Acordei com o som do meu despertador e, por um instante, pensei que ainda fosse madrugada.
Os raios de sol ainda não haviam atravessado completamente as cortinas do meu quarto, e o ar estava fresco, com aquele cheiro característico da manhã na cidade.
Levantei-me devagar, espreguicei e fui direto até a janela.
O coração disparou.
A luz estava acesa.
Não era a luz de sempre, acendendo no fim da tarde ou à noite. Era muito mais cedo.
O que significava?
Fiquei alguns segundos apenas olhando, sem respirar, tentando entender se estava realmente vendo aquilo.
A luz vinha do último andar da casa ao lado.
E havia alguém dentro.
A silhueta era familiar.
Adrian Vasconcelos.
Ele estava de pé, encostado na janela, olhando fixamente para algo em suas mãos.
Meu coração disparou.
Talvez ele tivesse percebido que eu olhava.
Talvez não.
Não sei quanto tempo fiquei ali, presa à minha própria curiosidade.
Mas o tempo parecia não existir.
Respirei fundo e me afastei da janela.
Precisava me concentrar.
Tinha aula naquela manhã, e não podia me perder pensando no vizinho misterioso.
Desci rapidamente, tomei um banho, coloquei meu uniforme da faculdade — ou melhor, roupas confortáveis: uma calça jeans escura, uma blusa de manga comprida clara, tênis e meu casaco leve.
Passei um pouco de maquiagem básica: base, corretivo, rímel e um gloss discreto. Nada exagerado.
Peguei minha bolsa, arrumei o cabelo em um r**o de cavalo baixo e saí de casa.
O ar da manhã estava fresco, mas agradável. A rua ainda estava silenciosa, e a cidade parecia dormir sob a luz suave do sol.
Enquanto caminhava até a universidade, meus pensamentos continuavam voltando para aquela luz.
Por que ele acenderia tão cedo?
Será que tinha algo urgente?
Ou talvez… apenas fosse um hábito estranho dele.
Tentei me convencer de que não significava nada, mas não funcionou.
Ao chegar ao campus, encontrei Lucas esperando por mim perto da entrada do prédio principal.
— Bom dia, Helena! — disse ele, sorrindo. — Você está atrasada hoje.
— Bom dia — respondi, tentando parecer mais calma do que realmente estava. — Mas não muito.
— O que foi? Você parece pensativa. — Ele franziu a testa. — Algum problema na primeira semana?
Sorri, tentando disfarçar.
— Só estou tentando me acostumar com a rotina.
— Hummm… rotina ou mistério? — Ele levantou uma sobrancelha. — Aposto que ainda está pensando na casa da rua das acácias.
Meu coração deu um pulo.
— Como você sabe?
— Ah, Helena… essas coisas são óbvias. Você passa mais tempo olhando para aquela direção do que para as aulas.
Revirei os olhos, mas não pude evitar sorrir.
— Talvez você esteja certo.
— Aposto que ainda viu o homem misterioso, não é?
Suspirei.
— Sim.
Ele me olhou com um sorriso de satisfação.
— Eu sabia.
Caminhamos juntos até a sala de aula, conversando sobre assuntos triviais para tentar acalmar minha mente.
Mas, mesmo em meio ao burburinho da universidade, meu pensamento não saia da casa ao lado.
Durante a aula de Arquitetura, senti que meus olhos desviavam constantemente para a janela da sala, como se estivesse esperando ver alguma movimentação.
Mas era impossível.
Nada mudava.
Depois da primeira aula, encontrei Camila e Bia perto do café do campus.
— Bom dia, Helena! — disse Camila, sorrindo. — Como está hoje?
— Ansiosa — respondi, tentando parecer casual. — E vocês?
— Bem! — disse Bia. — Prontas para mais um dia de descobertas na cidade.
Ri.
— Descobertas?
— Casas antigas, histórias escondidas… vocês sabem, coisas de cidade pequena. — Camila piscou o olho.
Sorri, lembrando da nossa conversa no mercado.
— Então hoje vamos tomar café juntas antes da aula? — sugeri.
— Com certeza! — disseram as duas em uníssono.
Sentamos juntas e pedimos café e alguns pães.
Enquanto conversávamos sobre os professores, matérias e pequenos hábitos da cidade, minha mente continuava a divagar.
A casa ao lado.
Adrian.
A luz.
Depois de um tempo, percebi que estávamos rindo e conversando, mas meu coração ainda batia acelerado.
Algo dentro de mim dizia que a rotina estava prestes a mudar.
Quando terminei o café, me despedi das meninas e caminhei para a próxima aula.
E foi nesse caminho que notei novamente a casa ao lado.
A luz ainda estava acesa, mais cedo do que qualquer dia anterior.
Meu coração disparou.
Ele estava olhando para a rua novamente, como se esperasse algo.
Segurei minha bolsa com mais firmeza e continuei andando.
Entrei no prédio da faculdade e tentei me concentrar nas aulas.
Mas era impossível.
Minha atenção estava em outro lugar.
O dia passou lentamente. Cada hora parecia mais longa do que a anterior.
Finalmente, ao fim das aulas, caminhei de volta para casa, tentando não pensar no que estava por vir.
Mas, ao me aproximar da minha rua, meu corpo congelou.
Ele estava lá.
Adrian Vasconcelos.
De pé, encostado no portão.
Não se mexeu quando me viu.
Não disse nada.
E, como sempre, havia algo nos olhos dele que me deixava sem fôlego.
Segurei a respiração e caminhei um pouco mais rápido.
Quando passei pela porta da minha casa, olhei mais uma vez.
Ele continuava ali, imóvel, como se esperasse que eu fizesse o primeiro movimento.
Entrei rapidamente, fechei a porta e apoiei as costas nela.
Meu coração ainda batia acelerado.
— Que homem é esse? — murmurei. — E por que parece que cada vez que eu olho, algo muda?
Decidi que precisava me distrair.
Peguei minhas compras do dia anterior, organizei algumas coisas na cozinha e comecei a preparar o jantar.
Mesmo assim, meu olhar não conseguia se afastar da janela.
E, quando finalmente sentei à mesa para comer, uma parte de mim sabia que aquela luz… não era apenas uma luz.
Era um aviso.
Um convite.
Ou talvez… um segredo prestes a ser revelado.
O sol começou a se pôr, e o céu se pintou de tons laranja e rosa.
A luz no último andar da casa ao lado continuava acesa.
E, desta vez, parecia mais intensa.
Mais viva.
Como se estivesse esperando por algo — ou alguém.
Segurei o garfo com mais força.
Não sabia se estava com medo ou curiosidade.
Provavelmente ambos.
E, no fundo, algo me dizia que aquela luz que agora acendia mais cedo do que o normal mudaria tudo.
Mudaria minha rotina.
Minhas noites.
E, talvez, minha vida inteira.
Porque, pela primeira vez, senti que o segredo daquela casa não era apenas sobre ele.
Era também sobre mim.
E eu ainda não fazia ideia de até que ponto isso me afetaria.
Enquanto terminava de jantar, ouvi um leve barulho vindo do lado de fora.
Imediatamente, meus olhos se voltaram para a janela.
Mas, desta vez, não havia nada.
Nada além do silêncio.
O vento balançava as árvores suavemente, e as sombras dançavam nas paredes da minha casa.
Suspirei.
— Amanhã, vou descobrir o que isso significa — murmurei.