O sol m*l havia surgido quando Isla acordou com uma leve batida na porta.
— Srta. Ferraro — disse uma voz feminina do outro lado —, sua primeira avaliação médica será em uma hora. Um uniforme foi deixado sobre a cômoda. Café da manhã às sete.
Ela levou alguns segundos para se lembrar de onde estava.
Do porquê estava ali.
O quarto estava frio. O lençol escorregou de seus ombros enquanto ela se sentava, com os cabelos bagunçados e o peito pesado.
Seu corpo já não lhe pertencia mais. A rotina dela, tampouco.
Agora era tudo… dele.
Ela vestiu o conjunto branco deixado para ela — uma blusa de manga longa e uma calça de algodão. Tudo confortável, neutro, quase impessoal.
Como se ela fosse uma paciente. Ou pior: uma cobaia.
Desceu as escadas e foi levada por uma funcionária jovem até a sala de jantar.
Lá, uma bandeja individual a aguardava: frutas cortadas com perfeição, torradas integrais, ovos mexidos, suco natural. Tudo saudável. Tudo calculado.
Isla comia devagar, enquanto as engrenagens da mansão começavam a girar em silêncio.
Às oito em ponto, foi conduzida por Donatella a um consultório instalado dentro da própria casa — um ambiente moderno e estéril.
— Dr. Enzo está a caminho — informou a governanta. — É o médico pessoal do Sr. Marchesi. Tudo que for feito aqui será enviado a ele.
Isla assentiu, sentindo o estômago se revirar.
Minutos depois, a porta se abriu e um homem de meia idade, de jaleco e feições serenas, entrou na sala.
— Srta. Ferraro? Bom dia. Sou Enzo Mattioli. Fique tranquila, apenas exames de rotina. Nada será feito sem o seu consentimento.
Ela prendeu a respiração. Consentimento. Era irônico ouvir essa palavra ali.
O exame seguiu profissionalmente: coleta de sangue, avaliação clínica, perguntas pessoais. Tudo documentado em detalhes.
— O senhor Marchesi exigiu um acompanhamento rigoroso. Seu bem-estar é prioridade absoluta — disse o médico, enquanto anotava. — Sua saúde reprodutiva está excelente, mas faremos mais exames nos próximos dias.
Ela assentiu em silêncio.
Quando saiu do consultório, o relógio ainda marcava nove e meia. E o resto do dia... parecia esticar diante dela como uma prisão de ouro.
Voltou ao quarto. Leu um pouco. Andou pelo jardim. Evitou os olhos dos funcionários.
A cada passo, sentia como se estivesse sendo observada.
Não com maldade… mas com expectativa.
À noite, durante o jantar — novamente sozinha —, sentiu o estômago apertar ao perceber que já estava se perguntando se ele viria.
Mas Darian Marchesi não apareceu.
Nem uma palavra. Nem um recado.
Ela voltou para o quarto e se sentou na poltrona.
Você é só um contrato, ela se lembrou.
E contratos não sentem falta de quem os assinou.
O segundo andar da mansão era silencioso demais.
Isla caminhava devagar pelo corredor longo e amplo, observando os quadros nas paredes, as molduras de madeira escura, o piso impecavelmente limpo que não produzia som algum sob seus pés descalços.
Sentia-se deslocada ali. Como uma peça esquecida em um tabuleiro caro.
De volta ao quarto, tentou escrever algo em seu caderno velho de anotações. Mas as palavras não vinham. Nem sobre Ava, nem sobre si.
Ela já não sabia quem era naquela casa.
Ao anoitecer, Isla foi chamada novamente para o jantar. A mesa posta com perfeição. Guardanapos dobrados com geometria militar. Uma segunda taça foi colocada à sua frente — como se alguém fosse se juntar a ela.
Mas ninguém veio.
Darian não apareceu.
Ela comeu em silêncio. A comida já não tinha gosto. Era apenas rotina.
Nutrir o corpo para que ele funcione.
Simples assim.
Ao voltar para o quarto, já com o céu escuro do lado de fora, Isla parou diante da porta.
Seu reflexo no vidro da janela mostrava olhos cansados, ombros caídos, e algo diferente… uma inquietação.
Como se algo dentro dela estivesse mudando.
Tirou os sapatos e deitou-se na cama, de lado, os olhos presos ao teto.
Por que ele ainda não voltou?
A pergunta surgiu sem aviso. Sem lógica. Mas ela não conseguiu afastá-la.
Sentia raiva por pensar naquilo. Ele era o homem que a comprou. Que a obrigou a assinar cláusulas absurdas. Que falava com ela como se fosse parte de um plano de negócios.
E, mesmo assim…
...por que aquele silêncio dele incomodava mais do que as ordens?
Virou-se na cama, os lençóis frios roçando sua pele.
Será que ele esperava que ela estivesse ansiosa?
Se esperava, não estava errado.
Mas Isla não sabia se era ansiedade… ou medo.
Ou algo pior.
Curiosidade.
Levantou-se e foi até a janela, encostando a testa no vidro gelado. O jardim estava escuro. Nenhuma movimentação.
E então, como se o destino tivesse ouvido seus pensamentos, um farol cortou a noite.
Um carro preto parou na entrada da casa.
Isla congelou.
As portas da frente se abriram. Um segurança apareceu. Depois, ele.
Darian Marchesi.
Alto. Preciso. A sombra dele atravessando o saguão de mármore como se fosse o dono do mundo.
Ele olhou para cima, bem na direção das janelas do segundo andar.
Ela recuou instintivamente.
O coração batia tão forte que ela sentia o sangue nas pontas dos dedos.
Não sabia se ele a viu.
Mas sabia que, naquela noite, ele estava ali.
E que, mais cedo ou mais tarde, voltaria a bater naquela porta.