Capítulo 24

1459 Words
Rebeca achou muito estranho, correu se esconder atrás da mureta. O carro passou reto, seguido pelo de Noah, que entrou na frente, parando bruscamente, os dois foram derrapando quase bateram. Estava muito escuro. Pôde ver que Noah desceu e arrancou um homem de dentro, começou a gritar perguntando quem tinha mandado ele fazer aquilo, deu alguns socos. De repente duas motos se aproximaram, com dois homens em cada. Deu para perceber que tinha algo errado acontecendo, dois deles começaram a bater em Noah, ele até tentou se defender e não conseguiu, ficou caido no chão desacordado. Rebeca entrou em desespero, se odiando por não ter um celular, ficou assustada olhando de longe, o homem do carro entrou e falou para deixarem ele lá. Os outros subiram na moto, foram embora. Ela nem esperou muito, quando os viu longe, correu e se aproximou, com muito medo. Olhou para os lados, pensou em ir chamar o tio. Se tivesse alguém vindo, ela ia ver de longe, os faróis. Ele estava muito machucado, inconsciente, a roupa lavada de sangue, o rosto todo deformado, m*l dava para reconhecê-lo. Desesperada ela mexeu nele, chamou-o várias vezes, tentou sentir o pulso. Estava quase imperceptível. Procurou o celular e o achou quebrado no chão. O carro estava desligado, com a chave no contato. Ela tremia muito, nervosa. Voltou para perto dele, ajoelhou, fechou os olhos, respirou fundo. Naquele momento, soube que ele podia morrer ali nos braços dela. Não era alguém próximo, não era alguém por quem tinha bons sentimentos, mas achou que nada daquilo importava. Ela não podia ser indiferente e seguir com a própria vida. Aproximou-se mais, ainda sem entender muito bem o que estava fazendo, e falou, o abraçando forte. — A morte é simples, Noah, a vida é mais complicada. Vou te tirar daqui e isso o seu dinheiro não pode comprar, pena que você não está vendo. — Que ironia do destino. Ficou pensando em todos os momentos em que conversou com ele, lembrando de como ele a irritou naquela noite. Quando sentiu ele se mexer, gemendo de dor, tossindo sangue. Parou, porque ficou com medo dos efeitos colaterais. Por alguns instantes, muito rápido, ele acordou, tentou se levantar assustado, confuso apoiado nela. Ela só falou que era para ele entrar no carro, o amparou com dificuldade. Ele era enorme, pesado, e ela pequena. Conseguiu colocá-lo no banco de trás, pedindo para ficar acordado. Ele apagou novamente. Ela entrou no carro e foi para perto do hospital, ficou com medo de se colocar em problemas. Desceu e saiu andando, colocou a touca da blusa, alguns metros a frente, falou com um senhor, como se estivesse passando por acaso. — Moço, tem um homem machucado ali naquele carro, eu fiquei com medo de falar com ele. É melhor chamar a polícia. Uma ambulância. Curioso o senhor correu ver, foi pedir ajuda no hospital, Rebeca espiou de longe e foi embora rápido. Andou devagar por quase duas horas, madrugada adentro, toda molhada, suja de sangue. No começo, sentiu enjoo, dor de cabeça, tontura. Vomitou na rua, sentindo que ia desmaiar. Foi muito difícil chegar em casa. Caiu no quintal chorando, sentindo-se fraca, e apagou na lama. Quando estava amanhecendo, Antônio acordou, ficou preocupado com a ausência dela. Estava indo perguntar por Neto, encontrou-a desmaiada. Ela despertou com ele falando desesperado, querendo saber o que tinha acontecido. Entrou carregada. Foi tomar banho ainda muito m*l. Ele queria uma explicação, queria levá-la ao hospital, perguntou quem ela tinha ajudado. Rebeca mentiu muito bem, negou bastante. Falou que estava bebendo e que tinha usado drogas, porque não gostava mais da vida dela, de quem era. Ele pareceu acreditar. Ficou arrasado. Prometeu que iam se mudar, para um lugar melhor, recomeçar sem todo aquele histórico que ela tinha. Mas ela precisava prometer que ia parar de ajudar os outros. Ele sempre dizia que quando ela fizesse dezoito anos, a vida dela ia mudar. Ela disse que queria ir embora para o nordeste, ir morar com a madrinha. Dormiu cinco dias direto. Só saía do quarto para ir ao banheiro. m*l conseguiu comer. Por causa da chuva e da friagem, pegou uma gripe muito forte, com febre altíssima. Estava até delirando de febre. O corpo se encheu de hematomas horríveis, como se tivesse tomado uma surra. Por causa deles, não quis ir ao médico tomar medicação para gripe, ou imunidade. Até para respirar estava difícil. Foram dias horríveis. Ela achou que ia morrer. Nunca havia sentido tanta dor e m*l-estar. Também ficou com medo de Noah se lembrar ou descobrir algo. Nem sabia se ele estava vivo ainda. Nessa hora, sentiu falta de ter um celular. Como ficou muito m*l, o tio começou a perceber que ela tinha mentido. Mesmo assim, ela continuou escondendo a verdade, jurando que não tinha curado ninguém. Quando Neto voltou de viagem, foi visitá-la. Rebeca estava deitada na sala, embaixo do cobertor. Ele perguntou se estava melhor. Célio contou que ela tinha ficado gripada, mas só isso. Ela falou que ia ficar bem logo. Neto se aproximou para deitar em cima dela no sofá. Rebeca chamou a atenção dele, brava, porque doeu. Ele era pesado. Se ela estivesse bem, não teria reagido daquela forma. Ele se assustou, até pediu desculpas e levantou rápido. Ela pediu para ele ir embora. Ele falou, chateado: — Por quê? Eu só vim embora pra vir ficar com você, não vou chegar mais perto, já entendi que você não quer. Vamos lá pra casa assistir? Ela só estava apreensiva e com medo de sua realidade. Ninguém podia ver as marcas, porque não teria como explicar. Nem o tio dela tinha visto. Falou que precisava descansar. Ele respondeu: — Tá me tocando, né! Vou embora. Se você mudar de ideia, sabe onde me encontrar. E é você que tá estragando a nossa amizade, não eu. Eu tô de saco cheio disso! Ela ficou muito triste, mas não disse nada. Dois dias depois, foi à casa dele no final do dia. Célio estava lá, disse que Neto tinha saído, mas que já voltava. Ela entrou para esperar. Foi ao quarto dele, ligou a televisão, pegou uma blusa de moletom dele e vestiu, porque tinha saído de casa com uma fininha e estava esfriando. Deitou no tapete. Quando ele chegou, falou só oi, bem sério. Ela respondeu, sentando-se: — Oi. Desculpa por ter te tratado daquele jeito, é que você não entende, ninguém entende. Ele estava mexendo no guarda-roupa, ignorando-a. Falou de costas: — Vou tomar banho. Rebeca respondeu, chateada: — Posso ficar aqui ou você quer que eu vá embora? Ele disse: — Tanto faz, você só faz o que quer quando quer e nunca se importa com o que eu quero. Ele falou e já entrou no banheiro, que era no quarto mesmo. Ela voltou a deitar, pensando nos dois, na vida dela. Sempre se privou de tudo, e aquilo só estava a deixando m*l consigo mesma. Era proibida de ajudar as pessoas, não devia amar ninguém por isso, mas ajudou alguém de quem nem gostava. A cada dia que passava, mais confusa e frustrada ficava. Só queria uma vida normal, cometer erros normais e ter uma família de verdade. Ele saiu do banheiro já vestido e disse com deboche: — Decidiu ficar? Ela respondeu no mesmo tom: — Eu só faço o que quero, esqueceu? E você tem uma televisão ótima, então... Ele deu um sorrisinho, falou que tinha um filme novo de que ela ia gostar. Ela ficou sentada no tapete enquanto ele colocava. Ele pegou o travesseiro e o edredom, arrumou para apoiarem a cabeça. Se deitou um pouco afastado. Ela foi e deitou encostada, colocou a cabeça em cima do abdômen dele, o abraçou afetuosa, ficou muito perto, como um casal. Ele ficou quieto, sem entender, mas logo correspondeu ao abraço. Se ajeitou melhor, puxou a perna dela mais para perto, em cima das suas, ficou fazendo carinho no braço e no cabelo dela, adorando aquilo. O filme começou. Rebeca estava prestando atenção, entretida. Olhou para ele e ele já estava olhando. Ela perguntou: — O que foi? Não tá gostando do filme? Ele respondeu, abraçando-a mais: — Prefiro ficar olhando você. Matando as saudades. Ela sentiu vontade e se aproximou sutilmente para dar um beijinho. Ele ficou parado deixando ela tomar a iniciativa e correspondeu. Foi bem suave, um selinho. Ele sorriu e deu mais um. Rebeca quis continuar. Começaram a se beijar lentamente, foram aumentando a intensidade, encaixando seus lábios com uma química inegável. Ele estava apertando-a um pouco, deslizando as mãos pelo corpo todo. Ela começou a sentir um calorão, uns arrepios. Agindo instintivamente, colocou a mão embaixo da camiseta dele para fazer carinho. Estava sentindo o abdômen trincado, as costas definidas.
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