo!
Revirei os olhos enquanto as meninas xingavam Cauã, ele foi atrás do segurança para liberar sua saída, desci as escadas com a intenção de comprar um açaí na barraquinha em frente a faculdade, por sorte havia apenas uma pessoa na minha frente e me assustei ao sentir uma mão possessiva em meu ombro e me virei irritada para repreender o engraçadinho, mas mordi a língua e quase me engasguei com ela ao dar de cara com ele...Giancarlo.
— Sabia que era você. — Declarou com um sorriso arrogante.
Minha boca abria e fechava enquanto tentava formular um cumprimento educado ou indiferente, ou algo educado e indiferente, mas tudo desandou quando o olhei de cima a baixo, era uma extensão longa demais para se observar em apenas um olhadela casual e sabia que meu raciocínio havia ido para o espaço.
— Era você ontem.
Constatei debilmente ao fitar os penetrantes e risonhos olhos verdes inconfundíveis, ele estava vestido com uma roupa social, camisa azul-marinho da CK, calça social preta, sapatos pretos... Deus do céu, aquele adolescente franzino que era alto demais para a idade virou um homão da p***a!