Theo Moraes.
Cheguei no batalhão super atrasado, ótima impressão pra se deixar no primeiro dia. Entrei em contato com o sargento e com as informações dele consegui chegar até o local onde ele me esperava.
Theo: Peço mil desculpas pelo atraso senhor, aconteceu um imprevisto, ainda estou me acostumando com o Rio de Janeiro. – Inventei uma desculpa qualquer tentando não deixar transparecer tanto o meu nervosismo.
- Tudo bem, espero que isso não se repita, o lugar que vou te designar não tolera nenhum tipo de atraso. – Falou firme e eu concordei em silêncio.
Theo: Estou ansioso por isso senhor.
- Espero que esteja preparado para tal responsabilidade capitão, eu coloquei a minha mão no fogo por você e eu não costumo fazer isso por muita gente.
Theo: O senhor não vai se decepcionar. – Me mantive firme e ele assentiu.
- Bom, assim que você me avisou que aceitaria a minha proposta eu entrei em contato com alguns colegas que são pessoas bem importantes nesse meio, consegui uma vaga como capitão do BOPE para o senhor. – Estremeci quando ouvi aquilo. – Mas antes vai observar de perto como tudo funciona e vai passar por um teste de aptidão, se passar, a vaga é sua. Se considere sortudo, eles não costumam aceitar pessoas assim, considere isso uma honra e um agradecimento pela sua ajuda naquele confronto em Santa Catarina. – Respirou fundo. – Eu não teria saído vivo se não fosse você e a sua equipe.
Theo: Eu só fiz o meu trabalho, senhor, mas muito obrigado por essa oportunidade, eu prometo fazer juízo a honra que me está sendo dada. O senhor não irá se arrepender. - Engoli seco.
- Tenho certeza que não, só espero que me prove que não estou errado. Hoje você pode tirar o dia para observar como tudo funciona e ir se acostumando com essa sua nova vida, o teste de aptidão deve acontecer daqui umas semanas e você vai ter tempo suficiente para se preparar, tem alguma dúvida? – Balancei a cabeça sinalizando um não - Ótimo, você está liberado para conhecer o lugar que agora você faz parte, se precisar de ajuda para conhecer, tem um cadete, O Galvêas, ele estará te esperando no pátio principal, boa sorte e seja bem-vindo.
Theo: Muito obrigado Sargento, tenha um bom dia. – Agradeci e saí da sala, parando no corredor para pensar.
Eu fiquei incrivelmente feliz por aquela chance, afinal, de onde eu venho todo policial tem o sonho de um dia fazer parte do Batalhão de Operações Especiais. Mas falar sobre o caminho que me trouxe aqui sempre me faz sentir fraco e vulnerável, sinto que a qualquer momento isso pode me desestabilizar de uma forma que vai prejudicar todo o meu desempenho até chegar aqui. E a culpa vai ser unicamente minha.
A missão que me trouxe até aqui foi a pior da minha existência como policial, o sargento foi convocado para estar lá em uma reunião importante com outras pessoas em cargos tão importantes quanto o dele.
Até hoje eu não sei como isso aconteceu, mas segundo ele, foi vítima de algum tipo de assalto e ao descobrir que ele era da polícia levaram ele pro morro como um presente pro chefe de lá. Nisso a minha equipe foi convocada pra tirar ele de lá, éramos os melhores no que fazíamos, mas aquilo era quase um suicídio pela quantidade de soldados que eles tinham. Seria sorte se o sargento ainda estivesse vivo.
Como sempre o Micael estava do meu lado, éramos imbatíveis, todo mundo dizia que se estivéssemos juntos poderia vir um exército que a gente derrubava sem nenhum esforço. Ele foi o melhor parceiro que eu já tive na vida.
Nos conhecemos ainda quando moleques, pouco tempo depois de eu ter me mudado para Santa Catarina, meu pai e o dele se tornaram grandes amigos e com isso nós passamos a maior parte do tempo juntos. Desde a escola, o curso de cadetes, até chegarmos no nosso grande sonho juntos, eu era capitão e ele estava logo ao meu lado, feliz por tudo que eu e ele conquistamos juntos.
Estávamos só no começo de algo que sonhamos durante a nossa adolescência inteira, e em questão de segundos isso se dissipou e foi embora junto com ele naquele fatídico dia.
Eu fiquei nervoso quando soube do que teríamos que enfrentar indo pra aquela missão, mas como sempre ele me deu força e disse que aquilo era fichinha pra gente, só mais uma missão perigosa dentre inúmeras outras que nós já passamos e ainda iríamos passar.
Antes tivesse sido só mais uma.
Reunimos a nossa equipe e depois de planejarmos como seria a invasão fizemos a nossa oração de sempre e saímos em busca de mais um sucesso na missão. Decidimos que seria algo pacifico, apenas iríamos buscar o sargento e sair sem fazer nenhuma matança. Não seria bom pra nenhum dos dois lados começar uma guerra naquela hora, nós estávamos em desvantagem, mas os nossos armamentos eram muito superiores aos deles.
Entramos pelo caminho da floresta que dava no morro, até onde nós sabíamos o sargento estava em uma salinha preso na boca principal. Eu e o Micael iríamos entrar e sair sem ser vistos, se precisasse estaríamos com silenciador e os outros estavam lá fora esperando as nossas ordens.
Ao sinal que nos foi enviado nós entramos em busca do único objetivo e até certo ponto, conseguimos pegar o sargento, mas na hora de sair eles estavam prontos pra acabar com a gente, era uma armadilha.
O Micael já tinha saído de dentro da boca que nós estávamos, o sargento estava no meio de nós e eu fui logo atrás, ele não tinha visto o que eu vi. Para eles não importava se o sargento sairia vivo ou morto, eles queriam acabar com a gente.
Tentei avisar ele que tinha um atirador bem acima de nós, mas não consegui a tempo o suficiente pra poder salvar ele.
E foi nesse momento que eu vi tudo aquilo que eu mais temia acontecendo, por um descuido meu, um erro na mira, o único amigo que eu tinha, meu irmão, levou um tiro nas costas, um tiro fatal. Ele caiu de frente para mim, eu corri e segurei ele nos meus braços, mas foi tarde demais. Na hora em que o seu corpo tocou meus braços e eu vi as minhas mãos sujas de sangue, com o sangue dele, eu paralisei.
O único reflexo que eu tive foi de mirar naquele filho da p**a e atirar na cabeça dele quantas vezes fosse preciso, para talvez na esperança de trazer o meu irmão de volta.
Precisei chamar reforço pois não ia conseguir levar ele e o sargento que estava escondido esperando as coisas se acalmarem, eu não tinha forças para carregar o corpo dele sozinho.
Até hoje não consigo esquecer a cena, tinha um deles numa laje acima de nós, Micael estava de costas e não enxergou o bandido, mas eu sim, eu vi aquele desgraçado, mas não fui bom o suficiente na mira para m***r o desgraçado e ele atirou, mas não em mim, ele atirou em quem estava de costas pra ele, covarde. Assim que o Micael caiu em meus braços, mesmo desnorteado, tive forças para acertar a cabeça do filho da p**a que matou meu único companheiro, jamais ia deixar aquele verme ficar vivo.
Hoje e até o fim dos meus dias eu irei me sentir culpado pela morte da pessoa que mais me deu força pra chegar onde eu jamais eu achei que conseguiria. Nos meus dias de crise, e todas as vezes em que eu precisei de alguém era ele que estava ali, me incentivando e sem me deixar desistir.
Pelas palavras dele “chegaremos no topo juntos, como irmãos”. Eu tatuei essa frase no meu corpo, nós realmente vamos chegar no topo juntos, infelizmente não da forma que nós sonhamos. Eu vou atrás de realizar todos os nossos sonhos, por mim e por ele.
Enxuguei as lágrimas que se formavam nos meus olhos e engoli o choro que ameaçou sair, assim como todas as vezes em que eu penso nesse assunto. Depois da minha mãe, essa foi a maior perda que eu já tive na vida.
Eu não gosto de pisar em favela e nem de invadir morros seja pra qualquer finalidade, eu não gosto de nada que possa me fazer lembrar daquele fatídico dia, o maldito dia em que mais uma parte de mim morreu.
Respirei fundo e voltei a me concentrar em tudo que eu tinha que fazer, se tinha uma coisa que eu iria me dedicar com a minha vida seria isso, eu não podia vacilar de novo.
Eu vou honrar a memória do Micael pra sempre. Ele não vai ter sido morto em vão.
Ignorei meus pensamentos mórbidos e fui atrás do tal cadete. Esse é só o começo de uma nova vida.