Rebeca não gostou de saber que Neto iria. Sentiu um pouco de ciúmes, uma insegurança, porque só os dois era uma coisa, e o tio deixava que fossem amigos. Cresceram juntos, mas, com outras pessoas por perto, seria mais difícil. Ela não queria ir naquela festa porque nunca tinha ido a um aniversário. Não sabia como se vestir ou se comportar, nunca tinha bebido ou dançado.
A primeira coisa em que pensou foi na roupa. Tinha dinheiro guardado para comprar um coturno. Ela tinha ganhado um usado e amou, usou até estragar. Antes de decidir se iria ou não, começou a pensar no que poderia vestir. Tinha ouvido na sala de aula que todas iriam de vestido e salto alto. Na sexta-feira, faltou da escola. Célio estava lá trabalhando e falou que ia buscar Neto para irem juntos à festinha da amiga deles.
O tio de Rebeca não sabia de nada ainda. Ficou curioso e perguntou que festa era aquela. Ela contou e falou que não ia. Ele disse que ela podia ir, se quisesse.
Rebeca ficou muito ansiosa pensando em ir. No sábado, dia seguinte, foi cedo comprar o coturno. Aproveitou que estava na cidade e comprou um perfume diferente do Tabu. Não que não gostasse dele, mas era fraco e lembrava o tio, que passava muito. O nome do perfume era em inglês, tinha uma fragrância adocicada que lembrava balas, chicletes.
Quando voltou da cidade, encontrou na frente da casa de Neto a Tassiane com a mãe dela. Elas estavam dentro do carro. Tassiane desceu animada e falou que tinha ido buscá-la. A mãe dela gritou:
— Vamos logo, vocês duas, tenho muitas coisas pra fazer. Seu tio está em casa, Rebeca? Tassiane, você disse que ela ia estar pronta!
Tassiane falou só para Rebeca ouvir, rindo:
— Você achou que ia se livrar de mim faltando à aula? Que boba! Minha mãe vai pedir ao seu tio, quero ver ele negar. Vai ser muito legal, você vai ver.
Foram entrando no quintal, que era enorme. Deu para ver que elas ficaram reparando em tudo. Apesar de ser um centro de reciclagem, não era sujo ou bagunçado. Tinha o galpão onde ficavam as coisas, mas tudo no seu canto lá fora, tudo certinho. Na cabeça da maioria das pessoas, lá era muito sujo, com lixo espalhado por todo canto, ratos, cachorros, mas, na realidade, não era assim.
Elas ficaram do lado de fora da casa. Rebeca chamou o tio, e ele convidou as duas para entrar. A mãe de Tassiane queria que Rebeca dormisse na casa delas. O tio dela deixou. Rebeca foi para o quarto arrumar as coisas. Tassiane foi logo atrás, sentou na cama e falou surpresa, reparando em tudo:
— Uau, você é o tipo de menina que cola pôsteres de famosos na parede. Eu não imaginava isso. Quem diria, hein!
Rebeca falou, envergonhada:
— Eu sou uma pessoa normal.
Ela respondeu rindo, mexendo no porta-joias dela:
— Ahhh, eu não tinha percebido. Você é toda laranjinha, achei que não era do planeta Terra. Nossa, você tem um colar da amizade. É seu e do Neto? Eu sempre quis ter um desse, mas não tinha com quem usar.
Rebeca respondeu:
— Pode pegar pra você, eu achei. Tudo isso eu peguei do lixo. O Neto vai mesmo? No aniversário?
Ela falou, fuçando as coisas de Rebeca:
— Ele vai, né? Você foi tão chata com ele naquele dia da piscina, nem parece que são mais amigos como antes. Pelo menos você ficou mais feminina depois que ele se mudou. Antes você nem olhava pra ninguém pra fazer amizade. Esse colar não funciona assim, de pegar e usar sozinha, tem que ser de duas pessoas, metade pra cada.
— O Neto acha que você é lésbica, sei lá.
Rebeca já ficou com mais ódio dele. Tassiane estava eufórica com a festa, com os planos. Foram pegar Débora. Ela levou uma bolsa gigante. Rebeca só levou uma troca de roupa. Elas tinham hábitos que ela não tinha: fazer as unhas, sobrancelhas, cuidar melhor do cabelo, hidratação, escova, chapinha. Naquele dia, Rebeca fez tudo isso com elas. O que mais gostou foi do cabelo. Ficou macio, brilhante, diferente. Elas enrolaram o cabelo dela, fizeram experimentar vários vestidos.
Rebeca não conseguia diferenciar quando estavam rindo dela ou com ela, porque, a cada prova de roupa, elas caíam na risada, mandando-a dar uma voltinha, colocar sapatos. Odiou a maioria das opções. Quando falou que queria usar o coturno, as duas disseram que não ia dar de jeito nenhum.
Tudo estava muito bem, até que começaram a se arrumar. Rebeca foi a segunda a tomar banho. Débora entrou depois dela. Quando foi para o quarto, Tassiane estava chorando, com a mãe tentando ajudar, porque o vestido não estava servindo. Elas estavam conversando baixinho. Rebeca pôde ouvir a mãe dela falando que era para ela aproveitar o grande dia, que ia ficar tudo bem, super carinhosa, tentando acalmá-la.
Rebeca ficou sem entender exatamente o motivo de tanto drama. Achou muito bonito de ver as duas. Naquele momento, desejou ter uma mãe como a dela. Logo deram um jeito no vestido. A festa foi em um salão enorme. Rebeca tentou pôr salto, mas não conseguiu andar. Tassiane falou, de saco cheio:
— Você vai ter que pôr outro vestido então, vai se trocar. Esse aí ficou perfeito em você!
Débora pegou um vestido preto cheio de brilho e emprestou um sutiã bonito, com renda. Rebeca ficou boba vendo como os s***s ficavam diferentes com sutiã de enchimento e roupa decotada. Elas passaram maquiagem nela, rímel, lápis destacando os olhos verdes. Rebeca foi contra o batom, até que Tassiane passou nela mesma e ela achou bonito. Era vermelho forte.
Sentiu-se outra pessoa. Gostou, mas ficou olhando no espelho, pensando que podia estar feia e que iam rir dela.
Foram para a festa atrasadas. Já havia bastante gente lá. A galera da sala estava espalhada. O centro das atenções era a aniversariante. Rebeca entrou um pouco atrás. Teve a impressão de que todos estavam olhando para ela.
Os meninos se aproximaram e deram parabéns para Tassiane. Neto estava perto também. Felipe falou oi para Rebeca e fez um comentário sobre o cabelo dela estar lindo. Saulo falou, brincando, que ela era uma menina nova. Rebeca foi ficando constrangida e nem conseguiu responder nada, apenas ficou rindo.
Neto falou oi, com um ar de deboche. Ela ignorou de ruindade, por estar brigada com ele. Ele falou com afronta:
— Achei que nem viria. Porque está vestida assim? Essa nem parece você.
Ela ignorou. Começaram a falar que tinham levado bebidas alcoólicas só para membros da gangue. Débora era medrosa e falou que podiam ser pegos. Tassiane entrou em uma discussão com Saulo, falou que ele ia estragar o aniversário dela. Ele não levava nada a sério. Eles achavam bonito ser aqueles casais ciumentos que brigavam sempre e viviam se pegando, se exibindo. Algo que Rebeca achava horrível.
Aproveitando a distração, Rebeca foi para o banheiro, tirou o batom, prendeu o cabelo e fez um coque. Quando saiu, foi sentar com eles. Débora perguntou por que ela tinha tirado a maquiagem. Novamente, Rebeca foi o centro das atenções. Felipe falou, brincando, para defendê-la, que ela não era uma boneca marionete das duas, que tinha estilo próprio e ficava gata do jeito dela. O assunto era a bebida. Tassiane estava longe. Eles começaram a beber escondido. Neto não só bebeu como também convenceu Débora, os dois estavam bem próximos. Rebeca ficou olhando com espanto, indignada. Ele começou a contar algumas coisas que estava aprontando com o primo na cidade da avó dele. Estava se gabando de ir a baladas, com amigos mais velhos.
Ela não aguentou o exibicionismo e riu com deboche. Neto era um pouco nervosinho e se irritou com ela. Falou que ela devia ter bebido muito para estar rindo feito boba. Rebeca falou, provocando, que não precisava beber para rir dele. Ele respondeu:
— É porque você é boba assim naturalmente mesmo, né? Criançona.
Ele disfarçou e deu risada, mas foi m*****o para atacá-la, e Rebeca não gostou. Ficou chateada. Todos levantaram para dançar. Com jeitinho, escondida, ela saiu e foi sentar fora, no meio dos carros.
Ficou bastante tempo lá, mais de uma hora, com a cabeça apoiada no joelho, olhando para o nada. Felipe se aproximou, perguntou se estava tudo bem e sentou ao lado dela. Rebeca falou, irônica:
— Tudo ótimo. Por que não estaria? Eu odeio festas e ainda assim vim pra essa.
Saulo e Tassiane estavam se aproximando, brigando. Felipe falou:
— Eu até estava te procurando, mas te achei por acaso. Eles nem estão vendo a gente aqui. Como que não cansam, né?! De brigar tanto. Irritam até eu.
Rebeca concordou. Ele continuou falando:
— Você ficou muito bonita arrumada assim. Não devia ter tirado o batom. Como você sabe que não gosta de beber? Já provou alguma vez?
Rebeca falou que não precisava sentir dor para saber que era r**m. Ele respondeu, soltando o cabelo dela:
— Se você não provar, não tem como saber do que gosta ou não. Toma um pouco.
Rebeca falou que não queria. Ele perguntou se ela estava chateada por causa de Neto. Ela respondeu:
— Não. Eu já estou acostumada a ser jogada de escanteio. Nunca fui a primeira opção de ninguém. É difícil pra vocês, que vivem em outro mundo, aceitarem essas coisas, né?! Vivem em busca da aprovação dos outros, expondo fotos nas redes sociais. Nem sempre é tão r**m ser invisível. Garanto que ninguém sentiu minha falta lá.
Ele falou, sem jeito:
— Isso não é verdade. Eu te vejo e senti sua falta. Não é porque ando com eles que sou exatamente igual. Por um tempo, você também andou com a gente e não deixou de ser você mesma por isso.
Rebeca falou, chateada:
— E é por isso que estou aqui sozinha há tanto tempo. Não sou uma de vocês.
Ele se aproximou mais, sorriu e disse, chegando cada vez mais perto, olhando a boca dela:
— E é por isso que eu gosto de você. Vou fazer uma coisa pra você provar e ver se gosta.
Naquele momento, Rebeca travou. Não teve reação alguma. Quando ele estava quase beijando-a, ela fechou os olhos. Sutilmente, ele encostou os lábios nos dela, dando um selinho de alguns segundos. Chupou a boca dela lentamente e a beijou.
Foram interrompidos com o barulho de vidro quebrando ali perto. Afastaram-se no susto. Deu para ouvir Tassiane pedindo para Saulo parar. Correram até eles.
Ela estava chorando, nervosa. Ele tinha jogado uma garrafa no chão. Tassiane terminou com ele ali, falou que não precisava de alguém como ele para ajudar com o bebê. Rebeca ficou confusa, assustada com aquilo. Felipe estava perto de Saulo, chamando a atenção dele.
Tassiane entrou, e só ficaram os três lá fora. Saulo estava chorando, nervoso, falando que não sabia o que fazer por ela. Os dois já iam embora. Felipe se aproximou de Rebeca e lhe deu mais um beijinho de despedida...