Capítulo 1: Ezarah
Ezarah observava a cor do céu mudar languidamente, como tinta se espalhando pelas nuvens enquanto o sol terminava sua descida. Levou a piteira que segurava aos lábios, tragando de maneira distraída, a fumaça escapando após alguns segundos e batendo contra o vidro da janela. Seus pensamentos não estavam tão distantes assim, encontrando-se, na verdade, atrás das grandes portas a alguns metros. Eles voariam até mais longe, se permitisse, mas mantinha-se ancorado aos problemas do momento.
Havia chegado há algum tempo e fora impedindo de entrar, os servos se desculpando e explicando que o rei estava em uma reunião com o filho. Permanecera não muito longe, apenas o bastante para que não conseguisse discernir o que era dito na sala, mas sua audição captava algumas coisas aqui e ali, que não faziam sentido por si só. Se não fossem pelos guardas nas portas e os criados, estaria tentando ouvir a conversa descaradamente. Há muito que tentava entender qual a razão de tantos atritos entre a família real, que pareciam ir além da doença do primogênito.
Não era muito difícil de imaginar, um rei com um único herdeiro, um alfa inadequado e doente, a resposta deveria ser clara. Ezarah olhou novamente para os criados ômegas do príncipe, que o esperavam atrás das portas, fazendo-os se encolherem ainda mais. Raramente via o príncipe herdeiro, e quando isso acontecia, estava sempre cercado por eles, não seria mais prático empregar criados betas, que não teriam de se retirar durante o cio, ou que não incitariam os hormônios do príncipe? Aquela era uma questão que causava grande fofoca no palácio, a preferida sendo que o herdeiro, apesar de doente, era um alfa depravado e que seus empregados na verdade eram um harém pessoal. Também havia a questão dele sequer conhecer o reino que um dia deveria governar, além da maioria dos boatos dizerem que ele não estudava, afinal, não havia palavra sobre qualquer professor que o tivesse atendido.
Ezarah possuía muitas qualidades, entre boas e ruins, a lealdade estava entre elas. Era leal ao rei e seria igualmente leal a príncipe quando este ascendesse ao trono, e um rei inadequado sempre trazia tempos terríveis ao povo e à terra. Mas não importava o quanto tentasse espioná-lo, qualquer informação era irrisória. A segurança que o rei colocava ao redor de seu filho deixava claro que havia algo a esconder.
Mordeu a piteira, apagando o cigarro e passando-a para seu valete, Oliver, um beta que nunca parecia estar prestando atenção em qualquer coisa, mas cujo temperamento paciente agradava-lhe e era ainda mais útil quando o alfa se irritava.
Agradeceu aos deuses quando a porta enfim se abriu, fazendo um sinal para que o criado esperasse onde estava, enquanto caminhava rápido e determinado em direção ao príncipe. Parou o mais perto que se atrevia, fazendo uma mesura elegante.
“Vossa Alteza.” disse à guisa de cumprimento, a expressão neutra. “Eu suponho que o humor de Sua Majestade esteja um tanto... Inflexível hoje. Temo por aquele que tente amaciá-lo.”
“Ele é sempre inflexível.” O príncipe murmurou para si mesmo, baixinho, mas os ouvidos afiados do alfa captaram as palavras. Arden, o famoso herdeiro, era a cara do pai, os mesmos olhos de mel e cabelos negros, bochechas altas e um maxilar quadrado. Ainda assim, não poderia ser mais diferente. Enquanto o rei exalava vivacidade e força, o herdeiro tinha uma aparência de fato doente, magro e retraído, sem músculos fortalecendo sua estatura.
Ezarah não respondeu, fitando-o por alguns segundos, apenas abrindo caminho para a Alteza continuar andando. Aquilo definitivamente era estranho, o rei ainda demorou alguns minutos para chamá-lo, e o general não costumava demorar a ser atendido. Servia ao monarca desde gerações passadas.
Quando a porta foi aberta e seu nome chamado por um page, não perdeu tempo em entrar no salão, seus passos abafados pelo carpete felpudo que cobria todo o chão. O rei possuía um físico atarracado, parecendo-se com um o tronco de uma árvore que já vira muitos outonos, a pele clara, levemente queimada de sol, o rosto quadrado e olhos cor de mel, com cabelos curtos e ondulados, negros. Naquele dia, sua face parecia contraída, como se toda a tensão acumulada por décadas houvesse deixado os músculos de seu corpo sempre retraídos.
“É ótimo vê-lo com saúde, Majestade.” apressou-se em cumprimentar, fazendo uma mesura polida, a alguns metros do outro.
“Meu caro Ezarah, aproxime-se, sim?” o rei Tierno Dagen disse, fazendo um gesto para seu general, que se ergueu novamente e andou até onde ele estava. “Sente-se.” Apontou para as almofadas douradas e vermelhas ao seu lado, a sala toda decorada com tais cores, fazendo com que o sol brilhasse em algumas partes e criasse sombras cor de sangue em outras.
“Obrigado por ter me recebido em cima da hora, o assunto foi inesperado, como disse minha mensagem.” Ezarah sentou-se aprumado em seu uniforme militar, n***o com detalhes das mesmas cores da sala. Sua irmã do meio, uma beta que havia se casado com outro de sua classe, não conseguia engravidar há anos e finalmente desistira, voltando-se para adotar, como grande parte dos casais que possuíam dinheiro suficiente para isso. As crianças tinham menos de um ano e eram um casal de gêmeos de um ramo distante da sua família, que haviam perdido os pais recentemente durante um roubo em sua casa. Não seria um problema tão grande se eles não fossem nobres, ainda mais próximos do rei. Crianças eram um item raro naquela época, o general queria ter certeza de que elas não seriam tomadas de sua irmã.
“Não se preocupe, meu amigo, já está tudo resolvido.” Dagen entregou um envelope que estava atrás de si para o outro, que o aceitou. “Vá em frente, pode abrir.” Deu um aceno encorajador ao ver a breve hesitação em Ezarah ao aceitar o envelope. Ezarah, por sua vez, sorriu, fazendo isso e checando os papéis o mais rápido que conseguiu, tendo certeza de que estava tudo devidamente assinado com o selo real.
“É um grande alívio para mim e minha família”, o general dizia quando foi interrompido por um gesto alheio. “Majestade?”, franziu de leve as sobrancelhas, estranhando.
Dagen fez um sinal, e a ele os servos que estavam em prontidão responderam retirando-se nas pontas dos pés, curvando-se elegantes, sem nunca dar as costas ao monarca ou erguer o rosto.
“Eu tenho algo a lhe pedir e não quero que veja este meu gesto como uma compra de favores.”
“De modo algum.”
“Você bem sabe, assim como todos, que meu filho é doente.” O rei fez uma pausa e o general concordou com a cabeça. “Mas poucos sabem qual doença o acomete e o mantém preso neste lugar”, ele ergueu a mão como se para demonstrar o que dizia. “A condição apenas se agrava e é o tipo que precisa ser escondida, você vê, até que uma solução tenha surgido, você é uma das poucas pessoas que confio nesse frágil momento”.
Dagen suspirou, endireitando ainda mais as costas. A postura de todos os alfas era rígida, para demonstrar a dignidade que era esperada deles, e até ômegas e betas sempre se preocupavam em não deixar os ombros caírem. Entretanto, os ombros do rei estavam voltados para dentro por um momento, como se estivesse debatendo consigo mesmo antes de falar, o que lhe deu um breve ar sinistro.
“O fato é que Arden é um ômega.” Uma longa pausa, na qual os dois se encaravam e Ezarah assimilava as consequências do que lhe fora dito. “Essa conversa de que ele é doente são os efeitos colaterais de seus inibidores e estimulantes, para que possa se parecer mais com um alfa, enquanto seus criados ômegas disfarçam quaisquer resquícios com seus odores fortes.”
O general passou a mão pelos cabelos loiros, desviando o olhar e permanecendo ainda em silêncio. A vida lhe ensinara o quão escutar era importante. Dagen se levantou, indo até uma janela próxima e parando frente a ela, as mãos cruzadas atrás das costas. Quando o silêncio se prolongou, Ezarah se manisfestou.
“E em que posso servi-lo, Majestade?”, levantou-se, recusando-se a permanecer sentado enquanto o soberano ficava em pé, parando alguns passos atrás dele.
“As drogas que ele usa estão parando de funcionar conforme ele envelhece. Preciso que ele esteja longe da corte, em um lugar seguro, onde possa ficar até eu me decidir. A situação é delicada. Não tive outro herdeiro e não posso deixar minha linhagem perecer, mesmo que isso signifique passar adiante a um baixo ômega.” Dagen virou-se de frente para o outro, sua expressão séria. “E, se o tempo chegar e essa for a única solução, preciso que ele seja educado. Discretamente. Você é a única pessoa que confio e tem as qualidades necessárias.”
“Eu agradeço por sua confiança.”
“Você é dolorosamente perfeito, meu amigo.” Dagen pôs as mãos sobre os ombros do loiro, um leve sorriso aparecendo em seus lábios. “Às vezes me pergunto se depois de tantos anos, crises e batalhas, realmente somos amigos.”
O rei riu com a falta de resposta. Começando a voltar para a cadeira, mas parando no meio do caminho, como se houvesse acabado de lembrar-se de algo. “Arien!”, a voz do moreno ecoou e logo um criado de boa aparência apareceu. “Mande trazê-lo”. Arien saiu rapidamente, e Dagen sentou-se outra vez, parecendo agora levemente impaciente. Ezarah permaneceu parado em pé, em posição de descanso por puro hábito.
O cheiro o invadiu antes de qualquer outra coisa, parecendo entrar em sua corrente sanguínea como uma droga. Seus punhos se contraíram enquanto o instinto aflorava, fazendo-o estar ciente de todo o seu corpo e o espaço que o separava da fonte daquele odor. Sua boca salivou e ele foi obrigado a engolir em seco, gesto que não permaneceu ignorado pelo outro. Suas pupilas se dilataram, pôde sentir os dentes se tornando um pouco mais afiados antes de conseguir se controlar novamente. Por um instante, seu próprio cheiro quase impregnou-se por todo o cômodo, mas Ezarah respirou fundo, dizendo a si mesmo que aquele não era um dos dois momentos que seus instintos deveriam despertar: caçar e f***r. Tudo para seus hormônios bestiais parecia se resumir a isso.
Sentia o cheiro de natureza, uma floresta acordada após uma chuva matinal, cheiro de folhas e frutas frescas, que fazia-o querer afundar-se nele. O rapaz que entrou por uma porta do outro lado do cômodo era tão delicado e complexo como aquilo. Seu corpo não era excessivamente feminino, como o de muitos ômegas, mas esguio e elegante, com curvas suaves e nos lugares certos, a pele tinha o mesmo tom de Ezarah, um castanho profundo que já vira muito sol. Os cabelos também eram do mesmo tamanho que os seus, um pouco acima dos ombros, mas os deles eram encaracolados, de um tom mais escuro que sua pele. Olhos completavam a aparência que parecia ter sido cuidadosamente desenhada, negros ao ponto de não conseguir diferenciar as pupilas de suas íris.
“O que é isso?” Ezarah exclamou, afastando-se um passo como se para desvencilhar-se da situação, mas sua atenção permaneceu fixa no garoto.
“Isso, general,” Dagen flexionou a última palavra em sua língua, demorando-se nela “é um lembrete e um presente. Um lembrete de que já passou de sua terceira década e ainda não possui um herdeiro, mesmo sabendo da importância de sua espécie para nós.” Ezarah abaixou a cabeça, forçosamente. Agora despertos, seus instintos gritavam contra qualquer autoridade alheia a si. “E um presente meu para você, um concubino. Sei como você é exigente, meu amigo, e dei-me ao trabalho de mandar buscar um ômega lúpus para procriar com você.” O ômega se aproximou, como se aquela fosse sua deixa, parando atrás e ao lado do rei e se ajoelhando sobre os calcanhares, a cabeça baixa e os olhos no chão. “Não se esqueça também de Alysson.” O loiro cerrou os dentes em menção ao irmão. “Um ômega ainda não pareado e um lúpus como você. É direito da Coroa parear todos os como vocês, mas não fazemos isso à sua família há gerações, por reconhecimento a sua lealdade. Mas você e seu irmão parecem estar abusando do privilégio, que eu estou tomando agora de você. Dê-me um herdeiro tão habilidoso como você, use meu presente para isso e tenha um puro sangue. Se Alysson não apresentar-me um parceiro até o fim deste ano, irei escolher um alfa para ele.”
Quando Dagen terminou de falar aquilo, Ezarah estava pronto para matá-lo. Para fazê-lo pagar por ameaçar sua família e interferir em sua vida pessoal, mas ele era muito mais do que aquilo que bombardeava seu peito, parecendo querer sair a cada golpe. Alysson era a joia da casa, uma luz cálida em um mundo que era escuro ou ofuscante, morreria para protegê-lo. Mesmo enquanto pensava sobre lealdade e há quanto tempo sua linhagem servia ao reino, quão grande era seu prestígio, estando em uma categoria própria, acima da maioria dos demais nobres e mais influentes que grandes comerciantes, a certeza de que jamais permitiria que seu irmão mais novo fosse tocado sem desejar estava assentada em seus ossos há anos. O sangue clamava por ser honrado. Mesmo assim, concordou de maneira serena, em um instante sua face outra vez aprazível, olhando para o ômega como se o avaliasse e aprovasse.
“Ele seguirá para seu quarto. Vocês passarão a noite juntos e não espero saber de alguém se retirando no meio da noite.”
Mais uma vez, o loiro concordou, porque era inteligente demais para fazer qualquer coisa além disso. O reino beijaria as solas dos sapatos do rei se isso tornasse seus passos mais confortáveis, o soberano era correto, mas inevitavelmente temido. Era o general que tinha o privilégio de contar com seu favor, o que impedia que qualquer amizade pudesse mesmo germinar, como o outro imaginava que havia. Dagen provara-se bom, o que era sempre inesperado de pessoas com poder, tinha seus defeitos, como qualquer humano, mas era sempre ponderado.
“Eu agradeço a demonstração de apreço, não sei se sou…”
“Você é, você é digno. É por isso que estou lhe confiando meu filho e lembrando que sua família deve continuar a prestar seus serviços ao reino.” O rei o cortou, falando rápido e claro.
Se Ezarah pensasse demais sobre o assunto naquele momento, sobre todas as informações e responsabilidades que haviam sido jogadas sobre si, ficaria preso em um caminho sem saídas. Então apenas concordou, e o moreno, vendo seu silêncio, fez um breve aceno.
“Está dispensado.”
O general estendeu a mão na direção da terceira figura, que permanecera esquecida durante quase todo tempo, movendo o braço na direção da porta.
“Vamos, siga-me.”
Ao ouvir as palavras, o ômega se levantou, ao menos estava decentemente vestido, Ezarah pensou, com uma bata fina até os joelhos, de mangas compridas, e uma calça simples da mesma cor, um lilás fosco, que deveria ser muito caro, apesar da aparente simplicidade. Eram roupas confortáveis e práticas, não o tipo feito para exibição, o que lhe agradou profundamente. Os dois andaram para trás até a porta, como a etiqueta demandava.
Já fora do cômodo e a alguma distância, ele pôde enfim pensar na merda que havia sido enfiado.